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Estado de Minas Transporte

Nova promessa da linha 2 do metrô de BH deixa população entre a esperança e dúvida

Garantia de recursos de R$ 1,2 bilhão foi divulgada por Bolsonaro. Não há data para conclusão de trecho. Moradores de regiões no percurso ouvidos pelo EM se dividem entre os que acreditam que agora a expansão é para valer e os que veem só como mais uma promessa


03/09/2020 06:00 - atualizado 03/09/2020 08:02

Estação ferroviária abandonada do Calafate: projeto é ligar o bairro ao Barreiro, mas não foi divulgado o cronograma da construção, por meio de parceria com iniciativa privada (foto: Edésio Ferreira/EM/D.A Press)
Estação ferroviária abandonada do Calafate: projeto é ligar o bairro ao Barreiro, mas não foi divulgado o cronograma da construção, por meio de parceria com iniciativa privada (foto: Edésio Ferreira/EM/D.A Press)


A novela da expansão do metrô de Belo Horizonte, que completou 34 anos com uma única linha, ganhou outro capítulo ontem e põe os moradores da capital, de novo, na expectativa de concretização da promessa. O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) usou o Twitter para oficializar o repasse de recursos destinados à construção da linha 2, que deve ligar o Bairro Calafate ao Barreiro. O projeto para o segundo trecho se arrasta há pelo menos 20 anos e será viabilizado por meio de R$ 1,2 bilhão referentes à indenização devida pela Ferrovia Centro-Atlântica (FCA), operadora privada de transporte.

“A criatividade e a determinação do ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, viabilizará a linha 2 do metrô de BH”, escreveu Bolsonaro na rede social, pela manhã. “A indenização relativa à devolução de trechos antieconômicos da Ferrovia Centro-Atlântica (FCA) será empregada no segmento Calafate/Barreiro, antigo sonho dos mineiros”, disse.



A publicação inclui foto do presidente com o ministro e o secretário-executivo do ministério, Marcelo Sampaio. Em outro tweet, ele continuou: “O BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) já trabalha na estruturação do projeto do metrô, que se tornou prioridade nacional em reunião do conselho do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI)”.

O governador Romeu Zema (Novo) comemorou o anúncio. “Mais um avanço e a conquista de um sonho antigo dos mineiros. Vamos viabilizar a linha 2 do metrô (Calafate-Barreiro) em BH. Agradeço ao governo federal por ter priorizado essa obra”, escreveu Zema no Twitter, agradecendo a Bolsonaro, ao ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, e à bancada mineira na Câmara dos Deputados.



Horas depois do anúncio de Bolsonaro, Tarcísio Gomes de Freitas conversou com deputados federais de Minas para explicar detalhes do projeto de expansão do metrô de BH. De acordo com o chefe da pasta da Infraestrutura, não há risco financeiro para o empreendimento, uma vez que a quantia depositada pela Ferrovia Centro-Atlântica cairá direto em uma conta vinculada ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), utilizada exclusivamente para garantir o aporte ao transporte metroferroviário da capital.



“O risco financeiro da obra estamos mitigando, porque estamos garantindo a alocação do recurso. O BNDES faria a reestruturação de uma licitação que traria responsabilidade para o novo operador, a conclusão e operação da linha 2 e, eventualmente, a potencialização e operação da linha”, afirmou Tarcísio.

Sobre o início das obras, o ministro preferiu manter cautela e dar prioridade ao processo de viabilidade e de alternativas de parcerias com a iniciativa privada, que está sendo conduzido pelo BNDES. A secretária especial do Programa de Parcerias de Investimentos, Martha Seillier, também participou da conversa.

Gestão


Em outra frente, o governo de Minas negocia com o governo federal a estadualização do metrô da região metropolitana. A ideia é desestatizar a Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU), atual gestora do modal, para que o estado fique responsável pela administração do transporte. Dessa forma, os serviços seriam concedidos à iniciativa privada pelo governo estadual. “A ideia é fundir a empresa em praças e a praça mais adiantada hoje é a de Minas. Então, a ideia é ter, por exemplo, uma CBTU Minas. Esses estudos já estão adiantados para conseguirmos fazer o leilão no ano que vem”, disse Martha Seillier, ressaltando que o futuro operador do metrô de BH terá contrato com prazo de 35 anos e compromisso com investimentos.

