Por Bruno Bucis - O consumo de álcool é um fator de risco bem conhecido para diversos tipos de câncer. Sabe-se que não há dose segura para evitar essa e outras doenças, mas a ciência ainda busca entender melhor essa relação. Foi o que fizeram pesquisadores da Austrália, em um estudo publicado no "British Journal of Cancer".
A análise envolveu a revisão de artigos relacionando os padrões de consumo alcoólico à mortalidade por cânceres de fígado, do trato aerodigestivo superior (TAS, que corresponde a garganta, boca e esôfago), de intestino (colorretal) e de mama. A investigação avaliou o potencial impacto preventivo da redução de álcool em evitar mortes, a partir de dados registrados na Austrália entre 1950 e 2018. Nesse período, a média anual de ingestão alcoólica foi de 12 litros entre homens e de 6 litros para mulheres.
Os resultados apontam que a redução de um litro ao ano foi associada à diminuição da mortalidade em 3,6% por câncer do TAS em homens e 3,4% em mulheres; em 4% por câncer de fígado em homens, mas sem mudanças relevantes em mulheres; em 1,2% por câncer colorretal em homens e 0,7% em mulheres; e em 2,3% por câncer de mama em mulheres, sem mudanças significativas em homens.
Não há quantidade segura para o consumo de bebidas alcoólicas. O álcool é sempre uma substância tóxica
“Esse estudo mostra um efeito populacional, que não deve ser visto como uma meta individual específica, pois o impacto real varia conforme fatores pessoais e o tipo de doença”, pondera o oncologista clínico Roberto Pestana, do Einstein Hospital Israelita.
“Ainda assim, como o risco do álcool é cumulativo e dose-dependente, reduzir o consumo tende a trazer benefícios, mas é importante frisar que para prevenção do câncer, o ideal é não beber álcool, não havendo nenhum nível sabidamente seguro de consumo.”
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O álcool é considerado fator de risco para desenvolvimento de câncer por alterar o funcionamento de diversos mecanismos. “O etanol é metabolizado em acetaldeído no corpo. Essa é uma substância tóxica e mutagênica, capaz de causar danos diretos ao DNA e interferir nos mecanismos de reparo celular”, explica o oncologista Juliano Rodrigues da Cunha, diretor da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO).
“Além disso, o consumo de álcool aumenta o estresse oxidativo, promove inflamação crônica e pode atuar como facilitador da ação de outros carcinógenos, como o tabaco, potencializando o risco tumoral.”
Sempre é hora de parar
Segundo o levantamento australiano, cerca de 45% das mortes por câncer no trato aerodigestivo superior e 48% dos óbitos por câncer de fígado decorrem do consumo frequente de álcool por mais de 20 anos. Essa ingestão foi considerada frequente quando era superior a 10 doses-padrão por semana, o que dá aproximadamente 10 latas de cerveja ou 1 litro de vinho. A correlação morte-álcool também foi observada em cerca de 15% dos óbitos por câncer colorretal em homens e 4% em mulheres, e de 14% das mortes por câncer de mama.
“No fígado e no TAS, o álcool contribui para inflamação crônica, que aumenta significativamente o risco de câncer. Já no intestino, além das inflamações, o álcool interfere no metabolismo celular e na microbiota”, detalha Juliano. “Em relação ao câncer de mama, o álcool está associado ao aumento dos níveis de estrogênio e a alterações hormonais que favorecem a carcinogênese, mesmo em consumos considerados baixos.”
Ao interromper o consumo, a exposição aos fatores carcinogênicos diretamente associados ao álcool diminui quase imediatamente, mas os danos causados podem levar muito tempo para se regenerar totalmente.
No fígado e no TAS, o álcool contribui para inflamação crônica
“No caso do câncer de fígado, estudos sugerem que, após interromper o consumo, o risco pode cair cerca de 6–7% ao ano, especialmente em quem ainda não tem cirrose avançada. Para tumores de boca, garganta e esôfago, o risco também vai diminuindo com os anos de abstinência. Por isso, é sempre momento de tentar parar de beber”, orienta Roberto.
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Há de se considerar ainda o estilo de vida. “Alimentação inadequada, obesidade, gordura no fígado, hepatites e outros problemas de saúde podem deixar o organismo mais vulnerável”, completa o oncologista.
