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Estado de Minas NA LINHA DE FOGO

Na raça e na coragem: a luta dos brigadistas e voluntários contra as chamas

Movidos pelo amor à natureza e às suas comunidades, combatentes superam limites na temporada de queimadas. 'Tem que ir até onde o seu corpo aguentar', diz um deles


13/10/2020 04:00 - atualizado 13/10/2020 08:00

Brigadistas e voluntários lutam contra o fogo na Serra do Cipó: incêndio de grandes proporções durou 10 dias, expondo os combatentes a rotina extenuante(foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)
Brigadistas e voluntários lutam contra o fogo na Serra do Cipó: incêndio de grandes proporções durou 10 dias, expondo os combatentes a rotina extenuante (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)

A onda de calor que pairou sobre Minas Gerais também trouxe o “combustível” para alimentar as chamas que devastaram a vegetação em algumas localidades do estado. Em ocasiões como essa, o Corpo de Bombeiros é sempre o primeiro a ser acionado pela população. No entanto, a mobilização na luta contra as labaredas também ganha aliados da sociedade civil, como brigadistas e voluntários. Alguns deles, inclusive, nem sequer têm treinamento, mas, com a gana de ajudar e impedir que os incêndios devastem a natureza, superam os limites da técnica.

No incêndio que devastou a Serra do Cipó, na Região Central de Minas, por 10 dias, o Corpo de Bombeiros estima que 16 mil hectares tenham sido consumidos pelo fogo. O prejuízo só não foi maior porque militares, brigadistas contratados pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e voluntários ajudaram na extinção das chamas. Uma das pessoas que auxiliaram nos trabalhos foi o biólogo Carlos Eduardo Benfica, que passou pelo menos seis dias atuando para apagar as labaredas.

Ao Estado de Minas, Benfica relatou que nunca havia visto um incêndio da proporção do que atingiu a Serra do Cipó neste ano. Ele relatou os momentos dramáticos na linha de frente do combate às chamas. “É uma sensação de guerra. Literalmente, cada um lutando por sua vida. Mas eu diria que a gana, a raça, o tanto que você precisa se doar pela causa, o fato de que você precisa contar com todos ao seu lado e vice-versa, tudo isso é praticamente uma mentalidade de 'vamos ganhar a qualquer custo'. É uma coisa impressionante o tanto que esse incêndio conseguiu afetar”, disse o biólogo.

Carlos Eduardo contou que as equipes na Serra do Cipó tiveram o auxílio de brigadas de outras localidades, como da Serra do Caparaó e do Parque Nacional da Serra dos Órgãos, além de autônomos e bombeiros militares folguistas. Apesar da ajuda extra, o biólogo sentiu que a principal dificuldade na luta contra o fogo foi a logística, mais especificamente no gerenciamento de pessoas, uma vez que a comunicação entre os combatentes era difícil.

Rogério (E) e os irmãos Djalma e Waldeir tentam descansar após mais um dia no combate às chamas na Lapinha da Serra(foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)
Rogério (E) e os irmãos Djalma e Waldeir tentam descansar após mais um dia no combate às chamas na Lapinha da Serra (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)


“Uma comunicação onde o celular não pega direito e os rádios são escassos dificulta bastante. Durante a noite, período em que os helicópteros e aeronaves não realizam atividades, por volta das 18h até as 6h, ficamos sem apoio logístico aéreo. Então isso dificulta ver qual a dimensão das chamas durante esse período”, afirmou.

Num combate de grandes proporções, como foi o caso na Serra do Cipó, a rotina de todos envolvidos, mesmo que de forma involuntária, sofre alterações, principalmente no que diz respeito ao sono. Entre os turnos noturno e diurno, Carlos disse que chegava a dormir apenas duas horas, mas que o período de descanso variava bastante.

“Não tem padrão. Foram seis dias. Teve dia em que consegui dormir seis horas, em outros, três horas. E teve dia em que consegui dormir duas horas. Tem que ir até onde o seu corpo consegue aguentar, mas, no geral, para pegar esses dois turnos, eu diria que você teria que dormir quatro horas, até porque tem toda a logística de encerramento do noturno e iniciação do diurno.”

Motivos


Quando são contratados, os brigadistas têm a missão de estar prontos a qualquer momento para qualquer tipo de emergência dentro dos parques nacionais. Mas, afinal, qual a motivação para que voluntários entrem no meio da mata para combater o fogo? O principal sentimento, de acordo com as pessoas ouvidas pela reportagem, é o de pertencimento a determinado lugar.

Caso, por exemplo, de Waldeir Ferreira Domingos. Nascido e criado em Lapinha da Serra, em Santana do Riacho, na Região Central do estado, o brigadista voluntário foi um dos que ajudaram a combater o fogo na região, que teve início na quarta-feira (7) e foi totalmente debelado no domingo (11). Sem qualquer tipo de treinamento, Waldeir se aventura em meio à vegetação para proteger o meio ambiente, sobretudo as nascentes.

