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Estado de Minas

Metamorfose (quase) invisível

Uma transformação silenciosa tomou conta do antigo prédio no Centro de BH. Após décadas de abandono em seus andares superiores, o Mercado Novo atrai novos empreendimentos gastronômicos e culturais


postado em 23/07/2019 04:09

Moçada jovem lota os novos bares do mercado. Atendimento descolado caiu no gosto dopúblico(foto: Marcos Vieira/EM/D.A Press)
Moçada jovem lota os novos bares do mercado. Atendimento descolado caiu no gosto dopúblico (foto: Marcos Vieira/EM/D.A Press)
 
Na semana passada, uma cena parou o trânsito na Avenida Olegário Maciel, em frente ao prédio de cobogós de cerâmica no Centro de Belo Horizonte. No local, acontecia de forma lúdica o casamento de Selma Zenilda Maria de Jesus, de 42 anos, e João Ramalho de Souza, de 38. O casal de moradores de rua foi abençoado em uma cerimônia comovente, que teve como convidados os comerciantes e os moradores da região. Com vestidinho branco, Lilica, a cachorrinhha filhinha dos noivos, foi a dama de honra do casamento. Selma e João não poderiam ter escolhido local melhor: eles disseram o 'sim' diante do Mercado Novo, que após décadas de abandono renasce como templo da gastronomia e cultura na capital, que a cada ano ganha destaque nacional pela reocupação de espaços esquecidos.
 
Construído na década de 1960 como complemento do Mercado Municipal de BH, o chamado Mercado Novo nunca foi de fato inaugurado. Naquele ano, a construtora faliu e a obra não chegou a ser concluída. Quem entra pela rampa do estacionamento, depara-se com uma arquitetura em forma de caixote, com uma iluminação precária e, ao mesmo tempo, impressionante. O estilo modernista confere uma sensação de estar em cenário do filme Asas do desejo, de Wim Wenders. Em determinadas horas do dia, a luz difusa, ao entrar pelos cobogós de cerâmica, cria uma atmosfera surreal. A sensação é que veremos o embate dos anjos Damiel e Cassiel, personagens icônicos da obra-prima do cineasta alemão, abrindo as suas asas sobre os visitantes do local: uma moçada descolada, low profile, apaixonada pelos ambientes alternativos espalhados pela capital mineira.
 
Durante muito tempo, o local não conseguiu se estabelecer nos andares superiores como ponto comercial na cidade. Ficou conhecido como Mercado das Gráficas, que ocupavam nos dois primeiros andares mais de 65 estabelecimentos do tipo. 


Guinada cultural  Em 2010, foi inaugurado no terceiro piso do local o Mercado das Borboletas. Misto de boate e centro cultural, espaço artístico ganhou força na cena underground da capital mineira por virar point de uma galera jovem e alternativa. Desde então, a lagarta saiu do casulo e registrou a metamorfose dos espaços superiores, fadados ao esquecimento no Centro de BH. A área de 9 mil metros quadrados nunca teve finalidade alguma e se encontrava abandonada desde que o inacabado prédio fora erguido, em 1962.
Poeira, descaso e entulho sempre tomaram conta do local. “Foram 50 anos parados no tempo. Aqui era um prédio marginalizado. Poucos empresários desejavam montar aqui o seu negócio. Eu sempre vi o Mercado Novo como um diamante a ser lapidado. Então decidi correr em busca de parcerias, de gente que pudesse ter ideias novas para ocupar os espaços ociosos, ganhar dinheiro e trazer publico. Agora, a revitalização do segundo e do terceiro piso promete levar vida ao ambiente e abrir espaço para manifestações artísticas, gastronômicas e sociais para o local”, relata o superintendente do Mercado Novo, Gabriel Filho.

O carro-chefe do novo Mercado Novo é a formatação de uma incubadora de artes e negócios sustentáveis. “A intenção é aproveitar as 309 lojas desativadas e o hall do 3º andar para a instalação de galpões temáticos, áreas de apoio à produção artística e espaços para impulsionar a inserção de empresas ligadas à cultura no mercado. Um verdadeiro celeiro de ideias. “A proposta é criar um espaço de coworking, dentro do conceito de economia criativa, que pode ser desde um estúdio fotográfico, um ateliê de cerâmica, uma central criativa para fomentar ideias e negócios. Sem deixar de lado a proposta de conexão com a sustentabilidade e a arte. Cultura e gastronomia estarão sempre em mente. Vamos incrementar no local a realização de eventos artísticos, como shows, festas, feiras e peças de tetro”, finaliza Gabriel.

Originalidade Revitalizado, mas sem perder a identidade, os grafites, as esculturas e as intervenções que chegaram à área abandonada de longe pretendem mudar as características naturais do prédio. Novos empreendimentos ocupam os espaços, sem interferir no aspecto rústico e simples do Mercado Novo. Tudo foi mantido a fim de preservar o cenário original, mantendo até mesmo as frestas na construção pelas quais a luz solar entra e deixa o ambiente ainda mais lúdico. “O ser humano precisa sentir o vento, o ar. O excesso de limpeza, o aspecto de shopping center perderá espaço. Ele é muito chato, é muito parecido com um hospital de tão limpinho. Dentro desse ambiente megaclean, climatizado, você nem sabe qual temperatura está fazendo lá fora”, opina Tarcísio Ribeiro Júnior, artista visual e idealizador do Mercado das Borboletas. 

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