Em 24 de julho, uma portaria publicada no Diário Oficial da União (DOU) qualificou as obras da linha 2 como intervenção apta ao PPI do governo federal. A estimativa é de que 120 mil pessoas usem a nova linha diariamente. Poucas semanas depois da publicação, durante a inauguração de um trecho duplicado da BR-381, em Nova União, na Grande BH, o ministro Tarcísio de Freitas disse que o governo pretendia usar recursos da Vale para viabilizar o metrô.



Desde o último fim de semana, o senador mineiro Carlos Viana (PSD) vem usando o Twitter para falar sobre o tema e disse que o dinheiro da Vale seria revertido ao Tesouro Nacional para financiamento da linha 2. Ontem, horas antes do anúncio de Bolsonaro, ele publicou no Twitter reprodução de um folder com algumas informações relativas ao processo. Segundo ele, os valores de 10 parcelas da multa já estão no caixa da União. “Agora, nós precisamos refazer na Justiça, colocar a termo todas essas questões. Será o último passo”, disse em vídeo divulgado no último sábado.

Estrutura


Mapa mostra o possível traçado da linha 2 do metrô e a extensão da atual(foto: Arte/Soraia Piva)
Mapa mostra o possível traçado da linha 2 do metrô e a extensão da atual (foto: Arte/Soraia Piva)
A linha 2 será composta pelas estações Calafate (uma das 19 da linha atual), Amazonas, Salgado Filho, Vista Alegre e Barreiro, que ainda serão construídas. O senador estima que com o repasse as obras levem quatro anos para ser concluídas. Uma possibilidade é o uso de estruturas férreas antigas, desde que não estejam comprometidas pelo tempo.



No documento, ele ainda diz que Contagem e Betim também devem ser beneficiadas pelo projeto de expansão do metrô. “O financiamento já está garantido e será anunciado em breve, junto com o governo do estado de Minas Gerais”.

Divididos

''Só Deus sabe se virá'', diz Maria das Graças, que depende de compras feitas no Centro de Belo Horizonte(foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)
''Só Deus sabe se virá'', diz Maria das Graças, que depende de compras feitas no Centro de Belo Horizonte (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)
Moradores de bairros onde os trilhos do metrô vão passar vivem na expectativa do transporte que deve reduzir o tempo de deslocamento de passageiros em BH. Eles se dividem entre quem acredita que, agora, a obra sairá do papel e aqueles que veem apenas uma nova promessa no anúncio de verba feito pelo presidente Jair Bolsonaro.

O cabeleireiro Tadeu Alves Pereira, de 41 anos, mora no Bairro Jardim industrial, em Contagem, no limite com o Barreiro. Para ele, o metrô seria muito útil no dia a dia. “Já tem mais de 20 anos a promessa do metrô no Barreiro, barrada pelas transportadoras. Desta vez, é capaz que o dinheiro liberado finalmente faça chegar metrô aqui”, disse, com esperança de que a estação vire também atrativo ao comércio da região. “Vai ser muito maravilhoso. A esperança nossa é que ele vai trazer muito atrativo pro Barreiro. Com o metrô, garanto que vamos gastar 20 minutos para chegar ao Centro. De ônibus, dependendo do trânsito, a gente leva mais de uma hora.”

O comerciante Celso Marcos de Castro, de 42, tem um restaurante na Avenida Álvaro da Silveira, Bairro Santa Margarida, região conhecida como Barreiro de Baixo. Ele conta que, em 2008, quando fez o projeto de seu estabelecimento, teve receio de que não seria aprovado pela prefeitura, pois havia a conversa de que os empreendimentos da avenida precisassem sair para dar espaço ao metrô. “Na época fiquei até com medo de não conseguir alvará por causa do metrô. Seriam 10 metros para recuar e ampliar a rua”, disse.

A previsão, segundo Celsinho (como ele é conhecido), é que seja erguida uma estação a 50 metros do local onde está instalado o seu restaurante. Para ele, morador da região há 30 anos, “vai ser maravilhoso” a chegada do prometido transporte. “Eu acho que não vou ver esse metrô ainda. Talvez os meus filhos vejam. Mas, como dizem que agora sai, vai movimentar mais o comércio. Vou montar um ponto comercial bacana e rir bastante. Essa pandemia aí ‘ia ser fichinha’ perto da alegria que eu teria”, planeja o comerciante.

