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Estado de Minas

Especialistas discutem jeitinho brasileiro de querer levar vantagem

Ao expor um cotidiano promíscuo e corrupto de políticos, funcionários e cidadãos, todos envolvidos em atos ilícitos, a mídia provoca na cultura brasileira o desejo de desforra


postado em 03/04/2016 19:11 / atualizado em 03/04/2016 19:26

"Antes de levantar a bandeira da moralização, devemos nos perguntar: 'será que o Brasil quer mesmo recusar sua origem de cabaré, onde todos entram e gozam?" - Inez Lemos, psicanalista (foto: Beto Magalhães/EM/D.A Press)
O que leva o brasileiro a cometer deslizes de conduta? Por que condena a grande corrupção e pratica pequenos delitos? Como mudar? Ao debater a tendência do brasileiro em querer levar vantagem em tudo, ser condescendente com atos antiéticos, como jogar lixo na rua, sonegar impostos, parar em filha dupla ou destruir monumentos históricos, a psicanalista Inez Lemos lembra que o descobrimento do Brasil fez parte do projeto de modernidade. “No século 15, os europeus estavam em busca de riquezas e preciosidades, do luxo e do supérfluo. Contudo, somos filhos de uma relação de interesses (o português engravidava a índia para se aproximar dos que aqui viviam e detinham informações). Se moderno é substituir o ser pelo ter, cumprimos a profecia mercantilista da acumulação primitiva do capital. A formação do capitalismo revela em sua estrutura uma eterna insatisfação. A ambição que lançou Ulisses ao mar, Colombo à América, era diferente da que encontramos na farra dos políticos com o dinheiro público. Descobrir, querer construir um novo mundo, é diferente de apropriar, dominar para explorar. Será sempre o Brasil terra de ninguém, onde leis, como a da ficha limpa, jamais serão cumpridas? Seria o Brasil um convite à corrupção?.”

Inez Lemos pensa na palavra ressentimento. “Res-sentir: sentir duas vezes, não perdoar, guardar mágoas e alimentar o desejo de vingança, adiar conflitos. Ressentimento não é um sentimento edificante, que leva o sujeito a produzir e crescer. Pelo contrário, ele fixa o sujeito na neurose. O ressentimento do brasileiro (tema que Maria Rita Kehl, em seu livro Ressentimento, aborda com propriedade) explica por que o Brasil é um país que goza da condição de nação explorada, ludibriada, trapaceada. Como se a forma de resolvermos isso fosse tentar descontar no erário, apresentar a conta para o Estado pagar, na esperança de nos livrarmos do sentimento de injustiçados.”

De acordo com a psicanalista, o contato com a mídia que expõe um cotidiano promíscuo e corrupto de políticos, funcionários públicos e cidadãos, todos envolvidos em atos ilícitos, provoca na cultura brasileira o desejo de desforra, de querer participar da festa. “É a revolta do filho excluído, rejeitado. A corrupção metaforiza a atuação do filho ressentido com o pai que o lesa e o faz passar ao ato, em vez de contestar e cobrar seus direitos.”

Para Inez, a crise atual que vivemos expõe nosso lado perverso, o recrudescimento do racismo, homofobia, preconceito de classe. “Querem acabar com a consciência social e o ideal humanista? Querem o fascismo, excluindo os menos favorecidos, os negros e deficientes? Viver é enfrentar contradições. Saber lidar com os paradoxos humanos. Ou será este um país que não quer dar certo? Será que todo político só quer o poder pelo poder? O niilismo, para o qual qualquer coisa é a mesma coisa, é lugar de preguiçosos. Prefiro acreditar que, embora exista uma disposição humana para a perversão, existem os que a recusam. Dominar traços maledicentes faz parte da vida. Contudo, ainda sonho com um Brasil analisado. E tenho esperanças de ver os brasileiros no divã, distante das terapias místicas. Sonho com uma sociedade política não corrupta e implicada na ética cidadã.”

