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Estado de Minas PATRIMÔNIO

300 anos de história contra os cupins: doações ajudam a recuperar Mosteiro de Macaúbas

Convento em Santa Luzia vai começar descupinização de 6,6 mil metros quadrados de instalações históricas, graças a campanha que arrecadou verba para restauração


postado em 14/02/2020 06:00 / atualizado em 14/02/2020 08:40

(foto: Beto Novaes/EM/D.A Press -29/8/17)
(foto: Beto Novaes/EM/D.A Press -29/8/17)
 

Ação em benefício do patrimônio de Minas começa a dar frutos e, para a boa colheita, há importante participação popular. Lançada em setembro de 2017, a campanha Abrace Macaúbas, em benefício do Mosteiro de Nossa Senhora da Conceição de Macaúbas, em Santa Luzia, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, terá hoje um momento decisivo, com a assinatura do contrato para descupinização do prédio de 6,6 mil metros quadrados de área construída. “Esta etapa é fundamental para a preservação deste patrimônio com mais de 300 anos de história, pois a maior parte da estrutura é em madeira”, diz a abadessa, madre Maria Imaculada de Jesus Hóstia.
 
No valor de R$ 100 mil, a ação vai resolver um dos problemas mais sérios da construção tombada. Na capela aberta aos fiéis aos domingos, por exemplo, os insetos já “devoraram” pedaços do piso de tábuas corridas. Parceira das monjas concepcionistas na empreitada, a Associação Cultural Comunitária de Santa Luzia atua em mais duas frentes: o projeto elétrico, em andamento, e o de combate a incêndio.
 
O presidente da entidade cultural, Adalberto Andrade Mateus, destaca Macaúbas como um dos expoentes do estado que, em 2020 comemora 300 anos da separação das capitanias de Minas e São Paulo. “O mosteiro impressiona pelas dimensões e conservação externa, mas por dentro precisa de reforma imediata de todo o sistema elétrico, descupinização, enfim, de obra de restauro”. As iniciativas de conservação têm apoio do Memorial da Arquidiocese de BH, da Paróquia Santa Luzia e Vicariato da Ação Missionária das Cidades Históricas. Todas as ações são acompanhadas pelo promotor de Justiça da comarca, Marcos Paulo de Souza Miranda, com obras fiscalizadas por comissão da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Santa Luzia, Iepha e Iphan.
 
No ano passado, dentro da campanha Abrace Macaúbas, foi restaurado o muro de proteção, erguido no século 18, do mosteiro localizado às margens do Rio das Velhas – mas o dinheiro não veio da contribuição popular. A preservação da estrutura de adobe, exemplar único local, resultou do entendimento entre o Ministério Público de Minas Gerais, a Prefeitura de Santa Luzia e um empreendedor luziense que custeou os R$ 105 mil da intervenção.

Sinais de perigo


Ainda em 2017, a abadessa, madre Maria Imaculada de Jesus Hóstia, ao lado da irmã Maria de São Miguel, mostrava estragos dos cupins(foto: Beto Novaes/EM/D.A Press -29/8/17)
Ainda em 2017, a abadessa, madre Maria Imaculada de Jesus Hóstia, ao lado da irmã Maria de São Miguel, mostrava estragos dos cupins (foto: Beto Novaes/EM/D.A Press -29/8/17)
Há mais de cinco anos, a abadessa comandou uma grande campanha para a compra das latas de tinta que deram vida nova ao azul colonial das portas e janelas e branco das paredes com um metro e meio de largura e prepararam o mosteiro para a festa do tricentenário, em 2014. Internamente, o madeirame do prédio que abrigou uma das primeiras escolas femininas das Gerais, está em situação precária. Em alguns cantos, é possível ouvir estalos ao se pisar nas tábuas corridas. O forro da capela, pintado no início do século 19 por Joaquim Gonçalves da Rocha, de Sabará, também demanda ação urgente. Há gambiarra de fios, colunas com perdas de reboco, buracos em madeiras e outros sinais de deterioração.

De deserdadas a figuras ilustres

Conhecer o Mosteiro de Macaúbas, como é carinhosamente chamado o recolhimento das religiosas concepcionistas, representa experiência única: ali estão as monjas, roseiras para fazer vinho, entre muitas orações e trabalho duro. Na entrada principal, onde se lê a palavra clausura, vê-se em destaque a pintura de um personagem fundamental nesta história: o eremita Félix da Costa, que veio da cidade de Penedo (AL), em 1708, pelo Rio São Francisco, na companhia de irmãos e sobrinhos.
 
Demorou três anos para chegar a Santa Luzia, onde construiu uma capela dedicada a Nossa Senhora da Conceição, de quem era devoto. No século 18, quando as ordens religiosas estavam proibidas de se instalar nas regiões de mineração por ordem da coroa portuguesa, havia apenas dois recolhimentos femininos em Minas: além de Macaúbas, um em Chapada do Norte, no Vale do Jequitinhonha.
 
Tais espaços recebiam mulheres de várias origens, as quais podiam solicitar reclusão definitiva ou passageira. Assim, os locais abrigavam meninas e mulheres adultas, órfãs, pensionistas, devotas. Algumas se estabeleciam temporariamente, para “guardar a honra”, enquanto maridos e pais estavam ausentes da colônia, ou ainda como refúgio para aquelas consideradas desonradas pela sociedade da época.
 
Macaúbas recebeu figuras ilustres, como as filhas da escrava alforriada Chica da Silva, que vivia com o contratador de diamantes João Fernandes. A casa na qual Chica se hospedava fica ao lado do convento. Como parte do pagamento do dote das filhas, Fernandes mandou construir, entre 1767 e 1768, a chamada Ala do Serro, com mirante e 10 celas (quartos para as religiosas).
 
Em 1847, o recolhimento passou a funcionar também como colégio, tornando-se um dos mais tradicionais de Minas. Essa situação durou até as primeiras décadas do século 20, quando a escola entrou em decadência, devido à chegada de congregações religiosas europeias com grande experiência na educação de meninas. Já em 1933, a construção passou a abrigar o mosteiro da Ordem da Imaculada Conceição.

Quer contribuir?

Caixa Econômica Federal, em nome do Mosteiro de Nossa Senhora da Conceição Macaúbas – Agência: 1066, operação 013, conta poupança 75.403/4 e CNPJ: 19.538.388/0001-07


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