Publicidade

Estado de Minas

Busca pelo crânio de Luzia continua um mês após incêndio no Museu Nacional

Destruição causada por incêndio ocorrido no início de setembro não eliminou expectativa de resgatar fóssil da mais antiga brasileira, descoberto em Minas por estrangeira nos anos 1970


postado em 03/10/2018 06:00 / atualizado em 03/10/2018 07:51

Segundo a direção do museu, imagens aéreas revelaram locais onde peças podem ser recuperadas, entre elas o crânio, que estava em caixa metálica (foto: Mauro Pimentel/AFP)
Segundo a direção do museu, imagens aéreas revelaram locais onde peças podem ser recuperadas, entre elas o crânio, que estava em caixa metálica (foto: Mauro Pimentel/AFP)


A esperança é a última que morre – mesmo não restando muito do Museu Nacional, do Rio de Janeiro (RJ), alvo de incêndio que ontem completou um mês e cujas labaredas destruíram achados arqueológicos e paleontológicos e outros tesouros da humanidade. Ontem, a diretoria do equipamento cultural vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) informou que o crânio de Luzia, considerada “a primeira brasileira”, encontrado em 1974 na gruta da Lapa Vermelha, em Pedro Leopoldo, Grande Belo Horizonte, pode estar inteiro em meio aos escombros. O motivo é que o fóssil de 11,4 mil anos, encontrado em Minas pela arqueóloga francesa Annette Laming Emperaire (1917-1977), estava guardado dentro de uma caixa de metal, em um armário do primeiro andar.

“Não perdemos a esperança de encontrar Luzia, que está numa área considerada de risco. Mas já percebemos, pelas imagens captadas por drones, que no local há muitas peças que podem ser resgatadas”, disse o diretor administrativo do Museu Nacional, Wagner Martins, que participou, de manhã, de um abraço coletivo dos funcionários para marcar um mês da tragédia, ocorrida em 2 de setembro. Martins explicou que, por questão de segurança e também devido às investigações da Polícia Federal e ao inquérito instaurado, não é possível ainda entrar no prédio. Porém, réplicas em três dimensões do crânio e da reconstituição da face da primeira brasileira já foram feitas com base em documentação digital do acervo.

Luzia, um dos símbolos da maior tragédia do patrimônio cultural do país, traz à tona o nome de uma cientista fundamental nessa história, com uma vida extraordinária destacada por estudiosos. A trajetória da arqueóloga Annette Laming Emperaire passa por momentos-chave do século 20, como a Revolução Russa (1917) e a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Filha de diplomatas franceses e nascida em São Petersburgo, na Rússia, 15 dias antes de os bolcheviques tomarem Moscou ela seguiu com os pais para a França. Já adulta, quando estourou o conflito mundial, participou da resistência francesa até cair nas mãos dos alemães. Com o fim da guerra, Annette se dedicou à paixão pelas pesquisas e escavações, que lhe trouxe ao Brasil e, na década de 1970, a Lagoa Santa, na Grande BH. Como chefe de uma missão franco-brasileira, encontrou o fóssil humano com datação mais antiga do país, que depois seria batizado como “Luzia”, e deu nova dimensão aos achados do naturalista dinamarquês Peter Lund (1801-1880).

Um bom pedaço da passagem da pesquisadora francesa pela região cárstica de Lagoa Santa, que inclui, além de Lagoa Santa e Pedro Leopoldo, os municípios de Matozinhos, Capim Branco, Vespasiano, Confins, Funilândia e Prudente de Morais, está no Centro de Arqueologia Annette Laming Emperaire (Caale), da Prefeitura de Lagoa Santa, em funcionamento há 35 anos. Transtornada com o incêndio do Museu Nacional, a diretora do Caale, arqueóloga Rosângela Albano, destaca a figura da francesa como “grande pesquisadora”, que criou um “sítio (arqueológico)-escola” na região, para formação de profissionais, além de ter feito estudos pioneiros sobre pinturas rupestre.

Na equipe de Annette estavam pesquisadores do Museu Nacional, para onde foram enviadas milhares de fragmentos cerâmicos, líticos e ossos encontrados nas escavações. Dessa forma, teve papel de relevância na formação de toda uma geração de arqueólogos, a exemplo do professor André Prous, Niède Guidon, Maria Beltrão e Paulo Junqueira. No Caale, é possível aprender muito sobre a criadora de uma metodologia inédita até então no país, para o estudo das pinturas rupestres presentes nas cavernas e abrigos da região, e sobre o seu pioneirismo nas primeiras datações com o uso de carbono 14 no Brasil. 

Réplica em 3D do fóssil foi feita graças a arquivos digitais (foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)
Réplica em 3D do fóssil foi feita graças a arquivos digitais (foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)


ESCAVAÇÕES
A missão franco-brasileira em Lagoa Santa, sob a chancela da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), permaneceu na região entre 1974 e 1976 e concentrou as escavações principalmente na Lapa Vermelha de Pedro Leopoldo. Foi nessa caverna que Annette encontrou “Luzia”. Em 1998, a “primeira brasileira”, como entrou para a história, ganhou um rosto. Ao fazer o levantamento de coleções de fósseis no museu, o antropólogo Walter Neves, da Universidade de São Paulo (USP), fez estudos aprofundados sobre os ossos e providenciou a datação, que é de 11,4 mil anos.