CABARÉ
A psicanalista assegura que o problema do Brasil é psíquico, não econômico. “Antes de levantar a bandeira da moralização, devemos nos perguntar: 'será que o Brasil quer mesmo recusar sua origem de cabaré, onde todos entram e gozam? Por que até hoje recusamos o público em favor do privado, a honestidade em favor do luxo, a memória em favor do efêmero? A corrupção brasileira é uma escolha? Faz parte de nossa identidade? Será que gostamos de viver em um país corrupto? Ou o brasileiro não quer se implicar em um outro ideal de nação? O que queres, Brasil? Será que sofremos de um masoquismo moral?'”

Inez acredita que falta ao brasileiro reinventar um projeto de país. “Ao Brasil faltou uma fundação bem-sucedida, que instituísse uma ordem fálica capaz de sustentar um significante nacional. Faltou-nos o significante paterno, aquele que opera como referência simbólica na estrutura do sujeito. Como pode o brasileiro obedecer às leis, se ele é a falta da lei? Quando a filiação fracassa, a contravenção e o crime se instauram como arremedo da função paterna. Colonização e criminalidade, corrupção e gozo, exploração e ressentimento. Nossa história e seus significantes nos condenam. Nosso inconsciente, humilhado e envergonhado, fixou-se no fracasso.”

A psicanalista encerra explicando que “o Brasil é filho rejeitado, que não teve mãe carinhosa que o amasse, tampouco um pai comprometido com o futuro da prole. Filho do estupro entre o português e a índia; do coronel fazendeiro e a escrava. Filho ilegítimo de pirata e forasteiro. Talvez por isso gostemos da sensação de levar vantagens, que nos garante um conforto psíquico e nos traz a ilusão de reparação das perdas. Nossas praias são belas. O Rio é uma das cidades mais lindas do mundo, mas avacalhamos tudo”.

"Sem sonhos, a humanidade acaba. Crianças e jovens nos sinalizam isso. Ainda sou muito otimista, acredito nas novas gerações, desde que a família e também a escola retomem seu papel de referência e autoridade" - Jane Patrícia Haddad, mestre em educação

Educação começa em casa

Não há segredo. Muito menos mistério. No cerne de uma sociedade justa e igualitária está a educação do povo. E em qualquer canto do mundo. Com o know-how de quem atuou por mais de 22 anos como professora, coordenadora pedagógica e diretora, Jane Patrícia Haddad acredita que uma sociedade começa no primeiro ambiente de aprendizagem, ou seja, na família. “O respeito nasce na família, especialmente na figura do pai, responsável pela passagem do mundo do eu para o mundo dos outros que emergem como o primeiro limite a ser respeitado.”

No entanto, Jane, que é mestre em educação e psicopedagoga, reconhece que o mundo contemporâneo tem deixado pais e mães imersos em seus trabalhos e, muitas vezes, sem percepção das questões básicas de uma educação que começa em casa. “Assistimos, hoje, a um desrespeito em que, muitas vezes, sua raiz está na família. Estaríamos diante de um novo modelo de pais? 'Pais ausentes'. Estaríamos nós, pais, calando nossos filhos? Impedindo que eles falem o que sentem? Assim, sem perceber, criamos e recriamos gerações artificiais, que acreditam piamente que 'eles são' ou mesmo que a mocinha é aquela personagem do Big brother que grita, humilha e estapeia o outro, e hoje é responsável por vários fã-clubes, infelizmente, um 'exemplo'”.

ESPERANÇA
Apesar dos reveses, Jane diz que não é pessimista, “mas se nós, adultos, continuarmos destilando ódio e desesperança, continuaremos 'deprimidos' diante do que estamos assistindo no mundo. Estamos deparando com questões muito complicadas, onde aqueles que deveriam nos proteger nos passam para trás. Basta ver o cenário da política, da educação, da saúde...”.

Para Jane, a grande questão é: 'O que fazer diante da falta de sonhos e esperança?'. “Sem sonhos, a humanidade acaba. Crianças e jovens nos sinalizam isso. Ainda sou muito otimista, acredito nas novas gerações, desde que a família e também a escola retomem seu papel de referência e autoridade.”


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