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Estado de Minas Comportamento

O desafio da pandemia é uma chance de ascensão espiritual

Espiritismo, catolicismo, budismo. Não importa a crença, em comum a certeza de que a ameaça do COVID-19 é a chance de cada um olhar para si e para o coletivo


19/04/2020 04:00 - atualizado 22/04/2020 14:06

Presidente da Sociedade Espírita Maria Nunes, Juselma Coelho
Para a presidente da Sociedade Espírita Maria Nunes, Juselma Coelho, a constatação da fragilidade física nos faz repensar a vida (foto: Jair Amaral/EM/D.A Press)

“O apóstolo Paulo diz em suas cartas aos Coríntios, 4:16, que “ainda que o nosso homem exterior se corrompa, o interior, contudo, se renova dia a dia”. Cada experiência nos deixa o valor que nos corresponde e tudo que nos acontece tem uma razão de ser”, fala Juselma Coelho, presidente da Sociedade Espírita Maria Nunes (Seman) e da Sociedade Espírita Joanna de Angelis (SejaBH) e do conselho de administração do Instituto Assistencial Espírita André Luiz (Heal).

De repente, a constatação da fragilidade física, em que a vida de todos se vê ameaçada por um vírus que prenuncia com a interrupção da jornada física, faz pensar, conforme Juselma Coelho, em questões como o que tenho feito da minha vida? Que possibilidade tenho de recuperar o tempo mal utilizado? Como tenho distribuído meu carinho e atenção aos que me cercam? Quais os valores que tenho e podem ser melhor utilizados? “De repente, temos a certeza de que somos peças importantes na vida do universo e sentimos vibrar em nós a vontade de recuperar o tempo perdido. Gravitar para a unidade divina é o grande objetivo da humanidade. E para alcançá-lo, precisamos vivenciar a justiça, o amor e a ciência. E diante dos cataclismas físicos ou morais somos abalados pelo convite à vida, pela vontade de nos elevarmos, pela atenção e solidariedade de nossos semelhantes. Assim, nos tornamos mais suaves, mais ternos, tolerantes e amigos. Estaremos então nos primeiros degraus da ascensão espiritual.”

Juselma Coelho destaca nota de J. Herculano Pires, O céu e o inferno, Alan Kardec, cap. V, item 9: “A Terra está sofrendo uma crise e crescimento para se tornar um mundo maduro e, portanto, melhor. As desordens atuais, que tanto nos assustam, são os prenúncios de uma nova ordem que fará a Terra elevar-se na escala dos mundos”. Para ela, na verdade, a humanidade está aceleradamente distraída, e víamos a vigência do orgulho e do egoísmo em todos os níveis, do individual, do coletivo.

Estávamos assistindo ao desdobrar de males altamente virulentos que corroíam as sociedades. Manifestações cruéis de preconceitos, atitudes de agressividade e desrespeito inenarráveis, posturas de desamor, competições mesquinhas. Desprezo aos princípios de boa convivência, mentiras, tudo isso refletindo na macroestrutura social. “Com a chegada inesperada da pandemia nos assustando, paramos e refletimos. E forçadamente limitados pelas paredes do lar, nos voltamos agora uns para os outros. Nem castigo, nem aviso ou ameaça. Consequência natural da aplicação da lei de causa e efeito, da lei do progresso e outras leis afins.”

Para quem tem fé ou quem afirma não ter, Juselma Coelho enfatiza que a vida não teria sentido se não houvesse a conexão com um ser superior. “Qual a vantagem ou importância teria vivermos uma vida de 30, 60, 70, 90 ou mais anos,  lutar por conquistar recursos intelectuais, financeiros, sociais, para depois morrermos e acabar tudo? Quem teria feito e com qual objetivo, as belezas naturais existentes no universo? E nessa reflexão vamos nos deparar com Jesus, divino jardineiro de nossas almas: 'Vinde a mim todos os que estais cansados, oprimidos e sobrecarregados, que eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para vossa alma. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve. (Mateus, 11:28-30).'”

Pela lógica da razão, destaca Juselma Coelho, muitos chegam à conclusão de que quem fez tantas coisas belas, úteis, profundas, de inigualável valor, por que deixaria, por simples capricho, um vírus destruir tudo? “A fé de que falamos não é aquela que simplesmente me diz que vou ser salvo, mas aquela que me mostra que, se tudo tem uma razão de ser, se eu tiver que ser útil à vida, aos que dependem de mim, por ora serei poupada.”

