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Estado de Minas Chicago

Arquitetura, música, mirantes, mágica: por que não dá para ignorar Chicago

Reconstruída, terceira maior cidade dos EUA, marcada por edifícios com identidade própria, é um convite à contemplação e um banquete para os olhos


14/06/2022 04:00 - atualizado 14/06/2022 15:57

Chicago - EUA. Na foto, a cidade em visão panorâmica noturna
Depois do grande incêndio de 1871, a cidade se reergueu para reivindicar o posto de meca da arquitetura americana, idealizada durante uma "corrida do ouro" de arquitetos e urbanistas (foto: Choose Chicago/Divulgação)

Chicago – Olhe para cima... Seja qual for a intenção em Chicago, nos primeiros dias invariavelmente você será pego olhando para o alto. Arranha-céus marcam o cenário de metrópoles mundo afora – mas não como na terceira maior cidade dos Estados Unidos. Aqui, ao contrário de Nova York, cada edifício “respira” e tem sua própria história.

Mas este lugar só se tornou a meca da arquitetura americana após uma tragédia. Passados 151 anos, o Grande Incêndio, iniciado em 8 de outubro de 1871, ganhou ares de uma lenda local. Uma vaca pertencente à imigrante irlandesa Catherine O’Leary teria derrubado um lampião em um paiol. O fogo, ajudado pelos ventos constantes (The Windy City – A Cidade dos Ventos – é o apelido de Chicago) e pela seca do período, se alastrou rapidamente.

Durou quatro dias. Na época, em uma cidade em que viviam 300 mil pessoas, 300 morreram, 100 mil ficaram desabrigadas e 20 mil edificações foram reduzidas a pó. A reconstrução talvez tenha sido tão impressionante quanto. Seis mil estruturas temporárias foram erguidas uma semana mais tarde. Códigos de segurança foram criados: a madeira, que dominava as edificações, foi proibida no distrito comercial.

VERTICAL E DE AÇO Tal como uma fênix, Chicago ressurgiu, agora vertical, com novas técnicas construtivas e uma corrida do ouro, só que voltada para arquitetura. Idealizador do plano de obras para a reconstrução da cidade – o chamado Plano Burnham, de 1909 – Daniel Burnham propôs uma ‘Paris das pradarias’. O projeto integrava ruas ampliadas a parques, ferrovias e grandes edifícios.

Nos anos posteriores, arquitetos e urbanistas, americanos e estrangeiros, rumaram para Chicago. Que hoje constata que o legado que deixaram é impressionante – e não parou no passado, vale dizer. Uma das referências da arquitetura do século 20, o americano Frank Lloyd Wright assinou 16 projetos na cidade – e outros 25 em Oak    Park, bairro afastado do Centro. Dois deles, a Robie House e o Unity Temple, foram declarados patrimônio mundial pela Unesco.

Outro papa da arquitetura, o alemão Ludwig Mies van der Rohe, que deixou a sua marca na Bauhaus, está na base da Chicago de aço e vidro com edifícios monumentais. Mais recentemente, o canadense Frank Gehry assinou o Jay Pritzker Pavilion. Inaugurada em 2004, a concha acústica no Millennium Park, o parque mais badalado da cidade, é destino certo nos festivais de verão.

Limpa, plana e com vias amplas, a Chicago da arquitetura e das artes merece ser conhecida a pé. Na primavera e no verão, diga-se, já que o inverno, os próprios locais admitem, é de doer os ossos – a maior vantagem de viajar entre novembro e fevereiro são os preços convidativos, pois estamos falando de uma das metrópoles mais caras dos EUA.

Chicago - EUA. Riverwalk de Chicago, com os canais do Rio Chicago na região central da cidade
O Rio Chicago corta a região central e oferece uma das atrações imperdíveis, seja de lancha, caiaque ou barco (foto: Choose Chicago/Divulgação)


Admiração sob
outros ângulos

Entre um arranha-céu e outro, o olhar, por vezes, se volta para baixo. Uma série de obras de arte pública se concentram na área central: as esculturas “Cabeça de mulher” (1967), de Pablo Picasso, e “Figura feminina” (1981), de Joan Miró, e o mosaico “As quatro estações” (1974), de Marc Chagall.

