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Estado de Minas MARIANA, 4 ANOS DEPOIS

Tragédia de Mariana: trinca em dique gera um dos maiores atrasos na recuperação

Quatro anos depois, Represa de Candonga ainda depende de obras que devem passar de 2020, devido a mais um problema em estrutura de contenção


postado em 07/11/2019 06:00 / atualizado em 07/11/2019 07:41

Estrutura de contenção no entorno da usina: erro na construção ou má qualidade do material pode ter causado problema no principal dique projetado. Fundação fala em falha geológica(foto: Edésio Ferreira/EM/DA Press )
Estrutura de contenção no entorno da usina: erro na construção ou má qualidade do material pode ter causado problema no principal dique projetado. Fundação fala em falha geológica (foto: Edésio Ferreira/EM/DA Press )


Mariana – Quatro anos depois da tragédia de Mariana, que deixou 19 mortos e um rastro de 600 quilômetros de impactos na Bacia do Rio Doce, um dos principais itens em atraso dentro da implantação das ações ambientais de reparação pelo rompimento da Barragem do Fundão é a paralisação das ações na Represa de Candonga, em Rio Doce. O reservatório recebeu cerca de 10 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério de ferro após a ruptura, naquela que ficou conhecida como a maior tragédia socioambiental da história do país, em 5 de novembro de 2015. Devido a um erro construtivo ou, pior, à realização de obra usando material de qualidade inferior em intervenções na região, a previsão inicial de conclusão pode ultrapassar três anos, uma vez que a limpeza do local e sua correta destinação deveriam ter terminado em 2018, mas deverão passar de 2020.

Diante da situação, a Hidrelétrica Risoleta Neves só voltará a gerar energia em abril de 2021, como mostrou o Estado de Minas, com exclusividade, em julho deste ano. O atraso ocorreu principalmente devido a uma trinca que fez ruir parte do maciço de mais de 15 metros de altura de um dique feito de rochas, areia e solo compactado, projetado para receber 3 milhões de metros cúbicos dos rejeitos, na Fazenda Nova Floresta, uma propriedade vizinha adquirida para esse fim.

O rompimento da barragem operada pela mineradora Samarco em Mariana liberou uma onda devastadora de 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos, arrasando a Bacia Hidrográfica do Rio Doce, entre Minas Gerais e o Espírito Santo, e arrastando parte do material até o litoral brasileiro. Ao todo, 19 pessoas morreram, sendo que o corpo de uma das vítimas jamais foi encontrado. A devastação ambiental é a pior da história brasileira e a situação da Barragem de Candonga a mais crítica, pois o reservatório chegou a passar por perigo de rompimento.

Os dramas ambientais ocorrem paralelamente à angústia dos atingidos: 56% dos imóveis alugados vistoriados por consultoria do Ministério Público Federal (MPF) foram classificados como instalados em locais ou situações inadequados, como áreas de risco. Por outro lado, a construção de assentamentos sofre atrasos. O Novo Bento Rodrigues, por exemplo, que abrigará a comunidade do povoado mais devastado, ainda não saiu do papel, mas já custa 2,5 vezes o orçamento inicial, como revelou o EM ao longo desta semana, em que a tragédia completa mais um ano.

Medo renovado


No caso de Candonga, além dos atrasos na previsão de remoção do material acumulado no fundo do barramento, a permanência dos rejeitos dentro dos remansos do lago fazem com que, na prática, os detritos ainda estejam depositados dentro do Rio Doce. O rompimento da estrutura que devia contê-los na fazenda levou pânico à comunidade de Santana do Deserto, abaixo da Represa de Candonga, que vê um drama do passado voltando à tona. A Fundação Renova sustenta que ocorreu uma “falha geológica (trinca)” e por causa disso o planejamento do dique na Fazenda Floresta foi abandonado. A ideia, agora, é construir pequenas barragens para conter o material liberado há quatro anos.

