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Estado de Minas

Coloque a mão na consciência: somos ou não somos todos corruptos?

No momento em que o Brasil discute a honestidade não só da classe política, mas da sociedade civil, é hora de cada cidadão fazer um mea-culpa e avaliar como se comporta


postado em 04/10/2018 19:00 / atualizado em 04/10/2018 19:09

Comprar carteira de motorista(foto: Ilustração/Lélis/EM)
Comprar carteira de motorista (foto: Ilustração/Lélis/EM)
“Isto é o Brasil.” Já ouviu essa frase antes? Ela não é a única conclusão a respeito de quem somos e como agimos. Deixando de lado as exceções, a discussão se é maioria ou não, e lembrando sempre de Nelson Rodrigues, que alertou sobre a unanimidade burra, a verdade é que o pensamento e a visão comuns são de que está na origem do povo brasileiro a propensão, a inclinação e a predisposição crônica e generalizada de tomar atitudes e ter comportamentos que lhe interessam de forma particular. E, pior, acreditando que o “jeitinho” não faz mal, é inofensivo, nada prejudicial. E, ainda mais assustador, crendo que, dependendo do delito, é justificável e tolerável ser “esperto”. Quem não se deparou numa roda de conversa com opinião do tipo “roubou, mas fez”, em referência aos políticos? Condescendência ou defesa em causa própria?

O momento de crise moral e ética na política do país, com a corrupção entranhada em várias instituições, é ideal e pertinente para que cada cidadão faça uma autoavaliação sobre sua conduta. Antes de apontar o dedo para o vizinho, sempre é mais indicado avaliar se também tem telhado de vidro.

Povo sem ética, corrupto. Será? Para seguir com a discussão, precisamos ter clareza do significado dessas duas palavras para que as análises sejam sensatas. Corrupção é crime (Lei 12.846, promulgada em 1º de agosto de 2013 pela presidente Dilma Rousseff) e, de acordo com o Houaiss, é definida como “deterioração de composição física de algo, modificação, adulteração das características originais de algo, depravação de hábitos, costumes, devassidão, ato ou efeito de subornar uma ou mais pessoas em causa própria ou alheia com oferecimento de dinheiro, suborno...” E ainda conforme o dicionário, a ética é descrita como “parte da filosofia responsável pela investigação dos princípios que motivam, distorcem, disciplinam ou orientam o comportamento humano, refletindo especialmente a respeito da essência das normas, valores, prescrições e exortações presentes em qualquer realidade social”.
Fazer gato de luz e TV e fraudar o hidrômetro para impedir a marcação do consumo(foto: Ilustração/Lélis/EM)
Fazer gato de luz e TV e fraudar o hidrômetro para impedir a marcação do consumo (foto: Ilustração/Lélis/EM)

Julgar não é fácil e carrega armadilhas. Interpretar atos e ações baseados em impressões ou fatos nem sempre encontra unidade de pensamento. Há o outro lado da moeda que virá à tona e, justa e democraticamente, precisa de voz. O que exige cuidado, porque a história prova que não há justificativa para tudo. Há situações em que existem apenas dois lados: o certo e o errado.

COMPORTAMENTO Essa discussão levanta várias questões: a corrupção no Brasil é endêmica? O desvio de conduta presente na sociedade é herança cultural? A malandragem é comum? Está no DNA? A interpretação da ética de maneira enviesada é prática natural?. “As pessoas agem conforme o vento. Estabelecem um comportamento-padrão, que é regra, e banalizam tudo. As que praticam têm escapatória, as que não, são penalizadas. A sociedade produz desigualdade nessas sutilezas”, alerta Juracy Costa Amaral, doutor em sociologia e professor da PUC-Minas.

Na real, a encruzilhada é: como cobrar honestidade, seja dos políticos, seja da sociedade civil, se, nas ações diárias, cada um comete infrações que comprometem o bem comum? A mestre em educação e psicopedagoga Jane Patrícia Haddad alerta que o importante é “educar para a vida e não para o mercado ou mesmo para se dar bem. “Acredito que o se 'dar bem' é um processo natural de uma educação pautada em princípios e valores humanos. Um exemplo: estava na fila do cinema. Na minha frente, uma senhora com seu filho de uns 10 anos. A fila estava enorme. Ela avistou um amigo no fim da fila e adivinhem o que ela fez? Chamou o amigo para entrar na frente dela. O que o filho poderá fazer amanhã? A meu ver, respeito supõe reconhecer o outro como outro e seu valor intrínseco, seja pessoa, seja qualquer outro ser. O mundo que estamos criando pode nos eliminar na primeira esquina. E agora, o que fazer?” O Estado de Minas ouviu psicanalista, educadora, sociólogo e cidadãos comprometidos para tentar entender o que há por trás desse comportamento da nação.

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