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Estado de Minas

Incêndio no Museu Nacional atrasa estudos na UFMG

Professores e pesquisadores mineiros lamentam perda com incêndio que destruiu acervo no Rio, dizem que trabalhos serão prejudicados e que parte das peças nunca será recomposta


postado em 11/09/2018 06:00 / atualizado em 11/09/2018 07:25

O doutorando Vinícius Diniz (E), com o professor Adalberto José dos Santos (C) e o mestrando Pedro Martins: exemplares do museu fluminense ficaram preservados na UFMG (foto: Gladyston Rodrigues/EM/DA Press)
O doutorando Vinícius Diniz (E), com o professor Adalberto José dos Santos (C) e o mestrando Pedro Martins: exemplares do museu fluminense ficaram preservados na UFMG (foto: Gladyston Rodrigues/EM/DA Press)


Décadas de atraso nas pequisas científicas, perda de coleções de animais e arquivos de documentos históricos, interrupção na dinâmica de estudos de doutorado e ainda uma completa perplexidade diante do incêndio que destruiu o prédio e grande parte do acervo do Museu Nacional, no Rio de Janeiro (RJ). Pesquisadores das áreas de história e biologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) não têm contabilizados todos os estragos causados pela tragédia, ocorrida há pouco mais de uma semana, mas sabem que as perdas em muitos casos são irreparáveis. “Trata-se de uma perda irreparável para a ciência, afinal, o Museu Nacional tinha a coleção de aracnídeos mais antiga do Brasil. Mas, como há intercâmbio entre as instituições de ensino, temos aqui coleções do museu, que ficaram protegidas”, diz o chefe do Laboratório de Aracnologia do Instituto de Ciências Biológicas (ICB), professor Adalberto José dos Santos.

“Há material da mata atlântica, por exemplo, que não será mais possível coletar”, acrescenta o biólogo Vinícius Diniz, que faz doutorado em zoologia no ICB e integra o grupo de pesquisadores coordenado pelo professor Adalberto. O pesquisador explicou a perda maior foi do lado mineiro. Para o Museu Nacional, fora cedida uma família de aranhas semiaquáticas comuns da América do Sul e encontradas também no Japão. O objetivo é conhecer a diversidade do grupo e as relações evolutivas entre as diferentes espécies da família Trechaleidae.

Outra perda que deixa os pesquisadores consternados se refere a um grupo de espécimes de aracnídeos chamado opilião, encontrado na mata atlântica. Trata-se uma coleção formada durante décadas. “Muito desse material não poderá mais ser coletado, tanto por que pode estar extinto como por exigir verbas, um aspecto difícil neste momento de crise que o país vive. Pode-se dizer que é algo irrecuperável”, afirmou, lembrando que outro fator de risco para a recomposição é a degradação do meio ambiente.

Levantamentos estão em andamento, pela equipe do Laboratório de Aracnologia do ICB, para que sejam avaliados os prejuízos. “Temos, aqui, material do Museu Nacional, como parte do intercâmbio. Mas é pequeno em relação ao que emprestamos a eles”, afirma Vinícius, reiterando que serão necessárias muitas décadas para recuperar o acervo destruído. 

DOCUMENTOS
Graduada em ciências sociais e com mestrado em história na UFMG, a doutoranda Stefany Sidô Ventura também vê um grande atraso nas pesquisas na sua área de estudos. Ela tem alguns anos pela frente para defender a tese sobre a Exposição Antropológica Brasileira de 1882, que ficou em cartaz no Museu Nacional e recebeu a visita do imperador dom Pedro II (1825-1891). Stefany conta que o objetivo da grande mostra, com estrutura baseada em três eixos – antropologia, etnologia e arqueologia –, já quase no fim do século 19, era entender o homem brasileiro e o homem americano, com sua constituição física, raça, comportamento, moral e outros aspectos.

Para desenvolver a tese, a doutoranda tirou cópias de várias pastas de documentos do Museu Nacional a respeito da exposição, que geraram uma revista e um guia. “Os originais ficaram lá, e consegui arquivos digitais de outros documentos. Agora, com o incêndio, terei que aprofundar meus estudos em outras instituições no Rio de Janeiro, mas isso causa uma mudança na dinâmica do trabalho e dos estudos. Tenho mais uns quatro anos de pesquisas, mas, para a ciência de modo geral, há um atraso de décadas”, reforçou.

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