Outro passeio, que permite um novo ângulo, é pelo Rio Chicago, que corta a região central. Com a proximidade do verão e dos dias de sol, os restaurantes e bares da Riverwalk ficam cheios. O percurso ao longo do rio tem conceito semelhante (mas muito mais interessante) ao da Highline de Nova York. Percorrer os canais pela água fica ao gosto do freguês – há lanchas, caiaques e barcos tanto para viagens privadas quanto em grupo.

O melhor tour é o realizado pela Chicago Architecture Center (www.architecture.org), da instituição criada em 1966. Durante uma hora e meia, o First Lady percorre os canais e vai apresentando 50 edifícios ao longo do percurso. Os guias fogem do esquema decoreba do gênero – as viagens são apresentadas por voluntários, estudantes ou nerds da arquitetura, que contam detalhes de toda a história.

Uma delas fala sobre a direção do rio, que foi revertida. Há mais um século, os dejetos da cidade convergiam para o Rio Chicago, que, por seu lado, desembocava no Lago Michigan, fonte de água potável. Um projeto de engenharia de 1900 reverteu o fluxo, que passou a desaguar no Rio Mississipi. O imenso Lago Michigan, que atinge quatro estados americanos, constitui o “mar” de Chicago, às vezes com um tom de azul que parece caribenho. A orla conta com 24  praias – pode acreditar.

É também o rio que divide os lados norte e sul da Avenida Michigan, a principal da cidade. Na parte de cima localiza-se a Magnificent Mile, uma espécie de Quinta Avenida (ou Champs Elysées, dependendo da sua referência), onde estão as marcas de luxo e redes fast fashion. Ali também se localiza a maior Starbuck’s do mundo. Inaugurada há três anos, ocupa cinco andares com cafeteria, doceria, lanchonete, restaurante e espaço para torrefação.

Feijão e Ferries Bueller Na parte sul da Michigan está o já mencionado Millenium Park. É lá que está a escultura “Cloud gate”, o popular “Feijão”, de Anish Kapoor, campeã de postagens no Instagram – difícil mesmo é não ter nenhum papagaio de pirata na imagem, já que desde a manhã à noite a presença de turistas é maciça.

Mais uma caminhada e chega-se ao Instituto de Arte de Chicago (www.artic.edu), o segundo maior museu do gênero nos EUA (perde para o MOMA, de Nova York). Estrela de uma cidade que conta com 60 museus, conta com uma das maiores coleções de impressionistas e pós-impressionistas fora de Paris. Até setembro, exibe a maior retrospectiva deste século de Paul Cézanne nos EUA.

Mesmo com um acervo riquíssimo e uma ala moderna (Modern Wing, de 2009), com projeto do italiano Renzo Piano, muita gente vai ao AIC por causa do clássico “Curtindo a vida adoidado” (1986), estrelado por Matthew Broderick, o impagável Ferris Bueller. O quadro “Tarde de domingo na ilha de Grande Jatte” (1884), considerada a obra máxima do francês George Seurat, que o personagem Cameron Frye (Alan Ruck) passa horas admirando no filme, é um dos destaques da seção dedicada à pintura e escultura da Europa.



Chicago - EUA. Na foto, Skydeck, observatório no Willis Tower, em Chicago. A caixa de vidro chamada Ledge, onde visitantes ficam suspensos no prédio mais alto da cidade
Contemplação nas alturas: no prédio mais alto da cidade, visitantes ficam suspensos em caixa de vidro a mais de 100 andares do solo, no Skydeck (foto: Choose Chicago/Divulgação)

As melhores fotos ficam no 103º andar



Há um lugar em Chicago em que seu olhar vai obrigatoriamente se voltar para baixo. Até 2014, a Willis Tower era o mais alto edifício da América do Norte – com suas duas antenas, atinge 520 metros. Perdeu o posto para o One World Trade Center, em Nova York, com 21 metros a mais.

Disputas de grandeza à parte, é no 103º andar que está o Skydeck (www.theskydeck.com), que entrega uma visão completa da cidade no observatório. Só melhora quando se chega ao Ledge, na verdade caixas de vidro que se “descolam” do prédio. Você se sente quase flutuando no ar. Para quem tem medo da altura pode ser complicado, mas as fotos (sentado, de pé, deitado, do jeito que quiser) serão as melhores da viagem.

