Espectro autista: rastreamento visual pode transformar o diagnóstico
No Dia Mundial da Conscientização sobre o Autismo, especialista destaca avanço dos critérios, aumento da prevalência e alerta para riscos da desinformação
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Um novo recurso tecnológico pode mudar a forma como o autismo é identificado nos primeiros anos de vida. Aprovado pelo FDA, nos Estados Unidos, um aparelho de rastreamento visual tem sido utilizado como ferramenta auxiliar no diagnóstico do transtorno do espectro autista (TEA), permitindo avaliar padrões de atenção e comportamento de crianças de forma objetiva.
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Segundo o neurologista infantil Hélio Van Der Linden, membro do Departamento Científico de Transtornos de Neurodesenvolvimento da Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil (SBNI), a inovação representa um avanço importante, especialmente para o diagnóstico precoce. “Trata-se de um instrumento validado, que pode contribuir para identificar sinais do autismo mais cedo. A expectativa é que, no futuro, tecnologias como essa também estejam disponíveis no Brasil”, explica.
O tema ganha ainda mais relevância no Dia Mundial de Conscientização sobre o Autismo, lembrado nesta quinta-feira (2/4), que reforça a importância de ampliar o debate sobre diagnóstico, acesso e cuidado. Nos últimos anos, o aumento no número de diagnósticos tem chamado a atenção. Dados do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC), divulgados em 2025, indicam que 1 em cada 31 crianças norte-americanas está no espectro autista, um crescimento expressivo em relação às décadas anteriores.
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Para o especialista, a principal explicação está na evolução dos critérios diagnósticos. “Houve um aumento expressivo na identificação dos casos mais leves, especialmente do TEA nível 1 de suporte. Hoje, entram no diagnóstico situações que antes não seriam classificadas dentro do espectro”, afirma.
Ele ressalta que, embora existam indícios de aumento real de casos, outros fatores ainda estão em estudo. “Fatores ambientais, genéticos, idade paterna e materna mais avançada e condições durante a gestação podem influenciar, mas a principal causa do aumento da prevalência é, de fato, a ampliação dos critérios diagnósticos”, diz.
Mais informação, mais diagnóstico, e mais risco de desinformação
O maior acesso à informação também contribui para o cenário atual, mas traz desafios. “Hoje há uma enorme disponibilidade de informações sobre o autismo. Isso aumenta a conscientização, mas também abre espaço para a disseminação de informações falsas, principalmente em relação a tratamentos”, alerta. Segundo o médico, terapias sem comprovação científica podem prejudicar as famílias.
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“Muitas vezes, há investimento de tempo, dinheiro e expectativa em abordagens que não têm validação científica. O tratamento deve ser individualizado, baseado em avaliação clínica e em intervenções estruturadas, como a análise aplicada do comportamento (ABA)”, explica.
A pesquisa em autismo segue avançando, com estudos sobre fisiopatologia, neurotransmissores e possíveis subtipos do transtorno. “Já existem estudos sugerindo subtipos de autismo relacionados a diferentes alterações cerebrais. No futuro, isso pode ajudar a prever melhor a evolução de cada criança”, afirma.
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Apesar dos avanços, o especialista reforça que o diagnóstico continua sendo o ponto de partida para o cuidado adequado. “A conscientização é fundamental para garantir diagnóstico precoce, acesso ao tratamento correto e melhor qualidade de vida para as crianças e suas famílias”, ressalta.