A recente oferta do nirsevimabe, anticorpo monoclonal que garante proteção imediata contra o vírus sincicial respiratório (VSR), no Sistema Único de Saúde (SUS), ocorre em meio ao início da temporada de maior circulação do vírus e de outros agentes respiratórios, responsáveis por sobrecarregar o sistema de saúde.

A infectologista Rosana Richtmann, do Instituto Emílio Ribas, destaca que o país vive um momento importante na prevenção: o nirsevimabe fornece anticorpos prontos, em dose única, com proteção durante todo o período de circulação do vírus (cerca de seis meses). “A expectativa é reduzir hospitalizações, internações em UTI - hoje necessárias para uma em cada três crianças internadas por bronquiolite, e mortes.”

Foco nos bebês prematuros

O nirsevimabe passa a ser oferecido no SUS para dois grupos principais:

Bebês prematuros nascidos após agosto de 2025 (com menos de 37 semanas e até 6 meses de idade)

Crianças de até 24 meses com comorbidades, como broncodisplasia, cardiopatias congênitas, anomalias das vias aéreas, doenças neuromusculares, fibrose cística, imunocomprometimento grave e síndrome de Down

“A disponibilidade de uma tecnologia como o nirsevimabe no SUS representa um avanço importante para a proteção da saúde infantil no Brasil. Ao ampliar o acesso a estratégias inovadoras de prevenção, especialmente para populações mais vulneráveis, damos um passo importante para reduzir o impacto das infecções respiratórias graves em bebês e contribuir para uma nova perspectiva na saúde pediátrica”, afirma Guillaume Pierart, diretor-geral de vacinas da Sanofi no Brasil.

Para Denise Suguitani, diretora da ONG Prematuridade.com, a medida também representa um avanço significativo, já que bebês prematuros já enfrentam uma jornada intensa desde o nascimento. “Muitas vezes eles passam por longos períodos na UTI neonatal e permanecem mais suscetíveis a infecções respiratórias nos primeiros meses de vida. A possibilidade de prevenção contra o VSR traz mais segurança para essas famílias.”

Ela relembra uma pesquisa recente do Datafolha que apontou que 75% dos pais de prematuros enfrentaram dificuldades para vacinar seus filhos, enquanto 65% consideram o processo estressante. “Além disso, 36% acreditam, de forma equivocada, que o calendário vacinal é igual ao de bebês nascidos a termo (nascidos no tempo correto).”

O infectologista pediátrico Renato Kfouri explica que a imaturidade do organismo, mais acentuada nos prematuros, aumenta o risco de complicações. “Esse cenário é agravado em casos de ausência de aleitamento materno. Além disso, é comum a persistência de chiado após a infecção. Proteger crianças vulneráveis antes da infecção representa um avanço importante para reduzir complicações graves e melhorar o cuidado com a saúde infantil.”

Uma pesquisa recente, publicada no periódico científico Pediatric Pulmonology, mostrou que crianças hospitalizadas pela doença nos primeiros meses de vida apresentaram, na vida adulta jovem, redução persistente da função pulmonar e sinais de obstrução das vias aéreas, independentemente de fatores como asma ou exposição ao tabaco.

“Esses achados sugerem que a bronquiolite por VSR no primeiro ano de vida aumenta significativamente o risco de chiado recorrente e asma na infância”, afirma o infectologista Guenael Freire, do laboratório São Marcos, da Dasa em Minas Gerais.

De acordo com a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), os bebês prematuros nascidos nas maternidades do Hospital Metropolitano Odilon Behrens (HOB), Risoleta Tolentino Neves, Sofia Feldman, Santa Casa, Odete Valadares e Hospital das Clínicas podem receber a vacina dentro das próprias instituições. 

Já as demais crianças prematuras com até seis meses de idade e as crianças de até 2 anos com comorbidadesque já tenham recebido alta hospitalar podem tomar a dose no Centro de Referência em Imunobiológicos Especiais (CRIE).

Cenário de alerta

Segundo o Ministério da Saúde, em 2025 o Brasil registrou 120.176 casos de síndrome respiratória aguda grave (SRAG) por vírus respiratórios. Desse total, 43.946 (36,6%) foram causados pelo VSR. Entre esses, mais de 36.218 hospitalizações ocorreram em crianças menores de dois anos (82,5%).

