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Estado de Minas VENDA NOVA

Entenda por que há tantas enchentes na Avenida Vilarinho

Inundação em época de chuva em BH ronda quase toda a principal avenida da Região de Venda Nova, onde galeria saturada eleva risco


25/11/2018 06:00 - atualizado 14/12/2020 16:06

Trecho a céu aberto do Córrego Vilarinho, que expõe a avenida de mesmo nome a alagamentos em boa parte dos seus 6,5 quilômetros de extensão(foto: Jair Amaral/EM/D.A Press)
Trecho a céu aberto do Córrego Vilarinho, que expõe a avenida de mesmo nome a alagamentos em boa parte dos seus 6,5 quilômetros de extensão (foto: Jair Amaral/EM/D.A Press)

Perigo contínuo, com causas identificadas, mas sem controle eficaz para evitar enchentes na Avenida Vilarinho, faz parte da rotina dos moradores de Venda Nova durante épocas de chuva forte em Belo Horizonte. A via é alimentada por 86 acessos de ruas ao longo de seus 6,5 quilômetros de extensão.

Desde 2009, quando foi lançada a primeira carta de inundações da capital mineira, a região de 16 acessos da Vilarinho entre a Avenida Cristiano Machado e a Rua Bernardo Ferreira da Cruz figura como uma armadilha. Ali se localiza a maior – mas não a única (veja mapa abaixo) – mancha de inundações da avenida, devido à saturação da galeria subterrânea que comporta o curso do Córrego Vilarinho e o encontro de cinco cursos d’água.

E foi justamente nesse local que as vias se tornaram rios e três pessoas morreram: duas dentro do carro e uma ao descer do veículo e cair em duto da galeria de um córrego, em 2018. A quarta vítima mergulhou em outro trecho inundado. A área tem aproximadamente 100 mil metros quadrados e engloba a Estação Venda Nova.

Alerta dado em 2009

Na carta de 2009 já constava que essa região tem risco crítico de inundações quando as precipitações atingem 40 milímetros em cerca de 30 minutos. Na noite das mortes de 2018, Venda Nova experimentou entre as 19h20 e as 20h20 uma chuva de 83,4 milímetros, mais que o dobro do volume considerado crítico e equivalente a 34,7% do esperado para o mês.

Segundo a PBH, a indicação de áreas de inundação que constam na carta não é o único fator para levar ao fechamento de uma via. “As pessoas podem acessar a via por outras secundárias, ficando expostas aos riscos. Todas as vias sujeitas a alagamento na cidade têm placas (mais de mil) de aviso e advertência orientando rotas de fuga e medidas de autoproteção”, informou a administração municipal, por meio de nota na época.

“Além disso, são emitidos alertas preventivos para que as pessoas possam adotar medidas de segurança, proteção e retirar seus veículos de áreas inundáveis. Os locais apontados são fechados em ações previamente estabelecidas e de acordo com o monitoramento meteorológico e do nível dos córregos”.

Armadilhas e medo

Trafegar pela Avenida Vilarinho sob chuva pesada não é uma boa ideia e isso fica ainda mais claro quando se levam em conta as projeções de enchentes da Carta de Inundações de Belo Horizonte. Dos 6,5 quilômetros de pistas triplas em mão e contramão, apenas os 1.200 metros que ficam entre as ruas Padre Pedro Pinto e Luzia Salomão não apresentam propensão a serem invadidos pelas águas das chuvas e se transformar num rio.

O segmento representa apenas 18% da extensão total da avenida. Nos demais trechos, o risco de ter o seu carro levado pelas enxurradas ou ser pego de surpresa a pé é grande.

O estudo da Superintendência de Desenvolvimento da Capital (Sudecap) indica que as águas podem abranger até 160 metros de largura, entrando nos quarteirões da vizinhança, invadindo casas, comércios e galpões. O gargalo que esse levantamento identificou na área de 100 mil metros quadrados da Vilarinho entre a Avenida Cristiano Machado e Rua Bernardo Ferreira da Cruz, onde três pessoas morreram no último dia 15, aparece em outros dois grandes trechos.

Encontro dos córregos Piratininga e Olga Pimenta, formadores do VIlarinho, que já parte de área de risco com esgoto, lixo e casas muito próximas(foto: Jair Amaral/EM/D.A PRESS)
Encontro dos córregos Piratininga e Olga Pimenta, formadores do VIlarinho, que já parte de área de risco com esgoto, lixo e casas muito próximas (foto: Jair Amaral/EM/D.A PRESS)


Um dos locais críticos para inundações se situa bem na área onde o Córrego Vilarinho é formado, no Bairro Piratininga, Região de Venda Nova. O Vilarinho não tem uma nascente, se forma pela junção dos córregos Piratininga, que passa pela Rua Barra Bonita, com o da Rua dos Navegantes e o Olga Pimenta Guimarães – o nome só passa a constar após a Rua Padre Pedro Pinto.