Um dos grandes méritos da missão franco-brasileira, conforme especialistas, foi resgatar no cenário científico mundial a importância de Lagoa Santa, onde doutor Lund, em mais de quatro décadas, coletou mais de 12 mil fósseis, os quais foram enviados, em 1845, ao rei da Dinamarca. Depois de Lund, a região, na Área de Preservação Ambiental Cárstica de Lagoa Santa (APA Cárstica), só atraiu novos olhares na década de 1950, quando pesquisadores da Academia Mineira de Ciências e do Museu Nacional retomaram as escavações.

Houve um hiato de quase 100 anos nas pesquisas e a missão franco-brasileira, dizem especialistas, fez um bom trabalho, provocando um despertar nas pesquisas de maneira sistemática. A região cárstica é das mais importantes em termos arqueológicos, paleontológicos e espeleológicos do mundo, e o legado de Annette inclui a criação de um guia, referência até hoje para estudos de material lítico – ou instrumentos de pedra produzidos pelos primeiros habitantes da América do Sul. Já no Paraná, onde atuou nas décadas de 1950 e 1960, estudou sambaquis, os sítios arqueológicos do litoral. Além de pesquisadora dedicada, ficou o registro de que Annette era “uma pessoa afável, simples e que conversava com todo mundo”.

 

EUROPEUS NOS TRÓPICOS

1801
» Nasce na Dinamarca Peter W. Lund, que viveu 46 anos na região de Lagoa Santa e é considerado o pai da paleontologia, arqueologia e espeleologia brasileiras

1832
» Lund (1801-1880) faz as primeiras descobertas de fósseis em cavernas e abrigos de Lagoa Santa

1845
» Lund envia ao rei da Dinamarca a coleção de fósseis encontrados na região de Lagoa Santa

Década de 1950
» Pesquisadores da Academia Mineira de Ciências e do Museu Nacional do Rio de Janeiro retomam as escavações na região

1974
» Missão franco-brasileira, chefiada por Annette Laming Emperaire (1917-1977), faz escavações até 1976, em Lagoa Santa

1975
» Annette Laming encontra na Lapa Vermelha IV o crânio de Luzia, o fóssil humano mais antigo com datação do Brasil. Além de Luzia, milhares de vestígios arqueológicos foram enviados ao Museu Nacional, no Rio de Janeiro

1998
» Antropólogo Walter Neves, da Universidade de São Paulo, estuda e data (11,4 mil anos) o crânio de Luzia

 

 

Marco da arqueologia


Vida de Annette Laming Emperaire, responsável pela descoberta de Luzia em Minas, tem espisódios ligadas à Revolução Russa e à Segunda Guerra Mundial (foto: Acervo MHN - JB/UFMG - Laure Emperaire/Caale/Divulgação)
Vida de Annette Laming Emperaire, responsável pela descoberta de Luzia em Minas, tem espisódios ligadas à Revolução Russa e à Segunda Guerra Mundial (foto: Acervo MHN - JB/UFMG - Laure Emperaire/Caale/Divulgação)

Annette Laming-Emperaire se formou primeiro em filosofia para depois se especializar em arqueologia. Em Paris, estudou sob orientação do francês Leroi Gourhan, com enfoque na arte rupestre da Europa Ocidental e, nos anos seguintes, dedicou-se aos estudos sobre a pré-história sul-americana, desenvolvendo, com o marido, J. Emperaire, pesquisas científicas pioneiras sobre os sambaquis do litoral brasileiro. Nesse setor, os dois conseguiram as primeiras datações radiocarbônicas para sítios arqueológicos do país. Depois de estudar os pontos de ocupação humana mais antiga na Patagônia chilena, Annette retornou ao Brasil e participou da expedição para estudar um dos últimos grupos indígenas arredios do Brasil meridional – os xetás, do Paraná. Já como diretora de pesquisas da École Pratique des Hautes Etudes, de Paris, Annette foi, nos anos 1970, coordenadora científica da missão franco-brasileira de Lagoa Santa, que atuou no abrigo de Lapa Vermelha IV, em Pedro Leopoldo, na Grande BH. Nesse local, foi possível, pela primeira vez, obter a datação mínima para pinturas rupestres brasileiras. Ela morreu aos 60 anos, em Curitiba (PR).

 

AÇÃO COLABORATIVA A direção do Museu Nacional do Rio de Janeiro e a Associação Amigos do Museu Nacional lançaram, ontem, uma ação de financiamento coletivo para arrecadar fundos para atendimento a escolas do ensino fundamental e médio. Com o dinheiro, serão mantidos projetos e terão continuidade as atividades na comunidade escolar. Já foram arrecadados mais de R$ 15 mil. O objetivo inicial é chegar a R$ 50 mil. Já a segunda etapa pretende arrecadar R$ 300 mil. A campanha estará disponível até 21 de novembro no site https://benfeitoria.com/museunacional. As doações variam de R$ 20 a R$ 10 mil. O museu recebia, por ano, 600 escolas, com atendimento a cerca de 17 mil alunos.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade