
Tóquio – Entrar na Estação de Shinjuku não desperta a sensação de anonimato tão comum aos centros de grande concentração populacional pelo mundo. O crachá com fita nas cores branca e vermelha e a inscrição “Tokyo 2020” é como um identificador não apenas nos eventos esportivos, mas também ao andar pela cidade após 14 dias na “bolha” olímpica. Poder, enfim, sair dos limites definidos previamente pelo governo local cria sentimentos à primeira vista contraditórios. A liberdade de circular por mais espaços se confunde com a desconfiança de ser sempre observado por uma cidade que nunca parou – nem pela Olimpíada e muito menos pelo estado de emergência decretado para controlar o avanço desenfreado da COVID-19.
Mesmo antes da abertura dos Jogos, em 23 de julho, e até a cerimônia de encerramento (hoje, às 8h, horário brasileiro), a Tóquio da vida real observa a Tóquio dos Jogos Olímpicos com desconfiança, temor e, raras vezes, empolgação. São duas faces da maior megalópole do planeta que coexistem desde o início do mês passado, quando os primeiros dos quase 100 mil credenciados atravessaram oceanos para participar da edição de Olimpíada mais controversa da história. Enquanto atletas de elite emocionam o mundo nas competições, parte significativa da população segue a rotina de trabalho sem grandes modificações em sua rotina.
“Eu acho que a vida não mudou muito com o estado de emergência. De acordo com a mídia, ainda tem muita gente saindo pras ruas. Mesmo com medidas para evitar a proliferação do vírus, é como se só tivessem mudado as regras mesmo. Então, antes e depois do estado de emergência, realmente não mudou muito. No trabalho de meio período que faço, algumas pessoas pararam de vir por receio da COVID-19, mas... foi basicamente só isso que mudou”, contou ao Estado de Minas e ao portal Superesportes um estudante japonês de 22 anos, que preferiu não ser identificado.
A conversa com o morador precisou ser feita por meio de uma outra pessoa que já vive em Tóquio, contatada por telefone. É estritamente proibido entrevistar a população da cidade, segundo as regras do “Playbook” para a mídia – documento de 70 páginas enviado aos credenciados, em que uma série de normas para conter a pandemia é estabelecida. A intenção da regra é evitar o contato entre estrangeiros e japoneses, ainda que aqueles já tenham recebido liberação para utilizar o transporte público após as duas semanas iniciais no país.
As ruas, os ônibus e os metrôs continuam cheios – contraste evidente em relação às arenas quase vazias devido à COVID-19. Raros foram aqueles que decidiram (ou receberam permissão para) trabalhar de casa. A reportagem ouviu relatos até sobre pessoas que, mesmo com a possibilidade de fazer home office, decidiram ir ao trabalho normalmente, ainda que em meio ao avanço do vírus. “Eles acreditam que isso é uma demonstração de amor ao que fazem”, disse um brasileiro, morador de Tóquio, ouvido pela reportagem.

RESERVADOS
Diante de tantas controvérsias sobre a realização dos Jogos Olímpicos durante um período em que a pandemia se agrava no Japão, não é fácil conseguir que entrevistados aceitem ser identificados – a despeito de as declarações publicadas num veículo de comunicação brasileiro provavelmente jamais serem lidas por quem mora em Tóquio. Ser associado à Olimpíada é quase como um constrangimento (eventualmente risco) para muitos, já que a maioria da população era contrária ao evento neste momento.Carregar o símbolo olímpico nas ruas pode não ser uma boa ideia. Há casos de voluntários que, mesmo sob o calor de 34ºC, deixam as residências com duas camisas. A primeira é o “uniforme” dos Jogos; a segunda, uma peça neutra com o único objetivo de cobrir a anterior. No metrô, sentir-se diferente não passa exatamente pelos traços ocidentais, mas pela credencial no peito. As mais de 3 milhões de pessoas continuam passando diariamente pela Estação de Shinjuku – uma das mais movimentadas do planeta –, mas a invisibilidade inexiste quando se é associado ao evento.

“Energizou, mas infecções aumentaram”
O relógio marca 11h05 quando o brasileiro Darlan Romani entra no gramado do Estádio Olímpico de Tóquio para a final da prova do arremesso de peso. Ao ter o nome anunciado pelos alto-falantes, ouve poucas vozes de apoio ecoarem pela arena de 68 mil assentos. São os gritos de atletas brasileiros, treinadores, dirigentes do COB e jornalistas. O vazio de dentro, porém, não se repete lá fora.
A vizinhança nos arredores do estádio é diversa. Entre prédios comerciais e algumas casas, surge o santuário Hatonomori Hachiman, templo xintoísta repleto de árvores e referências a símbolos marcantes do Japão, como o Monte Fuji. Em meia hora por lá, dezenas de pessoas chegaram para fazer orações ou caminhar pelo parque.
Perto dali, sob forte sol, uns 50 curiosos se enfileiram para garantir a foto com os arcos olímpicos, que ficam em frente ao museu da Olimpíada. Foi assim o dia todo – e em quase todos os dias desde o início das competições. É uma espécie de contrassenso no país que reprova o evento durante a pandemia, mas mostra uma nova face da Tóquio real: aquela que tenta se infiltrar na Tóquio dos Jogos.
“Na minha opinião, a Olimpíada tem um lado bom e um lado ruim. O lado bom é que energizou a cidade e trouxe para nós, japoneses, a vontade de dar o melhor. O ruim, obviamente, é o coronavírus. Com credenciados andando por aí, as infecções aumentaram”, prosseguiu o morador de Tóquio entrevistado pelo Estado de Minas.
RIGIDEZ Em uma cidade dividida, porém, infiltrar-se na metade que não lhe pertence não costuma ser fácil. A organização dos Jogos ofereceu um tour por pontos turísticos da cidade aos jornalistas que haviam chegado há mais de 14 dias. As normas de controle são rígidas e afastam – por meio de placas ou seguranças – os profissionais da imprensa da população local, que se aglomera para ver de perto o caldeirão olímpico.
De um lado, a Tóquio que, contrariada – e por vezes empolgada –, assiste à Tóquio olímpica, que, do outro, se prepara para se despedir neste domingo, com a Cerimônia de Encerramento.

