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Estado de Minas NATUREZA AMEAÇADA

Exploração e perigos de uma gruta tombada para a preservação

Declarada patrimônio pela Prefeitura de Curvelo, caverna descrita por Peter Lund em 1835 reserva tesouros científicos, mas com caminho tomado por riscos


13/12/2021 04:00 - atualizado 13/12/2021 09:05

Pessoa de capacete e roupa alaranjada dentro de caverna
Riqueza dos salões e das formações rochosas contrasta com a dificuldade de chegar ao local e com passagens estreitas e traiçoeiras em seu interior (foto: Luciano Faria/Divulgação)

Curvelo – A jornada até a Lapa de Quatro Bocas, recém-declarada patrimônio municipal pela Prefeitura de Curvelo, é ainda hoje uma aventura digna das façanhas pioneiras de 1835 do naturalista Peter Lund e de seu companheiro de expedições Peter Brandt. Não se chega sequer perto da gruta onde Lund esteve, há 186 anos, sem vencer estradas rurais prejudicadas pelas chuvas, muitas vezes bloqueadas pelo gado justo nas passagens mais exigentes e banhadas pelas curvas do Ribeirão Maquiné, um curso d'água traiçoeiro, que com as tempestades de cabeceira pode ganhar volume de rio e precisa ser transposto pelo seu leito veloz. A paisagem remete ainda a um misto dos desenhos e pinturas de Brandt, no século 19, e das descrições dos textos de Guimarães Rosa, no século 20, com pequenas povoações nos rincões mais improváveis e casebres perdidos em grotões.

São quatro acessos por onde a água de chuvas atravessa – daí o nome de Lapa de Quatro Bocas. “Uma delas, a quarta e a menor, só encontramos na terceira campanha depois de termos visitado a gruta, em março deste ano. Tínhamos uma noção, pela dinâmica topográfica e pelo escoamento da água, de onde estaria, mas exploramos bem as três primeiras bocas antes, até para estabelecer sua interligação”, conta o químico e doutor em história da ciência Luciano Emerich Faria, que pertence ao Opilião – Grupo de Estudos Espeleológicos (OGrEE) que redescreveu a caverna de Lund após comparativo com os mapas deixados pelo dinamarquês e por Brandt.
  
A lapa está inserida em um alto de colinas de rochas negras recobertas por vegetação densa, como uma mata de galeria de árvores frondosas entremeadas por plantas e espinhos de todos os portes. No caminho há uma trilha íngreme, mal delineada e camuflada, quase invisível a olhos destreinados. Cada passo no solo coberto de folhas faz minar água barrenta de um tapete tornado cada vez mais escorregadio com chuvas insistentes.

Mas, mesmo por entre galhos e folhagens mais fechadas, a abertura principal da Lapa de Quatro Bocas começa a aparecer, como se fosse um túnel desabado em frente a uma árvore de grande porte, de tronco tão grosso que demandaria quatro homens para abraçá-lo, e com não menos do que 20 metros de altura – robustez suficiente para se supor que lá já estava quando os exploradores Lund e Brandt apearam de suas mulas na região.

Algumas raízes descem pelo teto dessa entrada da caverna e acompanham o rastro de rio temporário que a chuva faz desaguar dentro da caverna. Nesse terreno molhado, pegadas de pequenos mamíferos indicam um ambiente de refúgio para a vida selvagem e também um possível ponto para a tocaia das onças que vivem na região.

Essa inserção essencial no ecossistema é considerada tão importante para a Prefeitura de Curvelo quanto o valor histórico da gruta. “Nossas grutas não sofreram intervenções para propiciar o turismo, são biomas muito específicos e sensíveis, por isso todo uso deve ser muito bem planejado e atender a uma série de protocolos e legislações, os quais estamos estudando junto ao Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Cavernas – órgão nacional de manejo e proteção de cavernas ligado ao ICMBio”, informa a administração municipal.

uma aranha dentro de caverna
Delicada biodiversidade no interior da Lapa de Quatro Bocas é considerada tão valiosa quanto sua importância histórica e científica (foto: Mateus Parreiras/EM/D.A Press )

Nuvens de morcegos,  equilíbrio natural

A biodiversidade que se somou à importância histórica para o tombamento da Lapa de Quatro Bocas se expressa também no interior das galerias e salões baixos, onde insetos e aracnídeos constroem ninhos e tocas. Aprofundando-se nos corredores tortuosos escavados pela erosão da água após milhares de anos, encontram-se os moradores mais presentes: bandos de morcegos que voam de todos os lados, se prendendo a estalactites que pendem do teto e de lá mergulhando em todas as direções. São tantos que às vezes dão a impressão de que a caverna esteja por vezes imersa em uma nuvem. A cada passo se sente o trombar das asas e até dos corpos dos animais, que não são perigosos se o visitante souber evitar movimentos que possam prendê-los.