“Na roça somos acostumados com tudo. Fogo para nós é normal, já vi meus pais apagando. Nunca fiz curso e não sou contratado por ninguém. Sou voluntário, nativo daqui. Vi que nossas nascentes iriam queimar e fomos lá preservar e apagar o fogo, para não matar nossa natureza, os bichos. O fogo destrói. Não podemos deixar, temos que apagar”, disse.

Apesar de ter se acostumado com as chamas ao longo da vida, Waldeir relatou nunca ter visto antes um incêndio nas proporções do que foi registrado na semana passada em Lapinha da Serra. Ao lado dos irmãos Djalma e Ilacir e do primo Rogério, o brigadista voluntário combateu o fogo com períodos curtos de descanso.

“A gente não dormia, não. A gente descansava. Sabe aquela dormidinha boba? Ficávamos em alerta olhando o fogo. Dormimos olhando o fogo, pois onde as chamas estavam nós não conseguimos ir, que é lá em cima, na montanha. Ficamos na casa mais próxima. Se o fogo chegasse onde a gente conseguisse ir, combatíamos”, disse Waldeir, que não escondeu a tristeza ao relembrar das chamas tomando conta da vegetação. “O sol estava muito quente. O fogo passava perto de uma árvore e queimava tudo. É muito triste. Dá vontade de chorar”, lamentou.

Quem também atuou no combate às chamas em Lapinha da Serra foi Thomaz Dayrell. O guia turístico, que mora há 11 anos no local, usou o pertencimento como principal motivação para lutar contra o fogo. Necessidade que aumenta quando as chamas podem afetar até mesmo o trabalho.

“Além de ter aquela tristeza como morador e uma pessoa da comunidade, eu sou prejudicado, também, porque trabalho com a natureza. Preciso que ela esteja cuidada. Esse também é um dos motivos pelos quais  estou aqui (no combate). Hoje trabalho e vivo do turismo. As pessoas vêm aqui ver a natureza, não essa imensidão de queimadas”, explicou.

Entre as dificuldades elencadas por Waldeir e Thomaz está a falta de infraestrutura. À reportagem, Waldeir relatou que uma bomba de água chegou a falhar no meio do combate e foi necessário improvisar para apagar as chamas. Já Dayrell lamentou que não haja uma brigada contratada para atuar na prevenção de queimadas. “O que estamos fazendo aqui é remediando. Se fosse um trabalho bem-feito, continuado, se nossas nascentes fossem cercadas, isso tudo o que está acontecendo tinha uma proporção muito menor”, alertou.

Solidariedade


Militares, brigadistas e voluntários também contaram com o apoio da população local em infraestrutura e alimentação. Em Lapinha da Serra, por exemplo, uma casa de apoio foi montada para atender a todos que participavam do combate às chamas. Lá, além dos quartos e banheiro, os homens também tinham alimentação disponível. As dificuldades, nesse caso, só surgiam quando os combatentes estavam em áreas de difícil acesso.

“Graças a Deus temos um grupo de bastante gente. Recebemos muitas doações. O grupo ajudou demais. Em questão de alimentação, foi tudo certo. Na questão da água foi complicado, pois estávamos em uma área de difícil acesso. Na casa de apoio não faltou nada, nem para comer nem para beber. Foi muito bom. Tivemos muitas doações. Alimentação muito boa”, elogiou Waldeir.

O mesmo espírito de solidariedade foi destaque no combate ao incêndio na Serra do Cipó. Carlos Eduardo Benfica contou pelo menos 10 pessoas envolvidas no preparo da alimentação de quem estava na operação. As marmitas, por exemplo, eram entregues em pontos distintos, com direito a rapadura de sobremesa, embalada em saquinhos de papel.

"A logística desse combate foi digna de ter todo o mérito. As marmitas estavam sempre contadas, os lanches estavam sempre separados. Você vê que eram separados com muito cuidado por pessoas que se importavam e que entendiam o que aquilo representava para quem estava combatendo no campo”, concluiu.

 

Bravos no calor da guerra

 

 

O repórter-fotográfico Leandro Couri acompanhou de perto a luta da Brigada Voluntária Guardiões da Serra no combate contra o incêndio na Serra do Cipó, semana passada. Foram dias de trabalho árduo na luta contra a fúria das chamas que devastaram um dos santuários ecológicos mais importantes do Brasil. Veja neste ensaio algumas das cenas que marcaram a batalha destes guerreiros contra o fogo.

(foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)
(foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)

(foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)
(foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)

(foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)
(foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)

(foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)
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(foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)
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