Até 2021 o Skydeck contava unicamente com o observatório como atração (o que já é muito). Mas na entrada foi inaugurada no ano passado uma excursão virtual que conta toda a história da cidade. Há também detalhes que vão fazer a graça das crianças, como uma deep dish tamanho família (a famosa pizza de Chicago, quase uma torta com bordas altas, em que o queijo, sempre em grandes quantidades, vem antes do molho de tomate) para se esbaldar nas fotos.

LUXO E HISTÓRIA O pós-pandemia, vale dizer, trouxe outras novidades. Foi também inaugurado há um ano o Pendry Chicago (www.pendry.com). Localizado na Avenida Michigan, o hotel da rede de luxo está em um marco histórico, o edifício de 1929 que foi a antiga sede da empresa Union Carbon & Carbide (com projeto dos Burnham Brothers, filhos do pioneiro Daniel Burnham).

Os letreiros continuam na fachada de granito negro, terracota verde e dourada e folha de ouro com guarnição de bronze, assim como a influência art déco, levada para o interior totalmente renovado. Os antigos escritórios deram lugar a suítes sóbrias, recheadas de fotos de época e com uma vista de tirar o fôlego. Para os não hóspedes, o melhor espaço para observar a região – da Michigan até o Millennium Park, com os canais do Rio Chicago – é o Château Carbide, o rooftop localizado no 24º andar.


Chicago - EUA). Banheiro do Chicago Magic Lounge, um teatro destinado à mágica, onde a pintura cria uma ilusão de ótica
Banheiro do Performance Bar: ilusão de ótica é exemplo de cuidado com os detalhes (foto: Chicago Magic Lounge/Divulgação)

Convite à vida fora do Loop


Mesmo que a região central concentre boa parte das atrações, há muita coisa fora do chamado The Loop (o nome refere-se ao sistema de trilhos elevados que cobre toda a downtown). Chicago tem 77 bairros. A Grande Migração, que levou, a partir do início do século 20, milhões de negros do Sul para o Norte dos EUA, gerou o blues eletrificado, como é conhecido o som de Chicago. As casas de blues estão espalhadas por diferentes regiões.

Pilsen é o bairro latino, que se destaca por uma profusão de restaurantes e murais multicoloridos. Chinatown nem é preciso dizer. Mas não há bairro mais cool do que Andersonville (andersonville.org). Colonizado por suecos (a bandeira amarela e azul está expressa na caixa d’água que fica em cima do Swedish American Museum, na Clark Street, a principal via), é a região mais progressista da metrópole.

Boa parte das pessoas que trabalham no comércio local (voltado para pequenos produtores, de moda, design e gastronomia) também vive ali. Os prédios baixos, de tijolos, são um contraponto e tanto para o aço e vidro da região do Loop. Região que se tornou também uma referência para a comunidade LGBTQIA+, é também muito ativa no que diz respeito aos direitos humanos. Nas vitrines das lojas, mensagens de apoio aos movimentos feminista e Black Lives Matter e contra a invasão na Ucrânia.

MAGIA E MÚSICA É ainda em Andersonville que se esconde um dos lugares mais inusitados de Chicago. Inaugurado há pouco mais de quatro anos, o Chicago Magic Lounge (www.chicagomagiclounge.com) é um misto de bar e teatro destinado ao jazz, ao blues e à mágica (para adultos, que fique claro). Homens e mulheres, mágicos profissionais, vêm de todo os EUA e de fora para se apresentar no local – a programação é sempre diversa.

Mas não é uma atração que cheira a mofo, pelo contrário. Ao entrar no teatro, damos de cara com uma lavanderia – o que remete à época da Lei Seca, quando bares clandestinos eram criados em lugares inusitados. Abertas as portas, podemos escolher em um bar ou no palco principal, onde mágicos fazem apresentações individuais nas mesas, enquanto o som rola do palco. O espaço surpreende pelos detalhes. Um dos banheiros do chamado Performance Bar é puro “Alice no País das Maravilhas”. A pintura no piso quadriculado “engana o olho”, criando a ilusão de que ela se abre no chão. Até nos cantos mais inesperados, uma lembrança a mais de que você está em uma cidade que é um convite – e um banquete – para o olhar.

* A repórter viajou a convite do escritório de turismo Choose Chicago


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