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Fake news: aliada poderosa na disseminação da COVID-19

As notícias falsas, espalhadas principalmente por meio do aplicativo WhtasApp, têm contribuído muito para o crescimento da doença no Brasil; pesquisa aponta que brasileiros são os que mais acreditam em fake news no mundo


01/05/2020 04:00 - atualizado 01/08/2020 18:11

(foto: Quinho)
(foto: Quinho)


Não é verdade que a vacina contra a gripe aumenta a chance de contaminação pelo coronavírus. Também não é verdade que máscaras doadas pela China ao Brasil foram propositalmente infectadas. Assim como também não procede que médicos tailandeses conseguem curar a COVID-19 em 48 horas. Beber água a cada 15 minutos, chá de bicarbonato com limão, café, erva-doce, gargarejo com vinagre, alho fervido e água tônica não eliminam a doença do organismo. Uísque com mel também não.
Estas são algumas das 78 ‘notícias’ falsas sobre o coronavírus que tiveram que ser desmentidas pelo Ministério da Saúde (www.saude.gov.br/fakenews) em seu site oficial.


O Brasil registra mais de 1,5 milhão de casos de COVID-19 e já passou da marca de 60 mil mortes confirmadas. Além da alta transmissibilidade do vírus e de políticas governamentais equivocadas, as fake news contribuíram maciçamente para colocar o país em segundo lugar no nefasto ranking de casos e de mortes causadas pela doença.
A população brasileira é a que mais acredita em fake news no mundo. Essa conclusão consta num levantamento realizado pela rede para mobilização social Avaaz.org. Outra pesquisa, realizada pela empresa de cibersegurança Kaspersky, demonstra que 62% dos brasileiros não sabem identificar ou não têm certeza se conseguem diferenciar se uma notícia na internet é falsa ou verdadeira. Este mesmo estudo revelou que 16% dos latino-americanos desconhece completamente o termo ‘fake news’.


Voltada especificamente para informações falsas sobre o coronavírus, outra pesquisa da Avaaz, realizada em abril deste ano, mostra que 94% dos brasileiros entrevistados viram pelo menos uma informação falsa sobre a doença. E que 73% acreditaram em, ao menos, um conteúdo ‘desinformativo’ sobre a pandemia. Em números absolutos, significa que 110 milhões de brasileiros caíram em pelo menos uma mentira sobre a COVID-19.


O primeiro caso confirmado de COVID-19 no Brasil ocorreu em 26 de fevereiro. Entretanto, em janeiro já circulava em grupos de WhatsApp uma corrente afirmando que o diretor do Hospital das Clinicas (sabe-se lá de qual cidade) afirmava que uma nova ‘gripe fatal’ poderia ser curada com chá de erva-doce, pois o preparado caseiro teria ‘a mesma substância do medicamento Tamiflu’. Esse antigo boato já circulava desde 2009, época do surto de gripe suína, e foi ‘requentado’ após surgirem os primeiros casos de coronavírus na China.


A história da erva-doce foi a primeira ‘notícia’ falsa que teve que ser desmentida pelo Ministério da Saúde. Uma das mais recentes, também rechaçada pela pasta, é a de que o ministro interino da Saúde, Eduardo Pazuello, teria publicado em suas redes sociais a seguinte mensagem: “Atestado de óbitos (sic) não poderão mais notificar ‘suspeita de COVID-19’. Terão que fazer a contra-prova (sic) e constar apenas com o devido resultado positivo, a farra vai acabar”.


O primeiro indício da mentira é que Pazuello não possui perfis em redes sociais. A segunda é a sequência de erros de português no texto, características típicas das fake news. Outra são as expressões e palavras de ordem que dão a falsa impressão de que o usuário sempre está desmascarando alguma farsa, como a recorrente frase “a farra vai acabar”.


A respeito das notificações de óbitos, o Ministério da Saúde adverte: “Informamos que são incluídos nos números oficiais os casos em que o resultado do teste foi positivo. Os casos de pacientes que vieram a óbito e o resultado do teste ainda não foi concluído constam como óbitos em investigação nos dados divulgados pela pasta”.

WhatsApp, o principal vilão

A popularização das redes sociais concedeu aos usuários um poder até pouco tempo concentrado apenas nas mãos dos grandes veículos de comunicação: o de produzir e divulgar conteúdo. Mas essa possibilidade também fez nascer em muitas pessoas o sentimento de que existe um complô mundial das empresas de mídia para esconder algumas informações da sociedade. A tradução para essa falsa ideia são as frases características que acompanham a maioria das fake news nas redes sociais: “Repassem antes que seja tarde” ou “Isso a mídia tradicional não mostra”.


Uma das principais razões para a mídia tradicional não noticiar certos fatos ou conteúdos em algumas ocasiões é simples: às vezes o tal ‘fato’ não ocorreu.

 

Informações falsas publicadas em redes como Facebook ou Twitter permitem que o usuário possa buscar com maior facilidade o responsável pela postagem. Entretanto, as famosas correntes que circulam pelo WhatsApp não são rastreáveis e tornam o aplicativo de mensagens o grande vilão da desinformação.


Pesquisa desenvolvida pela Fiocruz mostra que 73,7% das informações e notícias falsas sobre o coronavírus circularam pelo WhatsApp. Outros 10,5% foram publicadas no Instagram e 15,8% no Facebook. A própria fundação que realizou o estudo muitas vezes tem seu nome envolvido no conteúdo mentiroso. Entre essas fake news propagadas pelo WhatsApp, 71,4% citam a Fiocruz como fonte. No Facebook, as atribuições à instituição de pesquisa caem para 26,6%. A OMS e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) somam 2% das instituições citadas como fonte das informações falsas.


