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Estado de Minas Nas prateleiras dos sebos

Livraria Amadeu, primeira loja de livros usados de BH, completa 65 anos, com 40 mil exemplares

Capital tem hoje mais de 20 casas de alfarrabistas, todas com acervo na internet


13/04/2013 06:00 - atualizado 13/04/2013 06:59


Prateleiras organizadas sem tecnologia, apenas pelas mãos apuradas dos livreiros. Publicações raras escondidas entre livros escolares, técnicos, infanto-juvenis, enciclopédias, ao alcance do pedido de um cliente. O mais antigo sebo – loja especializada em livros usados – de Belo Horizonte, a Livraria Amadeu, completa 65 anos. Hoje, são cerca de 20 na cidade, muitos deles na sobreloja do Edifício Arcangelo Maletta, no Centro da cidade, lugar que virou ponto de encontro para venda, troca e pesquisas em livros usados. Também estão na Savassi, Galeria do Ouvidor e Edifício Vila Rica.

O primeiro sebo de BH foi instalado por Amadeu Rossi Cocco, o seu Amadeu, em frente à Igreja São José, no Centro, em novembro de 1948. Antes, ele trabalhou durante 20 anos em cinco livrarias da capital, onde adquiriu gosto e conhecimento suficientes para abrir seu próprio negócio. Sentia falta de livros mais baratos, como já havia visto quando esteve no Rio de Janeiro e São Paulo. A primeira biblioteca que ele comprou, do crítico literário Milton Pedrosa, quase se perdeu em um temporal que atingiu BH num certo dia: os livros estavam sendo levados para o sebo em uma carroça e por pouco não se molharam.

Lourenço, um dos filhos de Amadeu, comanda o negócio deixado pelo pai
Lourenço, um dos filhos de Amadeu, comanda o negócio deixado pelo pai (foto: Ramon Lisboa/EM/D.A Press)
Anos depois, em 1962, o dono da loja alugada pediu o imóvel e seu Amadeu se mudou com cerca de 20 mil exemplares para a Rua dos Tamoios, 748, onde está até hoje graças aos seus filhos, Lourenço e Amadeu. Do pai, falecido em 2009, aos 93 anos, eles herdaram muitos ensinamentos. O primeiro deles, difundido entre os outros sebos, é que a principal satisfação do alfarrabista é encontrar o livro para o cliente. “Nossa missão é achar a publicação antiga, nossa satisfação é conseguir aquele livro pedido”, diz Lourenço Carrato Cocco, de 55 anos. E parece que as palavras do seu Amadeu foram ouvidas longe. Mesmo com sua aversão ao computador por achar que tira o romantismo das páginas de papel, os sebos estão na internet e com esse propósito: entregar o livro a quem o procura. O site mais famoso do segmento, a Estante Virtual, congrega todos os sebos de BH e muitos do Brasil, oferecendo mais de 11 milhões de livros. E lá estão os 60 mil exemplares das três livrarias abertas por seu Amadeu.

Na bancada do sebo desde pequeno, Lourenço acompanhou as histórias dos clientes e o trabalho do pai. Ele lembra que a biblioteca mais cara que seu Amadeu comprou custou cerca de R$ 6 mil e tinha livros raros de filosofia, arte, latim e grego ensinados em colégios tradicionais. Conta que muitos leitores buscam não apenas preço baixo, mas querem raridades para renovar a biblioteca particular, livros que estudaram na infância e querem guardar, viúvas que buscam se desfazer das coleções dos maridos. Lá, segundo Lourenço, também vão estudantes e pessoas que só querem entrar, folhear, sentir o cheiro de poeira e papel antigo.

Pesquisa

Em 1962, Amadeu levou o sebo para a Rua dos Tamoios, 748, no Centro, onde funciona até hoje
Em 1962, Amadeu levou o sebo para a Rua dos Tamoios, 748, no Centro, onde funciona até hoje (foto: Arquivo EM - 14/11/1980 )
Curiosa pelo mundo dos alfarrábios, a socióloga Márcia Cristina Delgado escreveu em 1999 o livro Belo Horizonte: uma cartografia sentimental de sebos e livros, resultado de um trabalho de mestrado na Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (Fae/UFMG). Na publicação, ela conta várias curiosidades que marcam o caminho de um livro ao sebo. E aborda o universo das viúvas, segundo ela em matéria publicada na página da UFMG na internet, responsáveis por boa parte do acervo de muitos estabelecimentos da capital. “Há mulheres que têm raiva dos livros, pois os parceiros davam mais atenção a eles do que a elas. Outras, ao contrário, resolvem vendê-los para que as lembranças do marido não as façam sofrer”, contou na época da conclusão do estudo. Na pesquisa, Márcia Cristina visitou sete sebos de BH.

