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Estado de Minas

Sem radares móveis, motoristas pisam no acelerador em trechos perigosos de rodovias

Condutores abusam da velocidade em pontos que a polícia costumava controlar com aparelhos móveis, suspensos em 15 de agosto. Em 10 minutos em cada estrada, EM flagra 57 'corredores' nas BRs 381 e 040


postado em 30/10/2019 06:00 / atualizado em 30/10/2019 08:42

Radar usado pela reportagem registra flagrantes de alta velocidade na BR-040, próximo ao viaduto da Mutuca, e no Km 30 da BR-381. As duas estradas registraram o maior número de acidentes fatais em Minas(foto: Paulo Filgueiras/EM/D.A Press)
Radar usado pela reportagem registra flagrantes de alta velocidade na BR-040, próximo ao viaduto da Mutuca, e no Km 30 da BR-381. As duas estradas registraram o maior número de acidentes fatais em Minas (foto: Paulo Filgueiras/EM/D.A Press)

(foto: Paulo Filgueiras/EM/D.A Press)
(foto: Paulo Filgueiras/EM/D.A Press)
 


Apenas dois meses e meio após a suspensão do uso de radares portáteis, móveis e estáticos nas rodovias federais, os abusos de velocidade cometidos pelos motoristas continuam a trazer perigo nas estradas mineiras. A reportagem do Estado de Minas foi às duas rodovias mais violentas do estado, as BRs 040 e 381, com 78 e 65 mortes, cada uma, para mostrar como a imprudência segue sem o monitoramento. Em pontos onde tradicionalmente a Polícia Rodoviária Federal (PRF) costumava postar os aparelhos de registro de alta velocidade, condutores pisavam fundo, alguns ultrapassando em mais de 60% o limite estabelecido por legislação. Desde o dia 15 de agosto, a PRF suspendeu a utilização dos aparelhos de medição após determinação presidencial, sob a justificativa de “acabar com a indústria da multa”. Se for considerado o ritmo de 399 flagrantes de excesso de velocidade registrados diariamente em Minas Gerais pelos radares móveis da corporação entre janeiro e junho (veja quadro), pelo menos 29.925 motoristas deixaram de ser punidos por ultrapassar os limites de segurança desde a suspensão dos equipamentos.

A Rodovia da Morte, como ficou conhecido o trecho da BR-381 entre BH e João Monlevade, era uma das mais monitoradas. Isso porque o segmento de 100 quilômetros apresenta mais de 100 curvas, obstáculos que se somam às obras de duplicação, que já duram cinco anos. Uma descida forte, com mais de seis quilômetros que terminavam no Km-437, em Sabará, na Grande BH, era um dos trechos que mais recebia operações de fiscalização por meio de radares móveis. Em frente ao chamado Posto 30, sem esse monitoramento, a velocidade máxima de 60km/h foi ultrapassada por 39 veículos em apenas 10 minutos, constatou a reportagem.

O pior registro foi o de um caminhão Mercedes Benz vermelho, que trafegava a 98 km/h. Além do excesso de velocidade, ele cometeu outras imprudências, que poderiam ter resultado num acidente mais grave. Com o veículo vazio, o motorista acelerou até iniciar a ultrapassagem de um caminhão Volkswagen, na descida, pela contramão e em faixa contínua. Um motociclista que vinha atrás até reduziu sua velocidade para ganhar distância de segurança, caso fosse preciso frear se os caminhões se envolvessem em algum acidente ou precisassem frear de forma brusca se essa manobra arriscada não se concluísse de forma satisfatória.

Trafegando a 98km/h em trecho com velocidade máxima de 60km/h, caminhão faz ultrapassagem proibida de outro na Rodovia da Morte
Trafegando a 98km/h em trecho com velocidade máxima de 60km/h, caminhão faz ultrapassagem proibida de outro na Rodovia da Morte


Em Roças Novas, distrito de Caeté, os pare e siga e pistas estreitas devido às obras de duplicação tiram a paciência dos motoristas e a liberdade para acelerar leva a várias freadas bruscas e possibilidade de acidentes. O próprio carro da reportagem quase sofreu uma batida na traseira por um caminhão carregado com hortaliças. O veículo de transporte de cargas encurtava as freadas a cada curva, tentando desenvolver uma velocidade mais alta. Ao ter de reduzir a velocidade numa fileira de veículos antes de um quebra-molas, o carro do EM teve de escapar para o acostamento para não ter a traseira batida.