A Fundação Renova admite que uma das áreas mais atingidas pelo rejeito é a região da Usina Hidrelétrica Risoleta Neves. A limpeza do reservatório é uma operação complexa, que teve início em 2016. Segundo a fundação,    foi retirado cerca de 1 milhão de metros cúbicos de material que estavam depositados em um trecho de 400 metros do lago. Para a contenção da lama de rejeito que ainda poderia chegar de Mariana, foram construídos três barramentos metálicos dentro do reservatório da usina, que ficarão submersos após o enchimento do reservatório. A limpeza das três turbinas da hidrelétrica foi concluída e envolveu a atuação de mergulhadores para identificar e a retirar manualmente os detritos que comprometiam o funcionamento dos equipamentos.

Destino dos rejeitos removidos do lago, a Fazenda Floresta agora passa por uma série de intervenções para receber parte dos rejeitos acumulados no reservatório. “O material proveniente da dragagem – uma polpa formada por 80% de água e 20% de rejeito – será depositado em pilhas de material seco, que passará por análises e recuperação ambiental. A água que sobra da dragagem será tratada e devolvida para o rio, atendendo a todas as normas vigentes. O término da obra está previsto para 2020”, informa a Renova, que também executa obras de drenagem geral na região. “As intervenções visam à contenção de encostas no entorno do lago, para disciplinar as águas pluviais e diminuir erosão nos períodos chuvosos”.

Recuperação fora do cronograma


Após seu primeiro ano de atuação, em 2017, a Fundação Renova, criada pela mineradora Samarco e suas controladoras – Vale e BHP Billiton – para lidar com os efeitos da tragédia de Mariana, planejava reservar 2018 para indenizações e 2019 para a recuperação ambiental, mas esse cronograma não se concretizou. No primeiro ano, a entidade se concentraria nas reformas de instalações, obras de controle de erosão, recuperação de pastagens, caminhos e acessos, reconstituição de cercamentos e de sistemas de irrigação, plantação de forragens e perfuração de poços.

Isso foi feito, mas nos anos seguintes os objetivos não chegaram a ser alcançados, após a Renova ter informado que, até agosto, já foram destinados R$ 6,68 bilhões para as ações de recuperação e compensação socioambiental e socioeconômica da Bacia do Rio Doce.

Em indenizações e auxílios financeiros, cerca de R$ 1,84 bilhão foi pago para mais de 320 mil pessoas, mas o número de atingidos pode ultrapassar os 700 mil. Mais de 1.400 obras foram executadas ao longo de todo o território atingido, segundo a fundação.

Uma das questões ambientais e diretamente ligada à saúde dos atingidos foi a poluição do Rio Doce, muito usado pela captação de água. “O Rio Doce é o mais monitorado do Brasil. São 80 parâmetros físicos, químicos e biológicos estudados em 92 pontos, de Mariana à foz. Hoje, o Rio Doce é enquadrado na classe 2, e isso significa que a água pode ser consumida após tratamento convencional e ser destinada à irrigação. Além disso, foram recuperados 113 afluentes”, sustenta a Renova.

Outra ação ambiental importante é o Programa de Recuperação de Nascentes, em seu terceiro ano de execução, sendo considerado fundamental para revitalização da bacia, com a recuperação de outras 500 nascentes, acumulando um saldo de 1.035 restauradas em Minas Gerais e no Espírito Santo, segundo dados da entidade. O objetivo do programa é recuperar 5.000 nascentes em 10 anos.

A Renova informou que R$ 500 milhões foram gastos em projetos de saneamento e que estão sendo reflorestados 40 mil hectares de mata atlântica na Bacia do Rio Doce. “Até fevereiro de 2020, serão plantados 800 hectares. As mudas que serão usadas no projeto, cerca de 1 milhão, foram produzidas em viveiros localizados na própria região. No total o investimento será de R$ 1,1 bilhão no projeto, que será realizado nos próximos 10 anos”, afirma a fundação.


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