Entre os 40 mil exemplares da Livraria Amadeu da Rua dos Tamoios o mais antigo é a segunda tiragem do livro Direito de família, escrito por Lafayette Rodrigues Pereira, em 1889. As páginas estão bem amareladas, mas conservadas. No alto da prateleira, Lourenço vê mais um título raro e sobe na escada de madeira, tão usada pelo pai e a mesma desde a abertura do estabelecimento, para alcançá-lo. É A noiva do tropeiro – Romance dos costumes mineiros, escrito por Abílio Barreto, uma edição publicada em 1946. Eduardo Antônio Tolentino, de 74, resolveu estudar direito anos depois da aposentadoria. É na Livraria Amadeu que ele encontra antigos livros para o curso, mas conta que lê por curiosidade, já que as leis são atualizadas constantemente. “Tinha preconceito com livros usados, mas seu Amadeu, grande amigo que fiz, tirou isso da minha cabeça. Trabalhava aqui perto e passava todos os dias, ele me ensinou a ter o hábito da leitura”, disse.
 
Infantis

Nos sebos há lugar também para as crianças. E elas entram, sentam no chão, abrem os livros, apontam figuras, e as ainda não alfabetizadas tentam seguir a história pelas cores. Caio Carvalho Cardoso, de 32, é vendedor na loja da Rua Guarani há 15 anos. Às vésperas do Dia Nacional do Livro Infantil e Dia de Monteiro Lobato, comemorados em 18 de abril, o livreiro conta que, felizmente, parece estar havendo mais interesse das crianças pela leitura. “Aqui passam crianças de 5, 6 anos, veem os livros nas prateleiras e querem entrar. Elas sentam, pedem aos pais para contar as histórias, é interessante.” Caio conta que adquiriu o hábito da leitura com seu Amadeu e levou o ensinamento adiante incentivando seus sobrinhos pequenos.


PERSONAGEM DA NOTÍCIA: AMADEU ROSSI COCCO PRIMEIRO ALFARRABISTA DE BH

Seu Amadeu deixou no comando das três livrarias que abriu seus dois filhos e sobrinhos
Seu Amadeu deixou no comando das três livrarias que abriu seus dois filhos e sobrinhos (foto: Maria Tereza Correia/EM/d.A Press - 12/2/1999)
Seu Amadeu nasceu em Passagem de Mariana, Região Central de Minas, em 1916. Seu pai trabalhava na mineração e morreu jovem, vítima de silicose. Amadeu, então, teve que cuidar da mãe e os irmãos. Em 1931, chegou a BH e conseguiu emprego como balconista na Livraria Morais. Dali em diante trabalhou em outras quatro livrarias durante quase 20 anos, até fundar a própria, especializada em livros usados. Em 1948, quando abriu a Livraria Amadeu, ele ainda trabalhava na Livraria Cultura Brasileira e foi lá que ele negociou os primeiros livros usados. Seu Amadeu deixou no comando das três livrarias que abriu seus dois filhos e sobrinhos.


SALÃO DO LIVRO
Entre 9 e 18 de agosto acontece na Serraria Souza Pinto, no Centro de Belo Horizonte, o 2º Salão do Livro Infantil e Juvenil de Minas Gerais. No evento, editoras e escritores apresentam lançamentos, além de palestras, debates, contação de histórias, teatro, shows, cinema, HQ e outras atividades. A programação completa e os participantes ainda serão divulgados pela Câmara Mineira do Livro.


LINHA DO TEMPO:
Século 16 – Surgiram os primeiros sebos na Europa, com a venda de documentos importantes da época
1808 – O comércio de livros usados começa se desenvolver no Brasil, após a chegada da Família Real
1926 – A primeira loja de livros usados do Brasil é aberta no Centro do Rio de Janeiro: Livraria Briguet
1948 – Amadeu Rossi Cocco abre o primeiro sebo de BH, na Rua dos Tamoios, 238, em frente a Igreja São José
1962 – Livraria Amadeu, com 20 mil exemplares, muda para a Tamoios, 748, onde está até hoje
1969 – O livreiro Ronaldo Lima abre a Shazam, primeiro sebo instalado na sobreloja do Edifício Arcângelo Maletta
2005 – Administrador de empresas lança na internet o site Estante Virtual, com o arquivo de 12 sebos
2009 – Seu Amadeu, considerado decano dos alfarrabistas da capital, morre aos 93 anos
2012 – Estante Virtual chega a 11 milhões de livros de mais de 1,3 mil sebos do Brasil, e outros sites semelhantes começam a surgir


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