INTERAÇÃO SOCIAL

Crianças e Copa: como tornar a experiência aliada no desenvolvimento?

Neuropsicopedagoga, psicóloga, psiquiatra e fonoaudióloga orientam como trabalhar linguagem, socialização, regulação emocional e convivência com os filhos

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A contagem regressiva para o início da Copa do Mundo, nesta quinta-feira (11/6), já movimenta famílias em todo o país. Camisas da seleção, bolões, reuniões entre amigos e a expectativa pelos jogos fazem parte de uma tradição que atravessa gerações. Mas além da paixão pelo futebol, especialistas destacam que o torneio também pode representar uma oportunidade valiosa para o desenvolvimento infantil e o fortalecimento dos vínculos familiares.

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Segundo profissionais das áreas de neuropsicopedagogia, psicologia, psiquiatria e fonoaudiologia, assistir aos jogos, conversar sobre as partidas e vivenciar as emoções típicas da competição podem contribuir para o desenvolvimento de habilidades cognitivas, sociais e emocionais das crianças.

Segundo a neuropsicopedagoga especialista em autismo e desenvolvimento infantil, Silvia Kelly Bosi, a Copa oferece um ambiente rico para estimular aprendizagens que vão muito além do esporte. “A Copa do Mundo cria situações naturais de interação social, troca de informações e compartilhamento de interesses. As crianças observam regras, acompanham estratégias, aprendem sobre cooperação e vivenciam momentos de pertencimento. Tudo isso favorece o desenvolvimento de habilidades importantes para a vida.”

“No caso das crianças autistas, o futebol também pode servir como uma ponte para ampliar a comunicação e fortalecer conexões com familiares e colegas quando o tema desperta interesse genuíno”, explica.

Além dos aspectos cognitivos, a competição esportiva também funciona como um importante laboratório emocional. A expectativa antes das partidas, a alegria das vitórias e as frustrações das derrotas ajudam as crianças a compreender e nomear sentimentos.

De acordo com a psicóloga especialista em neuropsicologia, Thaís Barbisan, os jogos oferecem uma oportunidade prática para que pais e responsáveis ensinem sobre gestão emocional. “O esporte é uma das formas mais acessíveis de ensinar que nem sempre teremos o resultado que desejamos. A criança aprende que é possível lidar com a frustração, respeitar adversários, celebrar conquistas sem humilhar o outro e compreender que derrotas fazem parte da vida. São aprendizados que contribuem diretamente para o desenvolvimento da inteligência emocional”, afirma.

 

A especialista ressalta ainda que os momentos compartilhados diante da televisão podem se transformar em memórias afetivas duradouras. “Muitas pessoas se lembram de Copas que assistiram ao lado dos pais, avós ou irmãos. Esses momentos fortalecem o senso de pertencimento e ajudam a construir histórias familiares que permanecem na memória por muitos anos. A conexão emocional criada nesses encontros tem um valor enorme para o desenvolvimento infantil”, destaca.

Atenção aos excessos e à sobrecarga emocional

Embora o clima de celebração seja positivo, a psiquiatra Fabricia Signorelli alerta que a intensidade emocional gerada por grandes eventos esportivos exige equilíbrio. “A Copa desperta emoções muito intensas porque ativa mecanismos neurobiológicos relacionados à identidade coletiva, ao pertencimento e ao sistema de recompensa. Isso é saudável quando vivenciado de forma equilibrada. O problema surge quando a competição eleva os níveis de ansiedade e irritabilidade, culminando em conflitos familiares.”

“A literatura científica em desenvolvimento infantil é clara: o comportamento dos pais funciona como um 'modelo parental' crucial. A criança ainda não tem o amadurecimento completo de várias áreas cerebrais relacionadas à capacidade de regular as próprias frustrações; ela aprende a gerenciar a perda observando como os adultos reagem à derrota do time. Se a resposta familiar à perda for a agressividade ou o desespero, transferimos uma sobrecarga emocional disfuncional para os filhos”, explica.

A médica recomenda atenção especial à autorregulação emocional dentro de casa, além de um olhar atento ao excesso de telas e à privação de sono. "O entretenimento esportivo deve ser uma ferramenta de conexão e bem-estar, e não um gatilho para o sofrimento ou para o aprendizado de reações desadaptativas diante das frustrações da vida”, afirma.

Uma oportunidade para estimular a linguagem

A Copa também pode ser uma aliada no desenvolvimento da comunicação infantil. Segundo a fonoaudióloga Paula Anderle, o evento cria inúmeras oportunidades para ampliar o vocabulário e incentivar a expressão verbal.

“Conversar sobre os jogos, comentar as jogadas, identificar jogadores, descrever emoções e até fazer previsões sobre os resultados são atividades que estimulam a linguagem de forma espontânea e divertida. Quando a criança participa dessas conversas, ela desenvolve habilidades importantes de compreensão, argumentação e comunicação”, afirma.

A especialista destaca que o envolvimento dos pais faz toda a diferença nesse processo. “Não é necessário transformar o futebol em uma aula. O mais importante é aproveitar os momentos de interação para fazer perguntas, ouvir opiniões e incentivar a criança a expressar seus pensamentos. A comunicação se fortalece justamente nesses contextos naturais e significativos”, explica.

Inclusão e participação

Para famílias de crianças com transtorno do espectro autista (TEA), as especialistas recomendam alguns cuidados extras, especialmente diante de ambientes com excesso de estímulos sonoros, aglomerações ou mudanças bruscas na rotina.

“Quando houver comemorações, reuniões familiares ou exposição a sons intensos, vale antecipar o que vai acontecer e respeitar os limites sensoriais da criança. Com planejamento e acolhimento, ela também pode participar desses momentos de forma confortável e positiva”, orienta Silvia.

Mais do que um campeonato, a Copa do Mundo pode ser uma oportunidade para reunir famílias, estimular aprendizados e criar experiências compartilhadas que ultrapassam os 90 minutos de jogo.

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“Quando o esporte é vivido como uma experiência de convivência, respeito e troca afetiva, ele se transforma em uma ferramenta poderosa para o desenvolvimento humano. Essa talvez seja uma das maiores vitórias que a Copa pode proporcionar dentro de casa”, diz Thaís.

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