O uso de peptídeos injetáveis cresce no Brasil, enquanto a Anvisa mantém rigor sobre o uso dessas substâncias para emagrecimento, ganho de massa e regeneração. No início de 2026, a FDA, agência federal do Departamento de Saúde dos Estados Unidos, oficializou a reclassificação de 14 peptídeos nos Estados Unidos, permitindo que sejam manipulados e vendidos em farmácias sob prescrição médica, o que aqueceu ainda mais o debate nacional.

No Brasil, porém, o cenário ainda é bem diferente, e o caminho entre a promessa e a prática clínica segura é mais longo do que as redes sociais costumam mostrar. Mas afinal, o que são peptídeos?

De acordo com o nutrólogo Sandro Ferraz, especialista em emagrecimento, peptídeos são cadeias curtas de aminoácidos que atuam como mensageiros biológicos no organismo, interagindo de forma específica com receptores celulares e modulando processos como metabolismo, inflamação, cicatrização e sinalização hormonal.

Na prática médica, eles já existem há décadas: a insulina e seus análogos, pilares no tratamento do diabetes, e os agonistas do receptor GLP-1, como a semaglutida, são exemplos de terapias peptídicas consolidadas. "O problema não está nos peptídeos em si, mas na forma como muitos deles estão sendo usados sem critério clínico e sem evidência científica robusta", explica o especialista.

Os riscos da automedicação x Anvisa

O crescimento acelerado do uso de peptídeos com promessas de rejuvenescimento, emagrecimento, melhora hormonal e performance física tem preocupado especialistas, especialmente diante da escassez de estudos clínicos robustos e da ausência de aprovação regulatória para muitas indicações.

Revisões publicadas em periódicos como Frontiers in Endocrinology e The Journal of Clinical Endocrinology and Metabolism alertam que o uso de terapias sem evidência sólida pode gerar efeitos imprevisíveis no metabolismo, no eixo hormonal e no sistema imunológico. Para Sandro, o cenário exige atenção redobrada: "O que chega ao paciente pelas redes sociais raramente vem acompanhado do contexto clínico necessário. Cada organismo responde de forma diferente, e o uso indiscriminado pode fazer mais mal do que bem", pontua.

Enquanto alguns compostos contam com décadas de estudos e aprovação regulatória, outros ainda estão em fases pré-clínicas ou iniciais de ensaios, sem dados suficientes de segurança, dose ideal ou efeitos de longo prazo. No Brasil, a Anvisa mantém regulação rigorosa e qualquer uso fora dessa estrutura é considerado irregular. "A discussão não é ser contra ou a favor dos peptídeos. É entender onde termina a inovação e onde começa o improviso", reforça o nutrólogo.

Quando o uso pode ser indicado

Nem tudo nesse universo é experimental. As exceções com aprovação da Anvisa incluem a semaglutida, a tirzepatida e o hormônio de crescimento recombinante, que podem ser prescritos normalmente dentro das indicações aprovadas ou em uso off-label documentado.

Na prática clínica, isso se traduz em casos bem definidos, como na obesidade e no controle metabólico. A semaglutida e a tirzepatida, aprovadas pela FDA e pela Anvisa após rigorosos ensaios clínicos, demonstraram perdas de peso superiores a 15% em estudos com milhares de pacientes. Elas atuam simulando hormônios intestinais que regulam a saciedade e o metabolismo da glicose, reduzindo o apetite e melhorando o controle glicêmico.

Já a teriparatida, também aprovada, é indicada para osteoporose e funciona estimulando a formação óssea ao imitar a ação do paratormônio, hormônio naturalmente produzido pelo organismo. Enquanto a liraglutida, outro peptídeo aprovado, atua nos receptores GLP-1 para estimular a secreção de insulina de forma dependente da glicose, reduzindo o risco de hipoglicemia.

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"Esses são exemplos de peptídeos que passaram por todo o processo científico e regulatório necessário. Quando usados com indicação correta e acompanhamento médico, eles representam avanços reais para os pacientes", explica o especialista, alertando para o uso indiscriminado de substâncias que ainda não têm esse respaldo, mas que circulam como se tivessem.

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