“Uma de nossas teorias é a de que a Lapa de Quatro Bocas seja uma batcave, ou seja, uma caverna que agrega várias colônias de morcegos e por isso seja fundamental para o equilíbrio ecológico da região. Os morcegos frugívoros têm papel de dispersão de sementes, os insetívoros controlam as populações de insetos muitas vezes nocivos ao homem e à agricultura, e até os hematófagos, assim como os demais, fertilizam o meio ambiente por meio do guano (fezes extremamente ricas em nutrientes para o solo)”, afirma Luciano Faria. De acordo com o cientista e espeleólogo, essa caracterização necessitaria de estudos de biólogos e de outros profissionais, algo que pode ser feito no futuro, sob o benefício da preservação.

Os corredores que interligam as quatro bocas da cavidade se aprofundam por um total de 550 metros, muitos deles tendo de ser percorridos por exploradores agachados ou mesmo por rastejamento em passagens de pouco mais de 40 centímetros de diâmetro. Muitos desses trechos não podem ser visitados sob chuva, devido ao perigo de que o córrego temporário que muitas vezes corre na gruta bloqueie a passagem de retorno de algum dos salões ou mesmo afogue visitantes. Mais um motivo para o controle das atividades dentro da lapa descrita por Peter Lund e que foi reencontrada e preservada.

Curvelo quer blindar sua própria Rota Lund

Todas as cavernas descritas por Peter Lund em Curvelo estão nos planos do programa de preservação que a prefeitura local desenvolve. “A intenção é que as cavernas de Lund sejam tombadas como conjunto paisagístico do município, para no futuro, incluir Curvelo no circuito das cavernas de Lund, já que temos uma grande incidência dessas grutas em nosso território. Essa é uma forma de preservar nossa história e patrimônio. Trazer isso para a educação das comunidades é uma forma de incentivar a valorização das pessoas daqui”, afirma Adriana Batista de Almeida, chefe do Departamento de Cultura e Patrimônio do município.

Segundo Adriana, atualmente Curvelo tem 24 bens tombados e 100 inventariados para a proteção cultural. Com o tombamento, o município pode pleitear verbas proporcionais de ICMS Cultural para desenvolver trabalhos de proteção e educativos sobre as estruturas que estão protegidas, como as grutas.

Para o grupo Opilião, o tombamento seria particularmente especial para uma das grutas descritas por Peter Lund e cuja localização era desconhecida desde 1835. É a chamada Lapa do Capim Branco, que fica dentro de uma fazenda de mesmo nome. “Foi a primeira caverna que descobrimos, em 2012. Fizemos medições e mapeamentos que bateram com os mapas feitos por Lund, e com isso pudemos assegurar que se tratava da sexta cavidade onde Lund e Brandt estiveram”, afirma o cientista e espeleólogo Luciano Faria. A chefe do Departamento de Cultura e Patrimônio de Curvelo confirma que a Lapa do Capim Branco é uma das que serão tombadas.

A gruta, em si, não tem muitos atrativos. É pequena e foi revirada por extratores de salitre, um mineral muito valorizado no século 19 para a produção de pólvora. “Mas foi justamente no rastro dos salitreiros que Lund fez várias descobertas de fósseis da megafauna, como as preguiças gigantes e tigres dentes de sabre, pois as pessoas que revolviam o solo e as paredes das grutas atrás de salitre desenterravam esses fósseis e os descartavam. Lund, então os recuperava, estudava e remontava. Encontramos, inclusive, fragmentos cerâmicos de uma gamela de salitreiros na Lapa do Capim Branco”, conta Faria, revelando vestígios que ainda podem ser a ponta de várias descobertas científicas.


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