Segundo o filósofo e professor Pablo Ortellado, a alteração de funcionalidades do WhatsApp é um fator de risco. Isso porque o aplicativo começou como uma ferramenta de mensagens privadas (partindo de um remetente para apenas um destinatário) e, com o tempo, foi adquirindo características de divulgação de conteúdo em massa (como conversas em grupo ou encaminhamento de uma mesma mensagem para múltiplos usuários), alcançando milhões de pessoas.


“Mensagens que viralizaram no WhatsApp terminaram tendo impacto enorme no público. Conseguimos medir isso por pesquisas de opinião, que correntes de WhatsApp chegam a dezenas de milhões de brasileiros”, disse Pablo em entrevista à rádio CBN.
Segundo ele, o sigilo de mensagens é necessário quando se trata de envios individuais, mas deveria ser relativizado nos casos de remessas massivas.


“Essas correntes de WhatsApp têm a mesma proteção de sigilo aplicadas a mensagens de um para um. Isso é uma combinação muito ruim. Permite que se lancem campanhas negacionistas sobre a COVID-19 ou atacando instituições democráticas de maneira oculta, porque não é possível encontrar o autor da mensagem. Muitas vezes, quem é alvo de uma campanha de desinformação que corre em determinados grupos nem fica sabendo”, declarou.

 

Projeto de lei das notícias falsas está na Câmara

Tramita no Congresso Nacional o Projeto de Lei nº 2.630/2020, de autoria do Senador Alessandro Viana (Cidadania-SE), para instituir a Lei Brasileira de Liberdade, Responsabilidade e Transparência na Internet. O PL já foi aprovado no Senado e agora será discutido na Câmara.


O projeto prevê medidas polêmicas e é visto por algumas entidades da sociedade civil ligadas aos direitos na internet como ameaça à liberdade de expressão, à privacidade dos usuários e à inclusão digital.


Pablo Ortellado, que também coordena o Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação (Gpopai), tem atuado em conjunto com parlamentares para tentar melhorar o sistema de identificação de autores de informações falsas.

 

“Trabalhamos junto com senadores para introduzir a rastreabilidade no WhatsApp. Mas ele só recolheria dados quando a mensagem é enviada para grupos quando tem mais de cinco encaminhamentos. Quando é enviada de um para um, os dados não são recolhidos. O conteúdo e a origem da mensagem ficariam arquivados por tempo determinado e só seriam exibidos por ordem judicial”, explica.

Maus exemplos

Desde o início da pandemia, o presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), tem assumido postura negacionista com relação à COVID-19, minimizando o potencial de letalidade da doença e defendendo uma ‘volta à normalidade’, com o fim das medidas de isolamento social. Em alguns casos, para tentar fundamentar sua narrativa, Bolsonaro recorreu ao compartilhamento de discursos de terceiros. Porém, nem sempre o conteúdo era verdadeiro.


No dia 1º de abril, Bolsonaro compartilhou um vídeo em que um homem alegava falsamente que a Ceasa de Minas Gerais estava desabastecida. Após grande repercussão, o presidente apagou o vídeo e chegou a assumir o erro.


Ainda em abril, numa tentativa de desmerecer a OMS, ele publicou uma lista de supostas “diretrizes para políticas educacionais” do órgão, em que aparecia recomendações sobre masturbação e relações homossexuais para crianças de 0 a 6 anos. No texto, Bolsonaro dizia: “Essa é a OMS que muitos dizem que devo seguir no caso do coronavírus. Deveríamos então seguir também suas diretrizes para políticas educacionais?”. Poucos minutos após a postagem, o texto foi deletado.


No início de junho, o Facebook marcou como ‘informação falsa’ uma publicação do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP). O post continha a frase ‘Os fascistas do futuro, (sic) se chamarão a si mesmos de antifascistas’, atribuída a Winston Churchill, mas que nunca foi dita pelo ex-primeiro ministro britânico. Seu irmão, o senador Flávio Bolsonaro, também fez um post com a frase no Twitter.

 

Perfil das mentiras

Informações falsas denunciadas por meio do aplicativo Eu Fiscalizo entre os meses de abril e maio

 

  • 24,6% afirmam que a COVID-19 é uma estratégia política;
  • 15,9% se referem à doença como uma farsa;
  • 10,1% ensinam métodos caseiros para prevenir o contágio;
  • 10,1% defendem o uso da cloroquina e hidroxicloroquina sem comprovação de eficácia científica
  • 7,2% são contra o distanciamento social;
  • 5,8% ensinam métodos caseiros para curar a COVID-19;
  • 5,8% afirmam que o novo coronavírus foi criado em laboratório;
  • 4,3% declaram o uso de ivermectina como cura para a doença;
  • 4,3% são contra o uso de máscaras;
  • 2,9% difamam os profissionais de saúde.
  • 2,9% são contra o uso de álcool em gel;
  • 2,9% incluem o coronavírus em alguma teoria conspiratória;
  • 1,4% declaram ter a causa do óbito de parentes alterada para COVID-19;
  • 0,4% consistem em charlatanismo religioso, com tentativa de venda de artefatos para a cura da doença.


Fonte: Estudo desenvolvido pela Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz (Ensp/Fiocruz)


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