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Estado de Minas

PF investiga professor por ensinar comunismo na Universidade de Ouro Preto

André Mayer é alvo de inquérito policial, pedido pelo MP, porque teria desobedecido ordem de juiz federal que determinou a suspensão de centro de estudos sobre a ideologia na Ufop


postado em 09/11/2017 06:00 / atualizado em 09/11/2017 07:54

(foto: Arte/Quinho)
(foto: Arte/Quinho)

Um professor da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) está sendo investigado pela Polícia Federal, a pedido da Procuradoria da República em Viçosa, após ter criado um grupo denominado Centro de Difusão do Comunismo (CDC) na universidade. A acusação contra ele é referente ao suposto desobedecimento da decisão de 2013 de um juiz federal do Maranhão que determinava o fim do projeto. O professor André Mayer, que coordenava o centro, manteve, como projeto próprio financiado pelo CNPq, um dos grupos de pesquisa ligado ao CDC – a Liga dos Comunistas, motivo pelo qual a investigação foi reaberta.

O documento que instaura o inquérito pela Polícia Federal sustenta que o professor estaria “utilizando recursos públicos da Ufop para divulgação e realização de eventos de cunho comunista, contrariando ordem judicial proferida pelo juiz”. O Ministério Público Federal frisa que a investigação se dá pelo fato de que “não se sabe se suas ações comprovam o descumprimento da ordem judicial referida.”

O professor André Mayer diz que não esperava essa investigação. “Em 2013 fomos pegos de surpresa com um processo judicial que queria suspender as atividades de um programa de extensão. Suspendemos, então, o programa. Um ano depois saiu a sentença em primeira instância ratificando a suspensão. Acabamos abrindo mão de ficar correndo atrás, seriam anos infindos. Decidimos, apenas, manter um grupo de pesquisa, um núcleo de estudos marxistas, que era inclusive anterior ao CDC, datado de 2009. Fez parte dele, mas é um grupo de pesquisa como um outro qualquer na universidade. Para nossa surpresa, novamente fomos notificados de que estamos intimados a depor”, comenta.

André Mayer conta que “alguém acionou o Ministério Público Federal” e que a situação faz parte de um processo de “criminalização” dos movimentos sociais. “O nome preciso do que está acontecendo é criminalização do debate crítico contra a ordem do capital. O pensamento que coloca em xeque as relações sociais do capitalismo é um pensamento perseguido. Isso é secular, principalmente quando você está ligado aos pensamentos de Marx. A expectativa é de que teremos uma dura batalha pela frente, uma batalha política ideológica e jurídica”, explica.

Histórico O programa de extensão, criado em 2012, foi suspenso em agosto de 2013 por determinação judicial. O argumento era de que ele “ostentava feição predominantemente político-partidária.” No entendimento do juiz José Carlos do Vale Madeira, da 5ª Vara Federal no Maranhão, o Centro de Difusão do Comunismo era responsável por “grave ofensa” ao “princípio de moralidade”, uma vez que, na visão do magistrado, “favorecia a militância política anticapitalista em detrimento de outras militâncias”.

O programa coordenado por André Mayer era constituído de quatro ações articuladas para que “o estudo, o debate e a realização da crítica à ordem do capital” fossem contemplados. Na época, 20 bolsistas participaram do grupo, além de estudantes e pessoas não ligadas às universidades que tivessem interesse em participar. O grupo de pesquisa Liga dos Comunistas, alvo atual da polêmica, era um dos dois projetos ligados ao CDC, apesar de ter sido criado em 2009. O segundo projeto se tratava de um grupo de debate e militância anticapitalista. Dois cursos, “Mineração e exploração dos trabalhadores na região da Ufop” e “Relações sociais na ordem do capital” também eram realizados na universidade.

A Procuradoria da República em Viçosa não quis falar à reportagem sobre o assunto.

* Estagiário sob a supervisão do editor Renato Scapolatempore

 

 

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