
Brasília – Diante da pressão do seu eleitorado, ávido por mudanças, o novo presidente do Brasil fixou um prazo exíguo para responder a esses anseios: 100 dias. Nesse período, ele terá de aglutinar suporte suficiente para aprovar a reforma da Previdência, que, pelas contas de Marcelo Caetano, secretário que respondeu pelo tema no Ministério da Fazenda até ontem, fechou 2018 com rombo superior a R$ 292 bilhões. O buraco no sistema de pensão e aposentadorias aumenta pelo menos R$ 50 bilhões por ano. Sem o ajuste nos regimes público e privado, não haverá como arrumar as contas públicas, hoje, o maior problema do país. Com déficits desde 2014, as finanças do governo são o que a inflação descontrolada representou para o Brasil nos anos de 1970 a 1990.
Além disso, a produtividade apresenta estagnação desde os anos 1980, quando Brasil mergulhou em crises consecutivas. Até então, era a economia que mais crescia no mundo. Entre 1950 e 1980, a média de expansão do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro foi de 7,4% ao ano, taxa sem precedentes. De 1980 até 2016, o avanço médio anual ficou em 2,2%. Entre 2017 e 2018, caiu para 1%. Essa é a grande razão de o Brasil ostentar um exército de 12,2 milhões de desempregados e 27 milhões de brasileiros que não ganham o suficiente para sobreviver.
Por trás dessas estatísticas aparece o crescimento espantoso da violência, que Bolsonaro promete extirpar com políticas rígidas que serão comandadas pelo juiz Sérgio Moro, nomeado para o superministério da Justiça e da Segurança. É nessa área, por sinal, que deverá vir uma das primeiras medidas do governo: um decreto autorizando o posse de armas. Também é esperado um pacote de medidas preparadas por Moro para o combate ao crime organizado e formação de quadrilha. A meta é fortalecer as investigações contra corrupção e a Operação Lava-Jato.
Há grande expectativa ainda em torno da política de demarcação de terras indígenas, na questão dos direitos humanos e na área ambiental, tema em que o Brasil lidera as discussões no mundo. Se o governo decidir sair de acordos, como o de Paris, certamente as consequências serão pesadas, sobretudo para a economia, com o fechamento de mercados importantes, como o europeu, para os produtos brasileiros.
Do ponto de vista externo, a percepção clara é de que Bolsonaro terá de restabelecer o protagonismo do Brasil. A despeito de ser uma das 10 maiores economias do planeta, o país se afastou completamente dos grandes grupos de decisão global, muito por ideologia, que continua sendo uma ameaça, dada a postura do novo governo, e pela derrocada econômica iniciada em 2014. O Brasil, dizem especialistas, está isolado demais. O nível de abertura da economia é semelhante ao observado nos anos de 1960. Está completamente atrasado em inovação e tecnologia, perdeu poder de influência e cresce a níveis inferiores à media global.
Para voltar a ser um ator de primeira linha no quadro mundial, o Brasil terá que redefinir as relações com os Estados Unidos, a China, a Europa e os países de seu entorno, especialmente os que integram o Mercosul — grupo do qual ministros de Bolsonaro dizem que o Brasil tem que sair. Assusta, porém, o discurso de alinhamento sem contestação com os EUA defendido pelo novo ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo.
Enfim, a partir desta terça-feira, o relógio começou a correr para Bolsonaro. A lua de mel com a população e os agentes econômicos tem prazo de validade. Não há ilusão de que será uma caminhada fácil. Mas o recado é claro. “Bolsonaro terá que chegar chegando. Terá que ser muito rápido na aprovação das reformas, porque o capital não ficará esperando mais promessas. Há muitas incertezas no mercado internacional, que estará mais desafiador. Os investidores não ficarão estendendo o benefício da dúvida por muito tempo”, diz a economista Alessandra Ribeiro, sócia da Consultoria Tendências. (Colaborou Rosana Hessel)
