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Peter Burke explica a evolução da ignorância

Historiador inglês lança livro sobre a trajetória da ignorância ao longo dos séculos e defende investimento na educação para identificação de fake news


28/04/2023 06:00 - atualizado 28/04/2023 00:32
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Peter Burke
Peter Burke: 'É delicado alcançar o equilíbrio entre liberdade de expressão e proteção contra o discurso de ódio' (foto: FlÁvio Moraes/Fotoarena/Folhapress)
Se para os árabes a “era da ignorância” grassou durante o período pré-islâmico, a Idade Média foi considerada o tempo da “escuridão” por humanistas e iluministas, que associavam a ignorância ao “despotismo”, ao “fanatismo” e à “superstição”, aspectos que seriam varridos pelo novo tempo de preponderância da razão. “Ouse saber”, pregou Immanuel Kant (1824-1804), gravando o lema do Iluminismo, em reação à recomendação bíblica: “Não pretenda saber do que é superior, apenas tema”.

 

Se, por um lado, cada período histórico se percebe mais conhecedor do que o anterior; por outro, o foco na ignorância também se apresenta sob prismas opostos. O economista inglês William Beveridge (1879-1963), um dos precursores do estado de bem-estar social moderno, apontou- a como um dos gigantes a ser derrotado. Em direção contrária, há quem defenda ser a ignorância, de diferentes modos, uma bênção. O filósofo John Rawls (1921-2002) pregou o “véu da ignorância”, - uma cegueira à raça, à classe, à nação ou ao gênero – para que as pessoas recebam exatamente o mesmo tratamento; pesquisadores elogiaram a “ignorância criativa”, considerando que muito conhecimento pode inibir a inovação em todos os domínios.

 

No longo debate civilizacional em defesa ou em ataque à ignorância, há uma questão conceitual: de que perspectiva e de onde se parte para definir a ignorância. Seria uma “bênção” – “ignorance is bliss”, como cunhou o poeta inglês Thomas Gray (1716-71), ou um gigante a ser denunciado e derrotado?

 

Em “Ignorância: uma história global” (“Ignorance: a global history”), Peter Burke, professor emérito de História Cultural na Universidade de Cambridge, retrocede nos séculos da história para reconstituir como pessoas e sociedades lidaram com a ignorância. Traduzida por Rodrigo Seabra, a edição brasileira chega às livrarias em maio pela Vestígio. 

 

Autor de dezenas de obras, traduzidas para mais de 30 idiomas, o historiador de 85 anos é conhecido no Brasil por livros como “O que é história do conhecimento?” (Unesp, 2016), “O polímata: uma história cultural de Leonardo da Vinci a Susan Sontag” (Unesp, 2020) e “Cultura popular na Idade Moderna” (Companhia das Letras, 2010). 

 

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Em nossa “era da informação” – de um mundo hiperconectado, em que diferentemente do passado, longe da escassez, o problema é o excesso – a enxurrada  – de informações que se despeja sem filtros sobre os cidadãos –, Burke se pergunta sobre o conhecimento que se perde ao longo dos séculos: estamos bem cientes de que sabemos muita coisa que as gerações anteriores não sabiam, mas estamos bem menos cientes das coisas que eles já sabiam e que hoje não mais sabemos.  Recupera como os antigos debateram o conhecimento. Viaja à Grécia, assinalando que Sócrates

 

(470 a.C.-399 a.C.), em crítica àquele que “pensa que sabe algo, quando não sabe”, afirmava nada saber, exceto, que sua ignorância era um fato. Em contraposição ao estudo sobre como adquirimos conhecimento e sabemos se ele é confiável, Sócrates se preocupava com o conceito oposto: como e por que continuamos ignorantes. Da China Antiga, a definição de Confúcio (552 a.C. - 489 a.C.) sobre o conhecimento segue atual: “Se devo dizer-lhes o que é conhecimento: o que sabemos, saber que o sabemos. Aquilo que não sabemos, saber que não o sabemos. Eis o verdadeiro saber”.

 

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Ao definir o conhecimento, assim como Confúcio, Burke distingue os “desconhecidos conhecidos” e os “desconhecidos desconhecidos”. Na primeira categoria, está tudo aquilo que já se sabe, mas que ainda não é conhecido, mas um dia será, a exemplo da estrutura do DNA antes de sua descoberta em 1953; na segunda está aquilo de que a humanidade ainda nem faz ideia que exista, tal como ocorreu na Idade Média, quando Cristóvão Colombo alcançou a América, quando buscava encontrar as Índias.

 

Peter Burke parte, assim, da definição tradicional de ignorância:  a ausência ou privação de conhecimento, que é frequentemente invisível para o indivíduo ou grupo ignorante, uma forma de cegueira que tem consequências graves para a humanidade. Não à toa o autor dedica o livro aos professores que tentam remediar a ignorância de seus alunos, marcando a distinção entre “não saber”; “não desejar saber”; e não querer que outras pessoas saibam algo. 

 

A difusão da ignorância

 

Se no passado uma das principais razões para a ignorância dos indivíduos era o fato de que pouca informação circulava na sociedade – o acesso aos manuscritos e ao conhecimento era restrito –, paradoxalmente, a sobrecarga de informação se tornou um problema contemporâneo, pois caminha ao lado da difusão da ignorância.