A costureira Ivone Ferreira sobrinho, de 46, faz as compras na Avenida Visconde de Ibituruna, ponto comercial na região do Barreiro. Apesar de ter amplo acesso ao comércio local, ela diz que muitas coisas são resolvidas apenas no Centro da capital. “Seria ótimo pra nós um metrô porque todo mundo pede um acesso mais rápido ao Centro, só que sempre quando chega época de eleição falam que vai vir, que vai vir, e nunca veio”, critica.

Belo Horizonte, que conta com uma população na ordem de 2,5 milhões de habitantes, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), tem apenas 19 estações de metrô, que cobrem 28,2 quilômetros ligando a Estação Vilarinho, na Região de Venda Nova, até a Estação Eldorado, em Contagem.

O Bairro Vista Alegre, Região Oeste de BH, é um dos que podem ser contemplados com uma estação. A estudante Jaqueline Anjos, de 26, acredita que outro ponto positivo é a reativação da linha que cruza o bairro e está desativada. “Seria ótimo porque o trânsito da Avenida Amazonas é muito ruim. Não sei se dessa vez virá. Mas precisar, precisamos muito. Principalmente para arrumar esse trilho aqui. Além de ficar tão feio, usuários de droga ficam aí às vezes”, descreve ela, apontando trilhos abandonados da antiga Rede Ferroviária Federal.

Maria das Graças de Souza, de 72, é moradora do Bairro Industrial II, que fica ao lado do Vista Alegre. Ela comenta que, além da importância do metrô, seria bom haver uma passarela para que os usuários atravessassem em segurança os trilhos da ferrovia. “Bom vai ser, agora se vem só Deus sabe. Preciso resolver muitas coisas no Centro, então vai ajudar demais”, disse.

Há 48 anos, Antônio Cornélio espera que o metrô chegue perto de casa, no Bairro Betânia, e agora vê sua esperança renovada(foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)
Há 48 anos, Antônio Cornélio espera que o metrô chegue perto de casa, no Bairro Betânia, e agora vê sua esperança renovada (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)
Morador do Bairro Betânia, na mesma região, Antônio Cornélio Soares, de 73, costuma caminhar e não se importaria em andar um pouco para chegar à estação. “Eu moro aqui desde 1972. Desde então que estou esperando o metrô passar”, relembra. “Acho excelente um metrô aqui, está precisando. Já era pra estar pronto, inclusive. Mas desta vez sai, eu confio muito”, acrescenta. (Déborah Lima)

Obra preferida nos palanques



Em 2008, o então governador de Minas Aécio Neves havia informado que o presidente à época, Luiz Inácio Lula da Silva, aprovou o projeto de expansão do metrô e representantes dos governos estadual e federal fariam a formatação da modelagem da parceria público-privada. Os investimentos anunciados para a obra giravam em torno de R$ 4 bilhões. O empreendimento era valorizado para atender à Copa do Mundo de 2014.

Em 2011, Dilma Rousseff anunciou a liberação de R$ 3,16 bilhões do Orçamento da União para as obras de mobilidade urbana. O projeto incluía novas estações para a linha 1 – a única que opera em BH – e a construção dos ramais 2 e 3, este último ligando a Savassi, na Região Centro-Sul da capital, até a Lagoinha.

O tempo passou e as obras não tiveram início. Em 2012, perfurações começaram a ser feitas em diversos pontos de Belo Horizonte, como Praça Sete, Praça Rio Branco, entre outros locais, para avaliar a resistência do solo, visando ao projeto de expansão do metrô. Os trabalhos chegaram a ser ordenados pelo então prefeito da capital mineira Márcio Lacerda.

Em 2014, a pauta sobre a ampliação do metrô voltou e dividiu os governos estadual e federal. Dilma havia anunciado recursos da ordem de R$ 2,5 bilhões para melhorar a mobilidade urbana da capital. Daquele montante, R$ 2 bilhões iriam para a Prefeitura de Belo Horizonte e governo de Minas, para que, em parceria, elaborassem projetos para a expansão do metrô. Por fim, em 2017, o então presidente Michel Temer anunciou a destinação de R$ 157,7 milhões para a ampliação da linha 1 do metrô.


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