Juselma Coelho alerta que a gigantesca tarefa que cabe a cada um neste momento é se reconduzir a Deus, cultivando a fé superior e racional, confiando que as autoridades e os governantes não estão sós, entregues a eles próprios. Eles são assistidos e conduzidos por luminosas forças superiores, que os levarão as soluções da interrupção da pandemia da COVID-19.
 
Padre Marcelo Carlos da Silva, do Santuário Arquidiocesano de Adoração Perpétua Nossa Senhora da Boa Viagem
Padre Marcelo Carlos da Silva, do Santuário Arquidiocesano de Adoração Perpétua Nossa Senhora da Boa Viagem, diz que a espiritualidade é o combustível que nos faz mover dentro desta crise de saúde (foto: Patrícia Ribas/Divulgação)
 

SUPERMERCADO DA FÉ 

Para Padre Marcelo Carlos da Silva, do Santuário Arquidiocesano de Adoração Perpétua Nossa Senhora da Boa Viagem, a fé e a espiritualidade estão na base das respostas, modos de ver, sentir, pensar e agir de cada um diante dos desafios, angústias, medos e ansiedades que o mundo passa. “A espiritualidade é o combustível que nos faz mover dentro desta crise de saúde – que por consequência torna-se social, econômica, ecológica e até espiritual. É a espiritualidade de cada um nesta hora e a sua forma de se relacionar com Deus, de crer nele, que podem ajudar ou atrapalhar os aspectos humanos da enfermidade pandêmica.”

Padre Marcelo alerta que muitos discursos e igrejas da contemporaneidade, antes da grande peste do COVID-19, apostavam numa vida religiosa e, portanto numa espiritualidade, centrada no discurso da prosperidade de bens e riquezas econômicas deste mundo: “Mundanizaram”, isto é, reduziram os seus valores às promessas essencialmente deste plano de vida. “E a vida eterna, pós-morte, a transcendência, que sustenta a maior parte das religiões e igrejas perdeu o sentido, preocupados demais em olhar para o sucesso material. A espiritualidade e a fé ganharam status de 'produtos engarrafados' (às vezes literalmente), uma espécie de 'supermercado da fé”, afirma.

Assim, neste tempo da via-dolorosa da humanidade exposta como Cristo ferido de morte na vida das pessoas, “aos que desenvolveram uma espiritualidade e uma crença religiosa (fé) na prosperidade, nos ganhos deste mundo, agora se veem em crise de sentido, pois a espiritualidade e a fé vistas como uma via de prosperidade não podem dar segurança pela via dos bens que cada um tem. Ao contrário, aqueles que têm uma espiritualidade e uma fé, sejam de que religião forem, transcendente, imaterial, centrada na graça de Deus e não na prosperidade, devem conseguir experimentar uma vida espiritual mais fundamentada no consolo, na fortaleza, na esperança e na paz. Na certeza da presença de um Deus que se revela frágil para nos acompanhar em nossas fragilidades; ferido para mostrar-se solidário conosco”.

ILUSÃO E DESAPEGO 

Mokugen Roshi, abade que dirige o Templo Zen das Alterosas, diz que os monges enxergam o isolamento como natural – afinal eles vivem contexto bem mais severo do que o que todos estão enfrentando com a pandemia agora – e explica que o momento obriga o olhar para dentro de si, quando surge no interior de nós o que é mais premente, o nosso estado de espírito, de maneira forte e com questões absolutas. O que não é ruim, porque é a oportunidade de trabalhar o que precisamos.

“Na visão budista, não devemos nos assustar, já que o que aflora dentro da consciência é o que cada um tem a evoluir, sabendo que tudo é ilusão, que não devemos nos apegar. A espiritualidade do budismo está na prática da meditação em que expressamos a nossa natureza original desapegando. É a meditação que nos ensina olhar para dentro, esvaziar a mente e nos emergir sabendo que tudo é impermanente, tudo muda.”

Conforme Mokugen Roshi, a prática do zazen (meditação profunda) é viver o aqui e agora, o que surge a cada instante num eterno presente e que se esvai a cada momento: “O estado zazen é a concentração do nosso espírito”, quando se dá a consciência visceral, o sentir e vivenciar. “Concentrar em nós mesmos é um remédio que será digerido e transmutado com grande efeito. Tudo pode ser transcendido e superado porque todas as coisas são ilusórias. O budismo diz que o mundo fenomenal tem aparência de ilusão, tudo passa e muda constantemente. Assim, as ilusões devem ser transcendidas para encontrar o vazio. O saber abrir mão é o treinamento zen”.



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