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Estado de Minas ENTREVISTA/LUCIO MAURO FILHO, ATOR, 45 ANOS

''Virei a viúva do Lucio Mauro'

Ao lembrar a morte do pai, comediante reconhece o carinho que recebeu do público


postado em 01/09/2019 04:00

Lucio Mauro Filho (Mario) contracena com Ingrid Guimarães na trama global(foto: César Alves/Globo)
Lucio Mauro Filho (Mario) contracena com Ingrid Guimarães na trama global (foto: César Alves/Globo)

Lucio Mauro Filho empresta seu bom humor ao Mario de Bom sucesso, novela das 19h da Globo. Na trama, o editor-chefe da Prado Monteiro é apaixonado por Nana (Fabiula Nascimento), mas vive levando patadas por suas cantadas baratas. Afinal, ela é casada com o vilão Diogo (Armando Babaioff). Porém, nos próximos capítulos, a executiva se rende e chega a transar com Mario, o que provocará a ira do advogado. Na entrevista a seguir, o carioca de 45 anos fala sobre a relação de Mario com a família Prado Monteiro, da paixonite dele por Nana e da rivalidade com Diogo, que, ao descobrir a traição, prometerá matar o tradutor. Além disso, o ator revela como se inspirou para compor o personagem e explica sua percepção sobre a morte depois de perder o pai, Lúcio Mauro (1927-2019). O humorista ainda faz uma avaliação de sua carreira e dos últimos trabalhos.

Como você vê a relação pessoal e profissional do Mario com a família Prado Monteiro em Bom sucesso?

O Mario trabalha na editora há muitos anos. Ele foi absorvido pela empresa ainda muito jovem, por ser amigo de Nana (Fabiula Nascimento) desde a infância. Ele é aquele namoradinho da adolescência, amigo da família. A editora é a verdadeira casa do Mario, pois ele tem uma conexão muito forte com essa família, além do amor platônico por Nana. É um sentimento que atravessou os tempos. 

Você é um comediante. O Mario traz esse lado bem-humorado para a trama?

Mario é sarcástico, muito provocador. E o marido da Nana também está por ali, porque é o advogado da editora. Então, existe o embate, a implicância dele com o cara. O Diogo é manipulador. Enquanto isso, Mario é o contraponto: um cara da paz. Mas que tem suas armas também.

Você se inspirou em alguém?

Não especificamente. O editor-chefe tem de ser rabugento de uma determinada maneira, porque há uma responsabilidade grande dentro de uma editora. Mas também é um bon-vivant e tem esse lado desleixado. Então, fui pela intuição. Pincelei figuras interessantes: tem um pouco de Xico Sá, de Gregório Duvivier, enfim, Mario é dessa turma mais boêmia. Se eu fosse me inspirar especialmente em alguém, perderia o molho do diferencial do personagem dentro da trama.

A morte é um dos temas principais da novela. No velório do seu pai, você declarou que estava bem e parecia sereno. Como você se preparou para essa perda?

Foram vários fatores. Quando papai fez 80 anos, teve um probleminha de saúde e ficou no hospital. Essa ficha caiu lá, por uma provocação dele. Como ninguém conseguia convencê-lo a ser internado, fui pra lá depois do estúdio de A grande família e ele me perguntou: 'Se eu quiser morrer, está tudo ok?'. Apesar de ter dito que sim, vi que não estava. Quando você tem um pai nessa faixa etária, precisa começar a pensar nesse assunto. Acabou saindo daí a peça Lucio 80-30, que montei para a gente fazer.  Então, mais uma vez, um trabalho anterior me preparou para uma emoção posterior. Estudei e isso iniciou em mim e na minha família a reflexão sobre a finitude. A outra experiência que me preparou foi o AVC que ele sofreu em 2016. Foram três anos de cuidados. Quando chegou o momento da partida, ele precisava descansar. Muitas vezes, a gente tem de passar por cima do nosso egoísmo de não querer que a pessoa se vá.

Na trama, a Nana passa por uma situação parecida. Você chegou a conversar com a Fabiula sobre isso?

Muito, porque ela é a minha 'crush' na história e minha amiga na vida real. De repente, falei: 'Amore, quer umas informações? Porque eu vivi exatamente o que a Nana vive'. Afinal, sou o filho mais estruturado, com uma condição emocional de ajudar. Sou casado, tenho três filhos, trabalho pra caramba... Uma pessoa que tem essas demandas todas precisa ser organizada ou não sobrevive. Isso me ajudou muito na hora de prestar apoio à minha família e esse é um lugar parecido com o da Nana. Uma hora, você se sente meio sobrecarregado. E eu vivi essa iminência de perder meu pai nos últimos três anos.

O jeito como você falou no velório do seu pai chamou muito a atenção das pessoas. Se não tivesse se preparado para aquele momento, teria sido diferente?

Aquilo não era uma obrigação. Acho que a pessoa que passa três anos cuidando de outra que vai definhando tem de entender também os sinais energéticos e espirituais. Não era a hora de desespero mesmo. Se ele tivesse morrido no dia do AVC, há três anos, seria totalmente diferente. Talvez não tivesse essa sabedoria. Mas, do jeito como foi, havia uma serenidade. O cara teve uma trajetória linda e era vitorioso. Aquele teatro lotado (no velório), o Brasil inteiro me parando, eu virei a viúva do Lucio Mauro. Recebi uma quantidade enorme de carinho, que é o grande prêmio da vida do meu pai.

Você tem mais de 20 anos de carreira. Qual o balanço que faz da sua trajetória até aqui?

O desafio para o ator é sempre o melhor combustível. Desde que comecei a fazer humor, passei quatro anos no Zorra (1999 a 2003). Aí, fiquei 14 anos em A grande família' (2001 a 2014). Quando acabou, queria experimentar outra coisa. Estava começando a apontar a seta para as novelas, mas veio o Chapa quente (2015) e concordei porque, apesar de ser comédia, o personagem era completamente diferente: um policial machista e homofóbico. Então, ia ser legal para 'matar' o Tuco. Queria fazer as pessoas verem outras possibilidades em mim como ator. (Estadão Conteúdo)


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