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Estado de Minas

Rumi e a morte, em seu casamento com a eternidade

A embriagante dança dos dervixes que rodopiam é carregada de simbologia


postado em 13/11/2018 05:06

Escultura de dervixe rodopiante no Museu Mevlana(foto: Bertha Maakaroun/EM/D.A PRESS)
Escultura de dervixe rodopiante no Museu Mevlana (foto: Bertha Maakaroun/EM/D.A PRESS)

 

Rodopiam alucinadamente em sentido anti-horário. Em círculo, os dervixes trazem longos chapéus cônicos, que simbolizam o “túmulo do ego”. Renascidos espiritualmente para a viagem da verdade, como piões libertos de suas capas pretas, deixam que as tradicionais vestes brancas flutuem sobre o maleável corpo em jejum. O pé direito comanda o giro, impondo pequenas torções sobre o pé esquerdo. Os braços se abrem, a mão direita se eleva ao céu, pronta para receber a energia divina que fluirá pela palma da mão esquerda, virada para a terra. O olhar embaralhado sem foco vaga ao alcançar, em êxtase, a união perfeita com Deus, a libertação de toda agonia e dor humana do estar e desejar.


A embriagante dança dos dervixes que rodopiam é carregada de simbologia e se inicia com a melodia da flauta de bambu – “ney” –, que espalha o “sopro de Deus” e se junta ao “duvar” – tambor – aos pratos e ao ud. O ambiente se enche com o recitar da Na’t-i Serif, que louva o profeta Mohammed, os outros profetas que antes dele chegaram e a Deus que tudo criou. Denominada Sema, a impressionante cerimônia é protagonizada pela ordem ascética sufista Mevlevi corrente mística do islamismo, fundada em 1273, em Konya, região da Anatólia, na Turquia, a partir de onde gradualmente se difundiu pelo Império Turco-Otomano. A ordem sufista Mevlevi foi inspirada pelo mestre espiritual ulama – guardião, intérprete e erudito do islã Celaleddin-i Rumi (1207-1273), também conhecido como Mevlâna, poeta persa entre os mais importantes pensadores do misticismo turco-islâmico.


E é precisamente em Konya, no Museu de Mevlâna, no antigo monastério dervixe, obra da arquitetura seljúcida do século 13, onde cerca de 1,5 milhão de peregrinos buscam todos os anos a filosofia de união espiritual e amor universal apregoada por Rumi, autor de Mathnawi, seis livros que contêm 25 mil dísticos rimados, 2,5 mil odes místicas e 1,6 mil quadras com o seu pensamento foi ditado ao longo de 15 anos, sempre que a inspiração lhe ocorria, em qualquer hora ou lugar, fosse meditando, dançando, cantando, comendo ou andando.


“Aqueles que aqui entram incompletos, sairão perfeitos.” A inscrição salta sobre o portal otomano de prata do século 16, à entrada do mausoléu Kubbe-i Hadra – em tradução livre, Mausoléu Verde – que integra o Museu Mevlâna. Coberto com mortalha de pesado veludo bordado em ouro, sobre a qual o grande turbante simboliza a autoridade espiritual, o sarcófago de Rumi – ou Mevlâna – mira sobre si o domo turquesa arredondado, ainda que talvez preferisse ter por teto o infinito céu.


Rumi está enterrado ao lado do pai Sultanü’l-Ulema (1151-1231), teólogo que muito influenciou a sua formação na tradição sufista, e do seu filho, o sultão Veled (1226-1312). Esse poeta, que um dia escreveu “a nossa morte é nosso casamento com a eternidade”, tem sobre o seu epitáfio: “Quando estivermos mortos, não procure nosso túmulo na terra, mas o encontre no coração dos homens”. Entre os 66 sarcófagos de dervixes que repousam no mausoléu, alguns estão ocultos, outros dispostos em plataforma um nível abaixo daquela de Rumi, onde a mensagem cunhada em pedra é dedicada aos peregrinos: “As coisas lhe parecem como você é”.


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