Dados do OpenDataSUS indicam aumento nas hospitalizações: entre fevereiro e junho de 2025, houve 36% mais internações em bebês de até um ano em comparação com 2024 e 71% mais em relação a 2023. Em maio do ano passado, 31% dos bebês hospitalizados precisaram de UTI. Mais de 70% das crianças internadas nasceram saudáveis e a termo, mostrando que o risco não se restringe a grupos considerados de alto risco.

Em Minas Gerais, foram notificados 87 casos neste ano, com um óbito. No ano passado, foram 803 casos confirmados e 13 mortes de crianças menores de 2 anos, de acordo com a Secretaria de Estado de Saúde (SES-MG).

Crianças hospitalizadas pela doença nos primeiros meses de vida apresentaram, posteriormente, redução persistente da função pulmonar

Secretaria de Saúde do Distrito Federal

Como ocorre a transmissão?

O VSR é a principal causa de bronquiolite, uma inflamação dos bronquíolos, pequenas ramificações dos brônquios responsáveis por levar oxigênio ao tecido pulmonar, e uma das maiores causas de infecções respiratórias em recém-nascidos e crianças pequenas.

“A transmissão do VSR ocorre pelo ar, especialmente em contato próximo, a menos de dois metros de uma pessoa infectada”, explica Rosana. Crianças maiores, que frequentam creches e escolas, costumam levar o vírus para dentro de casa. A recomendação é reforçar a higiene das mãos, orientar sobre etiqueta respiratória e evitar contato com bebês quando houver sintomas como coriza, tosse ou espirros.

“Eu chamo carinhosamente de ‘terroristinhas biológicos’, porque eles podem trazer para casa esses vírus. Os bebês, que ainda não desenvolveram sua própria proteção, acabam infectados. É importante ensinar a lavar as mãos e evitar o contato com irmãos menores quando houver sintomas gripais”, ressalta.

O VSR é altamente contagioso e pode evoluir de quadros leves, semelhantes a resfriados, para condições graves como bronquiolite e pneumonia. A pneumologista Ângela Honda, da Fundação ProAr, também alerta para o risco nas duas extremidades da vida: crianças e idosos. “A transmissão dentro de casa pode afetar pessoas mais velhas, frequentemente com doenças crônicas ou imunidade reduzida”, afirma.

Entre 2020 e 2022, houve mais de 30 mil casos graves por VSR no Brasil, com letalidade de 21% em idosos a partir de 60 anos em 2022. Além do impacto clínico, há também consequências financeiras e emocionais para as famílias devido às internações.

O VSR é responsável por cerca de 80% dos casos de bronquiolite e até 60% dos quadros de pneumonia em crianças menores de 2 anos

© Rovena Rosa/Agência Brasil

Quando os filhos estão em risco

Núbia Alves Santana, de 38 anos, conhece de perto a gravidade da doença. Mãe de Arthur, de 4 anos, Álvaro, de 2, e Ana Catarina, de 1 ano, ela enfrentou uma sequência de internações que transformou a rotina da família.

O filho do meio, Álvaro, nascido a termo em 2023, apresentou os primeiros sintomas ainda aos três meses de vida. Ao todo, foram quatro internações por bronquiolite causada pelo VSR. “A primeira foi com três meses, depois entre sete e oito meses, e novamente por volta de um ano e meio. Em todas, ele ficou cerca de uma semana no hospital, usando oxigênio de alto fluxo e fazendo fisioterapia respiratória. Hoje ainda tem chiado em alguns momentos, mas está bem, e seguimos todos os cuidados orientados pelos médicos”, conta.

Quando a família começava a se recuperar da sequência de sustos, um novo desafio surgiu. Na terceira gestação, Ana Catarina nasceu prematura, com 31 semanas. “Eu a visitava todos os dias na UTI. Quando já estávamos perto da alta, com cerca de 2,6 kg, veio outro susto: uma hérnia que exigiria cirurgia. Foi mais um momento difícil”, relembra.

