Emagrecer ou perder saúde? O erro de quem usa canetas emagrecedoras
Perder peso rápido pode esconder um dano severo aos músculos e travar seu metabolismo; entenda por que o ponteiro da balança engana tanto quem não treina
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O uso das chamadas canetas emagrecedoras tem ganhado cada vez mais espaço entre pessoas que buscam emagrecimento rápido, mas especialistas destacam que perder peso não é, necessariamente, sinônimo de emagrecer com saúde.
Segundo Wantuil Ferreira de Paula Filho, professor da Una e mestre em Ciências do Envelhecimento, o principal ponto de atenção está no risco de redução de massa muscular ao longo do processo, especialmente quando o uso da medicação não vem acompanhado de treino e estratégia adequada.
De acordo com Wantuil, essas medicações atuam principalmente por meio da redução do apetite, levando a menor ingestão calórica e, consequentemente, à perda de peso. O problema é que, em cenário de restrição calórica, o organismo pode reduzir também tecidos metabolicamente ativos, como a musculatura, caso não receba estímulo suficiente para preservá-la.
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“As canetas emagrecedoras têm como principal efeito a redução do apetite, o que leva a um menor consumo alimentar e, consequentemente, a um déficit calórico. A partir disso, a pessoa perde peso. Porém, nesse processo, o corpo não recebe estímulos suficientes para preservar a massa muscular”, explica.
Ele destaca que essa perda pode trazer impactos importantes, como:
- Redução de força
- Piora da funcionalidade
- Queda do metabolismo basal
- Maior risco de recuperação do peso no futuro
“Não se trata de ser contra o uso das canetas, mas sim de entender que, sem uma estratégia bem definida, especialmente com a inclusão de exercício físico, o processo pode ser incompleto e, em alguns casos, prejudicial”, complementa.
Sarcopenia
O professor lembra ainda que, a partir dos 30 anos, o corpo já passa por um processo fisiológico natural de perda de massa muscular e eficiência metabólica, com redução estimada entre 3% e 8% por década, podendo se intensificar após os 60 anos.
Esse quadro está relacionado à sarcopenia, condição mais comum no envelhecimento e que pode comprometer força, autonomia e qualidade de vida. Para Wantuil, o exercício físico, especialmente o treinamento de força, deixa de ser apenas uma ferramenta estética e passa a ocupar papel central na promoção da saúde. “Treinar deixa de ser apenas uma questão estética e passa a ser uma estratégia essencial de manutenção da saúde”, ressalta.
Ele também pondera que é preciso cautela ao afirmar que jovens estejam desenvolvendo sarcopenia em função dessas medicações, já que o diagnóstico exige critérios específicos, como:
- Baixa força muscular
- Redução de massa magra
- Piora do desempenho físico
Ainda assim, alerta para um cenário preocupante de perda muscular precoce em jovens que utilizam medicamentos, seguem dietas muito restritivas e não praticam treino de força.
Outro ponto abordado pelo especialista é a falsa ideia de que treinos mais intensos necessariamente promovem mais emagrecimento. Segundo ele, métodos como o HIIT apresentam resultados semelhantes aos exercícios contínuos moderados na composição corporal, desde que o volume de treino seja equivalente. Por isso, a aderência à prática, ou seja, a capacidade de manter o exercício ao longo do tempo, tende a ser mais importante do que escolher o método “mais pesado”. Wantuil também chama atenção para o risco de lesões em diferentes modalidades.
Estudos apontam taxa de lesão em torno de 19,4% no crossfit em seis meses e índices superiores a 60% no futebol ao longo de uma temporada, o que reforça que o problema não está apenas na intensidade, mas no contexto, na execução e no acompanhamento profissional. “A escolha mais inteligente não é buscar o treino mais intenso ou mais eficiente, mas sim aquele que você consegue manter com consistência”, resume.
Exageros podem levar a lesões
Ao tratar da prevenção e do manejo desses quadros, Patrícia Tavares, também professora da Una e fisioterapeuta, destaca que o foco precisa estar na relação entre capacidade física e demanda imposta ao corpo. “O problema não é o crossfit ou a corrida em si, e sim quando a exigência é maior do que o corpo consegue suportar naquele momento. A dosagem entre a capacidade vs. a demanda é um dos pontos principais para prevenção”, afirma.
Para a docente, aumentos bruscos de volume, intensidade ou frequência estão entre os principais gatilhos para lesões, e a construção de uma base física consistente passa por força muscular, mobilidade articular, controle motor, boa técnica e orientação profissional. Patrícia também reforça que o sono e o intervalo entre os treinos são decisivos tanto para prevenção de lesões quanto para recuperação muscular.
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Sobre a sarcopenia, ela lembra que, embora seja mais associada ao envelhecimento, também pode acometer jovens em situações específicas, como no consumo elevado de corticoides. “Para a prevenção, o treino de força muscular, no mínimo três vezes por semana, associado a uma alimentação com ingestão de proteína suficiente, é importante. Além disso, exercícios funcionais e de equilíbrio ajudam nesta manutenção.”