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Estado de Minas

João Goulart e Maria Thereza tiveram suas vidas devassadas por escutas domésticas

Até hoje, prevalece o mistério sobre morte natural ou assassinato do ex-presidente


postado em 19/05/2019 06:00 / atualizado em 19/05/2019 08:36

Maria Thereza Goulart rivalizava em beleza com Jacqueline Kennedy e Grace Kelly, divas no cenário mundial nos anos 1960 (foto: INDALECIO WANDERLEY/O CRUZEIRO/ARQUIVO EM)
Maria Thereza Goulart rivalizava em beleza com Jacqueline Kennedy e Grace Kelly, divas no cenário mundial nos anos 1960 (foto: INDALECIO WANDERLEY/O CRUZEIRO/ARQUIVO EM)
Além de saques a joias e bens pessoais deixados na Granja do Torto na noite em que partiu com os filhos, logo após o golpe militar, Maria Thereza Goulart enfrentaria tempos de humilhações – como ter sido, anos mais tarde, impedida de acompanhar o funeral da mãe e do pai, ocasião em que foi forçada a se despir em prisão no Brasil, em breve retorno para um casamento, fato que nunca contou a Jango, para não magoá-lo. Suportou insultos, mentiras envolvendo a sua história, num país silenciado pela censura. E mais tarde, após a redemocratização, a sanha de “ex-amigos” oportunistas que tentaram se promover com a história de Jango.


Se quando aconteceu a morte de Jango pareceu a Maria Thereza consequência da cardiopatia do marido, décadas depois, já no desabrochar do novo milênio, ainda assombram as revelações que saltaram dos arquivos dos governos do Cone Sul, naqueles anos de chumbo. Teria sido cuidadosamente substituído um único comprimido do frasco, que chegava da França para o tratamento de Jango? Teria sido esse líder do trabalhismo e herdeiro político de Getúlio Vargas, mais um da América do Sul, que, antes da esperada reabertura democrática, viria a ser eliminado no contexto da Operação Condor?


Segundo relato de Neira Barreiro, que no Uruguai, em colaboração com a ditadura brasileira, respondia pelas gravações das escutas domésticas da família Goulart, seria este o caso: Jango fora assassinado. Mas a morte dele segue não esclarecida, inconclusiva. Para a família do ex-presidente, persiste ainda a dor das interrogações ainda não respondidas sobre o marido e o pai. Mais um silêncio que grita sobre a recente história do Brasil.

“Jango foi vigiado desde que colocou os pés no Uruguai. Neira Barreiro era o operador responsável pelo gravador:  ele ouvia, gravava e degravava as escutas.  Ao final de certa entrevista que fiz com ele, perguntei-lhe se recordava-se de algum detalhe do que se passava na casa de Jango. Neira Barreiro disse: A gente ria muito quando a dona Maria Thereza cantava o Leonardo Fazio”. Em posterior entrevista  com Maria Thereza, Wagner William teria a confirmação: de fato, nos tempos do Uruguai, Leonardo Fazio era o seu cantor preferido. “Os serviços da repressão ouviam os segredos de cama e mesa da família Goulart. Sabiam tudo. Imagine a invasão à privacidade que isso significa. No quarto, no banheiro, na cozinha, na sala. Estavam em todos os cantos”, revela o autor, que ao pesquisar arquivos já desclassificados no Uruguai, descobriu, por exemplo, que o próprio porteiro do prédio em que a família viveu em Montevidéu era um agente que repassava relatórios com detalhes da circulação na residência de Jango.

A trajetória de Jango, herdeiro político de Getúlio Vargas, o encontro e posterior casamento com Maria Thereza, é trama que nasce e prospera na tradicional e conservadora sociedade dos pampas, em São Borja, de onde emergem lideranças políticas progressistas – que mudam a perspectiva do desenvolvimento no Brasil. Ali, às margens do Rio Uruguai, à fronteira com a cidade argentina de Santo Tomé, São Borja, assim batizada em 1887, carrega a herança, como aponta Wagner William em sua obra, do mais antigo dos aldeamentos indígenas dos Sete Povos das Missões fundados por jesuítas, a partir de conflitos sangrentos entre espanhóis, portugueses, indígenas, paraguaios, jesuítas e bandeirantes paulistas. Ao final do século 19, a chegada de imigrantes, sobretudo italianos e alemães, traria para toda a região a agricultura e a pecuária.

NOVOS POLÍTICOS Nesse ambiente emerge Getúlio Vargas, líder da Revolução de 1930,  na qual encerra-se a Velha República – e com ela a hegemonia da burguesia cafeeira. O estado que nasce centraliza o poder, intensifica a sua intervenção na economia, subordina as oligarquias tradicionais e demais classes ao poder central, possibilitando o desenvolvimento industrial. Jango, JK, Leonel Brizola, Tancredo Neves e toda uma geração de estadistas são herança do getulismo à cena política brasileira. O mesmo Getúlio, ponto de interseção, que entrelaça nos pampas, as vidas e famílias de Jango e Maria Thereza.

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