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Estado de Minas

Chuva já causa estragos em BH e eleva atenção para temporada de riscos

Pancadas de chuvas nas primeiras 48 horas de dezembro deixam rastro de destruição na capital. Período é marcado por enchentes e deslizamentos


postado em 03/12/2019 06:00 / atualizado em 03/12/2019 14:46

Restos de árvores e muito lixo presos nas laterais e grades do Ribeirão Arrudas ao longo da Avenida Tereza Cristina mostram a força do temporal de domingo(foto: Edésio Ferreira/EM/DA Press)
Restos de árvores e muito lixo presos nas laterais e grades do Ribeirão Arrudas ao longo da Avenida Tereza Cristina mostram a força do temporal de domingo (foto: Edésio Ferreira/EM/DA Press)


Belo Horizonte amanheceu com moradores tentando pôr em ordem a vida depois do temporal da noite de domingo, que resultou em enchentes e alagamentos na região da Avenida Teresa Cristina, a segunda em menos de dois meses, e rajadas de vento de 70 quilômetros por hora na Região da Pampulha. No fim do dia, após uma trégua com sol, a chuva retornou com força, principalmente no Centro da capital. Pedestres tiveram de se abrigar dentro de lojas, pois o alagamento tomou conta das calçadas. Um dos pontos mais críticos foi na Rua Caetés, entre a Rua São Paulo e a Avenida Afonso Pena. Na Região Leste, uma árvore de grande porte caiu sobre a Avenida Francisco Sales, em frente à Santa Casa de Belo Horizonte, fechando o trânsito.

Depois do fim de semana de estragos, o risco continua. A Defesa Civil emitiu um alerta para pancadas de chuva até a manhã de hoje. As precipitações podem ser acompanhadas de descargas elétricas e rajadas de vento de até 50 quilômetros por hora. Outro aviso é para o risco geológico, devido à saturação do solo. Com dias consecutivos de chuva, há chance moderada de ocorrências de quedas de muros, deslizamentos de terra, escorregamentos, erosões e sinais como trincas e rachaduras em imóveis.

Moradores da Vila São Paulo passaram o dia limpando casas atingidas pela água(foto: Edésio Ferreira/EM/DA Press)
Moradores da Vila São Paulo passaram o dia limpando casas atingidas pela água (foto: Edésio Ferreira/EM/DA Press)


Quem sofreu com as chuvas das últimas 48 horas, o começo da semana foi de lidar com mau cheiro e o risco de doenças deixado pela lama que se acumulou nas ruas por onde as águas passaram arrastando tudo. Na porta das casas, acumulavam-se sofás, colchões, geladeiras danificados. Na Vila São Paulo, no limite dos municípios de Belo Horizonte e Contagem, os moradores contavam os prejuízos de forma resignada, temendo o que vem pela frente no período chuvoso, que se estende até março.

Ao longo da mureta na Avenida Teresa Cristina, galhos retorcidos, lixo e muita sujeira mostravam a força da água que transbordou do Córrego Ferrugem quando se encontrou com o Rio Arrudas. No meio deste cenário de destruição, quem passava pelas margens da avenida também se comoveu com a tentativa de resgate de um filhote de cachorro. Depois de ser arrastado pela correnteza, ele conseguiu sair da água e se abrigar na parte cimentada no interior do Ribeirão Arrudas. A reportagem do Estado de Minas flagrou o esforço de algumas pessoas para salvar o cão. O Corpo de Bombeiros chegou a ser acionado, mas não chegou a tempo. O nível da água subiu e o filhote foi novamente levado pelas águas.

Emergência


Em frente à Santa Casa, uma árvore tombou e atingiu um carro, fechando o trânsito(foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)
Em frente à Santa Casa, uma árvore tombou e atingiu um carro, fechando o trânsito (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)


Com a chuva forte sobre a capital na noite de domingo, a Defesa Civil bloqueou as avenidas Vilarinho e Tereza Cristina. A pancada começou na Região da Pampulha, classificada como extremamente forte, e logo seguiu para Venda Nova e as regionais Nordeste e Oeste. Ainda em poucos minutos a chuvarada ganhou as regiões Leste, Centro-Sul e Barreiro. O volume de chuva na região do Barreiro foi de 41,4 milímetros, de acordo com a Defesa Civil. “Dezembro é o mês mais chuvoso, com o maior índice durante o ano”, afirmou o meteorologista do Instituto Nacional Claudemir de Azevedo.

Localizada na Rua Padre Flávio, na Vila São Paulo, a casa do motorista João Carlos de Souza, de 70 anos, estava na área de alagamento da Avenida Teresa Cristina. As paredes do imóvel têm as marcas das sucessivas enchentes que ele já enfrentou desde a década de 1980. A enchente de domingo alcançou 2 metros de altura. A água encobriu móveis e fez com que ele tivesse que deixar a casa às pressas. “A Defesa Civil vem aqui, avisa, mas parece que os órgãos públicos fazem vista grossa”, reclama.

Ele lembra que em menos de dois meses é a segunda vez que tempestades trazem transtornos à região. A penúltima chuva foi em 29 de outubro, quando ele perdeu a geladeira e outros pertences. Nesse domingo, conseguiu salvar a televisão. “Estou tirando água e lama desde 1 hora da manhã. Já estou com minha mão inchada de tanto bater pá”, afirmou. Ele perdeu a conta do número de enchentes que enfrentou. “O Córrego Ferrugem transborda em cima da Teresa Cristina. O córrego tinha que acompanhar o leito do Rio Arrudas. Poderia resolver se fizessem uma galeria aqui na rua para receber a água da chuva”, sugere.

Recorrente


Roberto Fonseca, de 62, há 15 mora na Vila São Paulo e, todos os anos, tem que lidar com os estragos da chuva. No dia que sucedeu ao temporal, ele olhava sem acreditar nos móveis danificados pela enchente, que se acumulavam no passeio. Um caminhão-pipa da Prefeitura de Contagem ajudava na retirada da lama na garagem e no interior da casa. “Meu carro ficou alagado. Perdi móveis. É a segunda vez que isso acontece este ano. Essa situação dá muito desânimo”, afirma. Ele não entende os motivos de o poder público não resolver o problema. “Pagamos IPTU tão caro e não fazem nada”, disse sobre o Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU).

O empresário Patrício Rocha Resende, de 49, contabilizava os prejuízos no galpão do Grêmio Recreativo e Escola de Samba Chame Chame, que fica localizado na Rua Luminosa, paralela à Avenida Tereza Cristina, onde a água atingiu 2 metros de altura. “Menos de três meses antes do carnaval e perdemos fantasias, alegorias e adereços”, diz. O dano só não foi maior poque ele conseguiu colocar parte das fantasias numa parte mais alta do galpão onde fica guardado o material da escola.

Patrício acredita que o problema com as chuvas não se resolve pelo fato de o ponto de alagamento estar no limite dos municípios de Belo Horizonte e Contagem. “Há um jogo de empurra-empurra entre os governos municipais. Na última chuva, colocamos os móveis destruídos pela chuva e levaram 15 dias para que fossem recolhidos.” Ele destaca que paga R$ 3 mil de IPTU do galpão e R$ 3 mil de taxa de incêndio por ano. Ele defende que uma forma de compensar os moradores seria descontos no IPTU. “Não temos apoio nenhum”, reclamou.


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