Alerta nutricional em embalagens pode prevenir obesidade, aponta estudo
Pesquisa verificou que indicar o excesso de itens prejudiciais diminui a prevalência e os óbitos associados à condição
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Por Arthur Almeida - Na correria do dia a dia, poucas pessoas costumam dedicar mais do que alguns segundos para ler as embalagens de bebidas e alimentos. Mas é justamente nesse pequeno intervalo que um detalhe pode fazer toda a diferença no cuidado com a saúde: um aviso objetivo e visível no rótulo que destaca a alta concentração de substâncias possivelmente prejudiciais, como açúcar, gordura e sódio.
Segundo uma pesquisa publicada em novembro de 2025 na revista "The Lancet Regional Health – Europe", a estratégia pode trazer benefícios à população. Por meio de simulações, cientistas da Universidade de Liverpool, na Inglaterra, conseguiram estimar os impactos da obrigatoriedade dos alertas frontais sobre o consumo energético, o índice de massa corporal (IMC), a prevalência de obesidade e a mortalidade associada ao excesso de peso entre 2024 e 2043 no país britânico.
As projeções foram conduzidas a partir de dois modelos diferentes de rotulagem. O primeiro é conhecido como sistema de semáforo e classifica os nutrientes críticos com as cores verde, amarela e vermelha. O segundo, que recebe o nome de rótulo de advertência, utiliza símbolos visuais, como lupas, para destacar quantidades exageradas de nutrientes.
Para fins comparativos, também se considerou um cenário de uso apenas voluntário do selo de semáforo nutricional, que é a estratégia utilizada hoje na Inglaterra. Mantidas as regras atuais, a prevalência de obesidade entre adultos ingleses de 30 a 89 anos pode chegar a 28% em 2043. O modelo ainda estima a morte de 16 milhões de pessoas por causas relacionadas ao excesso de peso ou condições crônicas correlatas.
Já na simulação que considera a adoção obrigatória do sistema de semáforo nutricional em todas as embalagens, verificou-se uma redução de 2,3% na prevalência da condição em comparação ao cenário de referência. Em termos de mortalidade, o modelo projeta que aproximadamente 57 mil mortes relacionadas à obesidade seriam prevenidas ou postergadas entre 2024 e 2043.
Já com a implementação obrigatória do modelo que adiciona símbolos de advertência às embalagens, os efeitos positivos parecem ser maiores: a prevalência de obesidade apresentaria uma redução estimada de 4,4%. Quanto à mortalidade, o modelo calcula que cerca de 110 mil mortes relacionadas à doença seriam evitadas ou adiadas.
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Esses benefícios ocorreriam tanto pela mudança de comportamento do consumidor quanto como uma resposta da própria indústria. Rótulos simples e diretos tendem a ser melhor compreendidos e desencorajam a compra de produtos com perfil nutricional desfavorável. Da mesma forma, a exibição de advertências negativas nas embalagens poderia estimular reformulações nas receitas dos alimentos.
“Os alertas representam um avanço importante, à medida que chamam a atenção imediata das pessoas, inclusive daquelas que não têm o hábito de ler as tabelas nutricionais, para o excesso de nutrientes críticos em um produto”, analisa o médico nutrólogo Rodrigo Costa Gonçalves, do Einstein Hospital Israelita em Goiânia. “Isso permite tomar decisões mais conscientes no momento da compra de alimentos.”
Alertas nutricionais no Brasil
Em 2022, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) tornou obrigatória a adoção dos rótulos de advertência no país. De lá para cá, alimentos e bebidas provenientes da indústria e da agricultura familiar passaram a apresentar, na parte superior e frontal da embalagem, símbolos de lupa que sinalizam a presença de açúcares adicionados, gorduras saturadas e sódio em excesso.
“Antes, os rótulos exigiam um nível de letramento nutricional elevado. Hoje, com a disposição mais simples e visual da informação, ela funciona como um sinal de alerta rápido”, aponta Rodrigo. “Na prática clínica, percebo que parte dos pacientes passou a olhar mais para os rótulos depois da mudança.”
Essa medida foi pensada como uma solução ao cenário epidemiológico de obesidade e sobrepeso no Brasil. Em 2024, 62,6% da população adulta apresentava excesso de peso, uma incidência quase 20% maior do que em 2006. A obesidade, por sua vez, mais que dobrou no mesmo período, saltando de 11,8% para 25,7%. Os dados são do relatório de 2025 do Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) e apontam uma tendência persistente, observada em todas as faixas etárias, níveis de escolaridade e sexos.
O impacto vai muito além da estética. “O excesso de peso está diretamente associado a maiores riscos de desenvolver diabetes tipo 2, hipertensão, doenças cardiovasculares, alguns tipos de câncer, apneia do sono e doenças articulares ou hepáticas”, alerta o nutrólogo. “A condição também pode levar a prejuízos importantes na saúde mental e na qualidade de vida.”
Abordagem multifatorial
O Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento das Doenças Crônicas e Agravos Não Transmissíveis no Brasil, do Ministério da Saúde, determina como meta para 2030 manter a prevalência da obesidade abaixo dos 20,3% da população. Mas, para atingir esse índice, só as mudanças na rotulagem não bastam. “Sozinha, a rotulagem não educa, apenas informa. A estratégia precisa ser acompanhada de orientação profissional e educação alimentar contínua para gerar mudanças consistentes de comportamento”, observa Rodrigo.
Isso inclui, por exemplo, promover educação nutricional desde a infância, garantir maior acesso a alimentos in natura e minimamente processados, desenvolver políticas públicas que desestimulem o consumo de ultraprocessados e incentivar a prática de atividade física.
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Nesse processo, o papel dos profissionais de saúde é central. “Médicos, nutricionistas, educadores físicos e psicólogos precisam atuar de forma integrada, não apenas prescrevendo dietas, mas ajudando o paciente a entender o contexto, suas escolhas, dificuldades e motivações”, avalia o nutrólogo.