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Estado de Minas

'Pedras que falam': confira o texto do escritor Bê Sant'Anna sobre Brumadinho

"Eu sei a cor da água turva de minério. Lavamos ferro. Levamos ferro. Os duzentos milhões de brasileiros são cúmplices ocultos de uma tragédia visível"


postado em 18/02/2019 10:50 / atualizado em 18/02/2019 10:58

(foto: Edésio Ferreira/EM/D.A Press - 06/02/2019)
(foto: Edésio Ferreira/EM/D.A Press - 06/02/2019)


(Por Bê Sant'Anna) Somente depois que a lama começou a secar dentro de mim, tateei o solo frágil por onde caminhar e avaliar os destroços que ficaram expostos e ocultos.

Ai de mim, mineiro por natureza. Daqui do Porto parto em cacos, restos, formas disformes e questionamentos sujos, turvados por pensamentos dúbios de compaixão e raiva, angústia e dor, hematita a ser arrancada do peito.

A pedra do caminho de Drummond era de minério de ferro.

Pobres de nós que não sabemos ouvir o saber dos artistas. Em 1994, o escultor Leo Santana já nos contava em sua exposição nos córregos de Macacos - São Sebastião das Águas Claras o que estava por vir. Mas a arte é só um saber menor: o que importa é a razão, os cálculos dos engenheiros, a precisão dos economistas, a ciência dos matemáticos, a proporção dos investidores. O escultor que magicamente sentou Drummond no banco de Copacabana não pode ser mais preciso que a aritmética do Homem que Calculava.

Tenho compaixão de quem fez a planta da mina de Brumadinho, colocando os escritórios e o refeitório embaixo da barragem de rejeitos. Porque não existem argumentos capazes de livrá-lo de seu travesseiro e do escuro da noite. Quando a luz se apaga, ele experimenta o oco da vida, onde estão os filhos e pais e mães, enterrados vivos sem travesseiros.

Ah, mas a barragem não foi feita para arrebentar. Não. E nenhuma tábua foi feita para cair na cabeça de nenhum pedreiro. Ele é obrigado a usar capacete, não porque sabemos que existe um tipo de tábua voadora. Mesmo sem ser engenheiro, não preciso de argumentos para defender o que fatalmente é óbvio.

Queria abraçar os bombeiros, lavar suas roupas, achar os seus olhos e dizer que me importo.

Não quero pensar que quem não saiu às ruas depois da tragédia de Mariana, de algum modo, jogou um tiquinho de lama em todos os filhos e pais e mães que não vão voltar para suas casas. Não quero pensar que até os parentes daqueles vitimados, que não saíram às ruas, também podem por um momento sentir essa angústia. Até os funcionários da mineradora que não gritaram antes, eles também, podem ter tido essa angústia em seu derradeiro grito.

Tenho compaixão de cada funcionário da mineradora, de todos os investidores que tem ações desta empresa, do presidente da companhia, das suas certezas que foram enterradas ao lado de dezenas de corpos e das suas dúvidas lavadas pela lama. Dos diretores, dos gerentes, de quem sabe alguma coisa, de quem não sabe nada. Tenho compaixão dos que postam qualquer coisa a respeito dessa tragédia sobre si e sobre sua atuação no instagram, com a melhor das intenções. Tenho compaixão de mim, que escrevo esse texto pensando se devo deletá-lo ou publicá-lo. 

Eu sei a cor da água turva de minério. Lavamos ferro. Levamos ferro. Os duzentos milhões de brasileiros são cúmplices ocultos de uma tragédia visível. E todos devemos nos envergonhar.

Estou com vergonha. Talvez eu pudesse ter gritado mais do que gritei, ter feito mais inimizades do que fiz com minhas opiniões ditas obtusas, rasas e equivocadas. Talvez eu devesse ter saído mais às ruas, chorado mais, pedido mais, perdido mais. Mas é sempre assim: o medo da perda é particular. 

Se a verdadeira arte e os artistas, de fato, tivessem seus saberes equiparados com outros saberes, talvez não tivéssemos sociedade. Quem sabe, saciedade.

Da minha parte, peço desculpas pelo que não fiz. Eu, como tantos outros, juro que achei que estava tentando, em minha preocupante ignorância.

Triste, Poeta. A poesia se arrebentou e as pedras cantaram, como também previu Dominguinhos e Fausto Nilo. As pedras agora não estão só no meio do caminho. Estão por cima de todos, todos todos, todos todos todos todos todos, todos nós. 

Me sei sempre soterrado por palavras. 
É bem mais difícil o que sinto agora.

Bê Sant'Anna é escritor, tradutor, doutorando em Ciências da Linguagem pela Universidade do Porto


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