 

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“Os indivíduos experimentam um dilúvio de informações e muitas vezes não conseguem selecionar o que querem ou precisam, uma condição que também é conhecida como ‘falha de filtro’. Como consequência disso, nossa assim chamada era da informação permite a difusão da ignorância tanto quanto a difusão do conhecimento”, afirma Burke. Recentemente, o enfrentamento global da epidemia da Covid-19 escancarou a profusão de falso conhecimento sobre a doença, com consequências gravíssimas, inclusive mortes que poderiam ter sido evitadas. 

 

É no contexto dessas preocupações do século 21 que atualmente o estudo acadêmico da ignorância é impulsionado, afirma Burke, destacando, em particular, as demonstrações de ignorância de ex-presidentes da República, como Donald Trump, nos Estados Unidos e Jair Bolsonaro, no Brasil. Contra a disseminação das notícias falsas, a receita de Peter Burke é a educação: alfabetizar as crianças, já no ensino fundamental, em relação à forma de interagir, identificar e lidar com a difusão da ignorância, que atende a interesses nunca revelados. 

 

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Como definir a ignorância?

 

Sigo a definição tradicional de ignorância como ausência de conhecimento, diferindo assim de alguns estudiosos recentes que falam em ‘produção’ da ignorância. Como a ausência não pode ser produzida, prefiro falar em “manter” as pessoas na ignorância ou em produzir dúvida ou confusão (por exemplo, por técnicas de “desinformação”). Eu distingo entre simplesmente não saber; não desejar saber; e não querer que outras pessoas saibam algo.

 

Qual é a importância em escrever sobre a história da ignorância no século 21, denominado “a era da informação”?

 

Embora negligenciada, a ignorância é sempre uma temática importante, mas, por uma variedade de razões, recentemente se tornou tópico ainda mais destacado. Uma delas é a óbvia ignorância de recentes presidentes da República, como George W. Bush, Donald Trump e Jair Bolsonaro. Uma outra razão é a disseminação das chamadas “fake news” pelas mídias digitais, frequentemente acreditadas porque em geral o público não sabe (ou não se importa) com quem está enviando a mensagem e com quais interesses. Daí a importância em educar as pessoas para que sejam mais críticas e se tornem “alfabetizadas” na identificação das fake news, processo este que deve se iniciar no ensino fundamental. 

 

Somos ignorantes por que o conhecimento “definitivo” nunca será alcançado ou somos ignorantes quando negamos o conhecimento já produzido?

 

Somos todos ignorantes em relação a muitas coisas: individualmente cada um sabe algo que outros não sabem; e coletivamente, cada nova descoberta, em medicina por exemplo, revela o que antes não sabíamos (embora não soubéssemos que não sabíamos). A negação é uma outra questão. Suponho que existam pessoas que simplesmente acreditem que o Holocausto nunca tenha ocorrido - e nesse sentido, se assim for, eu as chamaria de ignorantes ou de auto-iludidas. Mas outros, neonazistas, por exemplo, provavelmente sabem a verdade e escolhem negá-la por seus próprios interesses. 

 

Em sua opinião, nesta nova era informacional, a falta de mediação na circulação da informação, papel anteriormente preenchido pelas plataformas tradicionais de mídia, tornou-se aliada da negação do conhecimento?

 

Neste caso, prefiro falar da circulação do falso conhecimento. Isso costumava ocorrer principalmente por transmissão oral, ou seja, rumores e fofocas, que viajavam mais rápido do que se poderia esperar em uma época anterior aos trens, aos carros, aos aviões, ao rádio, à televisão, etc. Mas alguns falsos conhecimentos também circularam na imprensa, no rádio e na televisão, mas como fica implícito em sua pergunta, embora nem sempre haja tempo para a verificação, houve e há porteiros em todos esses meios, checando a confiabilidade das informações que estão prestes a circular.

 

Também, às vezes, os donos de sites de mídia preferem uma história que vá vender a uma história menos dramática, mas verdadeira. Nesta era das mídias digitais, como você menciona, retornamos a algo semelhante à velha situação em que recebíamos informação “diretamente”, em outras palavras, sem saber a origem, como no caso dos rumores.

 

Líderes populistas no Brasil e de todo o mundo propagam a desinformação por meio das mídias digitais. Na sua opinião, para proteger a população da desinformação, que tipo de controle devem as sociedades exercer sem o risco de  ferir a liberdade de expressão?

 

Este, é claro, é um aspecto delicado da temática: alcançar um equilíbrio entre a liberdade de expressão, por um lado e, por outro, a proteção da sociedade contra o “discurso de ódio” e, como você menciona, a desinformação (para a qual o remédio, como sugeri, é a educar as pessoas para serem críticas em relação às mensagens que leem ou ouvem).

 

Não acredito que seja possível definir um limite válido para todas as situações – crianças precisam de mais proteção, por exemplo, enquanto nas universidades seja o caso para maior liberdade de expressão.

 

Os legisladores precisam estar conscientes em relação às diferenças entre as situações e a elas adaptar as leis. Mas a agressão verbal, que frequentemente leva à agressão física, precisa ser controlada. Felizmente, o discurso agressivo ou a escrita agressiva pode ser facilmente e rapidamente identificado, enquanto provar que uma notícia é falsa pode levar horas de pesquisa.   

 

“Ignorância: uma história global”

 

  • Peter Burke
  • Tradução de Rodrigo Seabra 
  • Editora Vestígio
  • 352 páginas
  • R$ 74,90 

 


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