'Essa experiência me marcou muito como mãe', conta Núbia

Júnior Rosa/Divulgação

Após a alta, a tentativa de retomar a rotina coincidiu com o início de novos quadros respiratórios na casa. “Primeiro o Álvaro ficou doente, depois a Catarina”, diz. Com a bebê, o quadro evoluiu rapidamente. “Percebi que ela não conseguia mamar e estava com dificuldade para respirar. Levei imediatamente ao hospital.”

Ana Catarina precisou de oxigênio de alto fluxo, fisioterapia e outros cuidados intensivos. Mesmo assim, o estado se agravou. “Veio a indicação de intubação. Foi uma decisão muito difícil. A gente nunca espera passar por isso com um filho tão pequeno. Mas confiamos na equipe e seguimos em frente”, relata.

A internação foi longa e exigente. Catarina precisou de intubação, passou por diversos procedimentos e recebeu duas transfusões de sangue por conta de anemia. “Foi uma fase muito intensa para todos nós.”

Núbia também destaca o impacto emocional da experiência. “Em um momento de desespero, ao perguntar sobre o estado da minha filha, ouvi de uma médica que, se eu sabia rezar, então era para rezar. Aquilo me abalou profundamente. Por outro lado, também encontrei profissionais extremamente acolhedores, que explicavam tudo e me davam segurança.”

O VSR é uma das maiores causas de hospitalizações em UTI, nos primeiros 6 meses de vida

Tony Winston/Agência Brasília

Diagnosticada com VSR aos três meses, antes de conseguir receber o imunizante, Catarina respondeu gradualmente ao tratamento. A melhora veio com o ajuste das condutas médicas após a transferência para outra unidade hospitalar, que adotou um protocolo diferente, incluindo inalação associada ao oxigênio, medicação e fisioterapia respiratória intensiva.

Após a alta, a família seguiu rigorosamente as orientações médicas. Dias depois, a bebê recebeu o imunizante contra o VSR, como forma de proteção para os meses seguintes. “Também fomos orientados a manter acompanhamento com pneumologista, o que nem sempre é fácil de conseguir”, diz.

Mesmo com todos os cuidados, um novo episódio respiratório no fim do ano reacendeu o medo. “A gente vive com essa insegurança. É muito difícil passar por tudo isso sem uma rede de apoio próxima”, desabafa.

Hoje, Núbia segue conciliando o cuidado com os filhos, o trabalho e os desafios do dia a dia. “Faço tudo o que posso por eles. Espero que minha história ajude outras mães a entenderem a importância da prevenção e do acesso ao imunizante contra o VSR. Porque viver isso é muito mais difícil do que a gente imagina.”

Prevenção começa na gestação

Em dezembro, o Ministério da Saúde passou a oferecer no SUS a vacina contra o VSR para gestantes a partir da 28ª semana. A estratégia protege o bebê ainda durante a gravidez. Mais de 1 milhão de doses foram disponibilizadas, com cerca de 425 mil aplicações realizadas. Dados publicados em 2025 pela Public Health Scotland mostram que bebês cujas mães foram vacinadas durante a gestação apresentaram cerca de 80% menos risco de hospitalização por infecção pelo vírus.

“A prevenção contra o VSR evoluiu muito nos últimos anos. Hoje temos estratégias complementares, como a vacinação materna e os anticorpos monoclonais, que ajudam a proteger o bebê justamente na fase mais vulnerável”, explica Maria Isabel de Moraes-Pinto, infectologista e coordenadora em vacinas na Dasa.

Além das estratégias clínicas, o acesso também se torna um fator decisivo. Serviços de vacinação domiciliar têm ganhado espaço como alternativa para famílias com recém-nascidos, permitindo a imunização em casa, com mais conforto e menor exposição a ambientes de circulação.

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“Mais do que uma infecção comum da infância, a bronquiolite passa a ser compreendida como um possível marcador da saúde respiratória futura. Nesse contexto, prevenção, acesso e acompanhamento ao longo do tempo ganham um novo peso no cuidado com os pequenos. A facilidade de acesso faz diferença, principalmente para famílias com bebês pequenos. Quando conseguimos levar a vacinação até a casa do paciente, reduzimos barreiras e ampliamos a proteção”, destaca a especialista.

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