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Estado de Minas

'Rio de lágrimas e sangue', diz bispo auxiliar que visitou famílias em Brumadinho

Dom Vicente Ferreira acompanha de perto os efeitos trágicos do desastre. Hoje à noite será celebrada a missa de sétimo dia pelos mortos no rompimento da barragem da Vale


postado em 31/01/2019 06:00 / atualizado em 31/01/2019 09:25

Dom Vicente Ferreira abençoou brigadistas, bombeiros militares e outros integrantes das equipes de socorro em Brumadinho(foto: Arquidiocese de Belo Horizonte/Divulgação)
Dom Vicente Ferreira abençoou brigadistas, bombeiros militares e outros integrantes das equipes de socorro em Brumadinho (foto: Arquidiocese de Belo Horizonte/Divulgação)


Brumadinho –
“Há um rio de lágrimas e sangue correndo entre nós. E ninguém pode ficar de fora, ignorar o que está acontecendo”. Misto de lucidez e emoção, a frase é do bispo auxiliar da Arquidiocese de Belo Horizonte, dom Vicente Ferreira, que acompanha de perto os efeitos trágicos do rompimento da barragem do Córrego do Feijão, em Brumadinho, na Grande BH, e visitou famílias das vítimas ao lado do arcebispo metropolitano dom Walmor Oliveira de Azevedo e o titular da Paróquia São Sebastião, padre Renê Lopes. Hoje, às 19h30, dom Walmor vai presidir, na Matriz de São Sebastião, no Centro de Brumadinho, a missa de sétimo dia por intenção dos que morreram sob a lama de rejeitos de minérios da estrutura da Vale. A cerimônia será concelebrada por dom Vicente e pelo padre Renê.

A pedido de dom Walmor, todas as paróquias da arquidiocese deverão organizar missas de sétimo dia por intenção das vítimas. Na capital, a celebração eucarística será às 18h15, no Santuário Arquidiocesano Nossa Senhora da Boa Viagem, na Região Centro-Sul, sendo presidida pelo bispo auxiliar Giovane Luiz da Silva. A arquidiocese compreende 28 municípios, sendo dividida pelas regiões episcopais Nossa Senhora Aparecida, Esperança, Nossa Senhora da Conceição e Nossa Senhora da Piedade. Para atender a quem está sofrendo tanto, dom Walmor designou 13 diáconos (auxiliares da Igreja nos trabalhos de evangelização) que, junto dos padres, atendem o público.

Na tarde de terça-feira, após visitar comunidades atingidas, como o Parque das Cachoeiras, e se encontrar com famílias na Estação Conhecimento (local de busca de informações para famílias), em Brumadinho, dom Walmor disse que a mensagem é de “reacender a esperança no coração de todos, pois o estado vive a dor emoldurada pela degradação da natureza.” Ele disse ainda que Minas, a partir de agora, não poderá mais ser a mesma “É hora de mudança e de mudança muito radical. Quando a gente burla a verdade, quando a gente fica na contramão da Justiça, está agindo na contramão de Deus”. Para o arcebispo, “tudo que é um atentado à vida das pessoas é fruto de ganância e fruto da perda do sentido exato daquilo que é a vida como dom. Por isso, precisamos fazer um novo caminho”.

"De tão desesperados, alguns falam até em tirar a própria vida"

Dom Vicente Ferreira, bispo auxiliar da Arquidiocese de Belo Horizonte



Em nota, a arquidiocese informa que o arcebispo já se reuniu como secretário de Estado de Governo, Custódio Mattos, e tem participado de reuniões com parlamentares para reforçar uma solicitação feita ao governador Romeu Zema, no dia 5, durante visita ao Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade, em Caeté, na Grande BH: “modernização da legislação ambiental em Minas, caminho para evitar desastres como os ocorridos em Brumadinho e Mariana”.

Antes de seguir para Brumadinho, o arcebispo foi ao Instituto Médico-Legal (IML) também com a missão de acolher a quem busca notícias sobre familiares desaparecidos. No dia seguinte à tragédia, dom Walmor celebrou missa com todos os bispos auxiliares (dom Joaquim Mol, dom Otacílio Lacerda, dom Vicente Ferreira e dom Geovane da Silva) e consolou os que estão de luto.

FÉ E ESPERANÇA
Desde o rompimento da barragem em Brumadinho, a arquidiocese começou uma ampla campanha para acolher as famílias vítimas da tragédia, incluindo, principalmente, amparo psicológico, espiritual e material. No início da semana, após visitar a comunidade do Córrego do Feijão, onde está montado um centro de operações, o bispo auxiliar dom Vicente Ferreira disse ser fundamental, nesse momento, o acolhimento às famílias dos mortos já identificados e dos desaparecidos sob a lama de rejeitos de minério, e ajuda espiritual aos profissionais que trabalham, desde o início da tarde do dia 25, no resgate e tentativa de salvamento de centenas de pessoas.

Dom Walmor pediu que todas as paróquias organizem missas de sétimo dia pelas vítimas(foto: Paulo Filgueiras/EM/D.A Press)
Dom Walmor pediu que todas as paróquias organizem missas de sétimo dia pelas vítimas (foto: Paulo Filgueiras/EM/D.A Press)


Na companhia do padre Renê Lopes, o bispo abençoou brigadistas, bombeiros militares e outros integrantes das equipes de socorro. “As pessoas trabalham durante muito tempo, estão esgotadas. A tristeza é grande em todos os cantos, portanto, torna-se importante levar uma palavra de conforto a cada um”, explicou dom Vicente, acrescentando que, além de um município enlutado, há os danos irreparáveis ao meio ambiente. “Não se trata de uma profissão religiosa, mas de confiança em Deus. Assim, estamos recebendo pessoas de todas as crenças”, lembrou padre Renê. No local, os dois religiosos se encontraram com o embaixador de Israel, Yossi Shelley.

DESESPERO São dilacerantes os depoimentos das pessoas que procuram a Estação do Conhecimento, informa o bispo auxiliar de BH: “De tão desesperados, alguns falam até em tirar a  própria vida. As pessoas recebem as notícias de morte de um parente, por exemplo, e ficam sem amparo, daí a importância de haver esse acolhimento e também ajudando na cerimônia de despedida, no sepultamento.”

Indignado e considerando “lamentável, terrível e inacreditável” o rompimento da barragem, padre Renê afirma que não se pode chamar de acidente o que, na verdade, é “um crime contra pessoa humana e a natureza”. E, comovido, diz que “precisamos aprender com nossos erros, mas nesse caso, há o poder da ganância e a exploração.”

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