Depois disso, o caminhão acelerou, invadiu a contramão numa faixa contínua e iniciou uma sequência de ultrapassagens aos veículos em baixa velocidade da fileira, chegando a obrigar os carros em sentido contrário a desviar, até que o caminhoneiro retornou à sua mão de direção. No sentido contrário, mesmo na subida, a velocidade máxima de 60km/h também não consegue mais ser imposta devido à ausência de fiscalização. Vários veículos trafegam em alta velocidade, chegando a reportagem a registrar um Hyundai HB20 branco acelerando a 103km/h.O perigo é parte da vida dos serventes de uma empresa que presta serviço de limpeza dos acostamentos e áreas de domínio para o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transporte (Dnit).

(foto: Arte EM)
(foto: Arte EM)

 
Diariamente Waldiney Wagner Duarte, de 24 anos, Caio Antônio Duarte Pinto, de 23, e André Oliveira Viana, de 33, precisam trabalhar com suas foices, pás, carrinhos de mão e ferramentas nas mais perigosas curvas da rodovia. “É a rodovia da morte. Muitos amigos nossos de Roças Novas já foram embora (morreram). Ano passado, perdemos três irmãos e um vizinho”, disse Waldiney. “O problema aqui é que ninguém respeita a velocidade. O motorista não respeita a rodovia. Não ajuda. Vê que a curva é ruim e corre. São impacientes. Todos: carretas, carros, motos”, conta Caio. “Outro dia, morreu uma criança recém-nascida numa batida de frente de um carro com uma carreta. A gente trabalha porque precisa trazer o pão para dentro de casa. Aí, pega com Deus e trabalha atento. Já quase fomos atropelados, mesmo com cones espalhados antes”, afirma André.

Na BR-040 (BH-Rio de Janeiro), campeã de mortes no primeiro semestre de 2019 – apesar das pistas bem conservadas e livres devido à conservação por pedágio–, os motoristas insistem em exceder a velocidade máxima permitida. Após a sequência de dois radares no sentido Nova Lima-BH, altura do Km-546, foram verificados, em 10 minutos, 18 veículos acelerando acima dos 110km/h permitidos a carros e 90km/h a caminhões. Um carro branco chegou a passar registrando 149km/h, 35% acima do permitido e já próximo aos trevos da zona de urbana de Belo Horizonte, onde há intensificação do tráfego urbano.

Especialista aponta 'perda de foco'


O engenheiro civil e especialista em transporte e trânsito, Silvestre de Andrade Puty Filho, vê com maus olhos a suspensão da fiscalização eletrônica. “O trânsito precisa ser fiscalizado. Não há como ter um bom tráfego se não tivermos boa fiscalização. Há perigo de o excesso de velocidade provocar acidentes e também de agravar sua severidade. Quanto mais alta a velocidade, pior a gravidade. O impacto é maior, a consequência é maior”, disse.

O radar móvel, na visão do especialista, tem a vantagem de permitir que se mude o ponto de monitoramento, ao contrário dos aparelhos fixos, que determinam esses limites num trecho crítico. “Cada radar tem a sua função específica e são aparelhos que se complementam no monitoramento. A justificativa de uma indústria da multa não convence. Não há lógica em dizer que insumo da multa é a infração. Isso tira o foco da infração”, afirma.

A PRF informa apenas que “em cumprimento aos despachos de 15 de agosto de 2019, a direção-geral expediu decisão administrativa na qual determina a todos os gestores e servidores que adotem as providências necessárias para ser sobrestado o uso e recolhidos os equipamentos medidores de velocidade estáticos, móveis e portáteis até que o Ministério da Infraestrutura conclua a reavaliação da regulamentação dos procedimentos de fiscalização eletrônica de velocidade em vias públicas”.


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