E o Vilarinho já surge numa área de grande probabilidade de enchentes. Os cursos de águas poluídas por esgoto e lixo se unem e correm cercados por casas muito próximas, praticamente debruçadas sobre o Vilarinho. Quando a chuva engrossa e as águas vencem as várzeas, chegam a se estender por uma área de 37 mil metros quadrados. Uma mancha alagadiça que se alarga por 150 metros além do leito normal, de cerca de 5 metros, ou seja, ganha 30 vezes a sua largura normal.

Isso traz inúmeros transtornos para a população, pois a área é densamente povoada e conta com um hospital (São Francisco), uma escola municipal (Cônego Trindade) e quatro igrejas.

(foto: Jair Amaral/EM/D.A PRESS)
(foto: Jair Amaral/EM/D.A PRESS)

"Muitas vezes a gente fica ilhada, sem ter como ir a uma farmácia, ao posto de saúde ou mesmo à padaria, porque o rio (córrego) sobe muito rápido e fecha a nossa passagem"

Estéfane Cristina Ribeiro da Silva, de 24 anos



A viúva Altelina Alves Santos, de 86 anos, já enfrentou muitas enchentes na sua casa. Mas nem por isso quando chove forte ela deixa de se preocupar muito e rezar. “Moro sozinha aqui, só eu e Deus. Há mais de 20 anos que a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) fala que vai arrumar os córregos, mas quando chove eles carregam tudo que tem pela frente. Desce de tudo aqui: lixo, animais mortos... Quando a água entra na minha casa é um desespero, tenho medo de um dia faltar forças para lutar”, disse Altelina.

Os alagamentos no berço do Vilarinho também atrapalham a mobilidade da população. “Muitas vezes a gente fica ilhada, sem ter como ir a uma farmácia, ao posto de saúde ou à padaria, porque o rio (córrego) sobe muito rápido e fecha a nossa passagem”, disse Estéfane Ribeiro da Silva, de 24. Ela é mãe de três crianças, a mais nova de 1 mês. “Morro de medo de ter de andar perto dessa água, no meio da chuva, carregando minha filha”, afirma.


O segundo grande ponto de inundações fica entre as ruas Maria Helena Felipe e Elias Antônio Issa, em Venda Nova. Nesse local, o Córrego Candelária é canalizado e corre pelo subterrâneo. Suas águas são despejadas no Vilarinho a poucos metros de outra foz, a do Córrego da Avenida Baleares. Quando há tempestades mais fortes, o acúmulo de águas ingressando no Vilarinho pode provocar uma mancha de alagamentos de cerca de 30 mil metros quadrados, avançando 500 metros pela Avenida Elias Antônio Issa, onde o Córrego Candelária é canalizado.

Invariavelmente, o que é arrastado pelo Córrego Vilarinho e seus afluentes acaba despejado no Bairro Xodó Marise, do outro lado da Avenida Cristiano Machado, onde o corpo d’água segue seu caminho até desaguar no Ribeirão do Onça. “A gente morre de medo de ver a força da água. E vem de tudo boiando: fogão, geladeira, televisão, colchão, poltrona, pneus, cavalos, cachorros e tudo quanto há”, conta a dona de casa Juvita de Lucena Lopes, de 58, que mora no local.

Segundo ela, quando a estudante Anna Luísa Fernandes de Paiva, de 16, foi sugada pela galeria no dia 15, os moradores da vila onde o Vilarinho desemboca ficaram consternados e chegaram a vasculhar as margens à procura da jovem. “Mas não tinha chance de ela se salvar. Só quem mora aqui é que vê como a água sai, como se fosse uma cachoeira, num jorro muito forte”, descreve.


(foto: Jair Amaral/EM/D.A PRESS)
(foto: Jair Amaral/EM/D.A PRESS)

"Moro sozinha aqui, só eu e Deus. Desce de tudo aqui: lixo, animais mortos... Quando a água entra na minha casa é um desespero, tenho medo de um dia faltar forças para lutar"

Altelina Alves Santos, de 86 anos



Corrida contra novas tragédias

De acordo com a Superintendência de Desenvolvimento da Capital (Sudecap), na região do córrego já existem duas bacias de controle de cheias (Liege e Vilarinho), que passam por manutenção e limpeza periódica. Outras obras na Vilarinho também tentam conter as enchentes.


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