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Estado de Minas

Polícia Civil faz operação contra fraude milionária em Minas Gerais

Apuração sobre segunda via de carteira de motorista emitida ilegalmente leva polícia a esquema que usava dados de empreiteiros e donos de grandes empresas para obter empréstimos, abrir firmas de fachada e lesar instituições financeiras e seguradoras


postado em 13/09/2018 11:25 / atualizado em 14/09/2018 07:38



 

Ao descobrir que uma segunda via de sua Carteira Nacional de Habilitação (CNH) tinha sido emitida sem o seu consentimento, um grande empresário belo-horizontino com atuação em todo território nacional procurou o Detran-MG. Mal sabiam ele e as equipes que investigaram o motivo de o documento ter sido enviado para um endereço desconhecido que a apuração resultaria na descoberta de um esquema de fraudes milionário, mantido por uma quadrilha que agia havia três anos e já acumulava cerca de R$ 160 milhões, produto dos golpes.

Depois de um ano de investigações da delegacia especializada em fraudes, nesta quinta-feira, a Polícia Civil lançou a Operação Apate, para cumprir mandados de prisão e de busca e apreensão em Belo Horizonte, Contagem (Grande BH) e Pará de Minas (Centro-Oeste). O principal golpe consistia em usar a segunda via de documentos, papéis falsificados e informações pessoais de donos de grandes construtoras e outros grandes empresários para abrir cerca de 20 empresas fantasmas e, com elas, contrair empréstimos milionários. Os líderes da quadrilha foram identificados. Até o fechamento desta edição, um deles negociava sua rendição, enquanto outros estavam foragidos.

De acordo com o delegado que coordenou as investigações, Vinícius Dias, a quadrilha era composta por cinco advogados, que eram os cabeças; por laranjas, que eram usados para assumir negócios de fachada; e por auxiliares administrativos, que faziam pedidos e cuidavam da burocracia para obter documentação e certidões falsas ou fraudadas. “Os líderes da quadrilha eram muito sofisticados e conheciam bem a burocracia e os processos legais envolvidos nos crimes. Usavam um esquema que chamamos de triangulação empresarial: abriam empresas usando os nomes das vítimas como sócios, enquanto os líderes se revezavam na constituição dessa sociedade”, conta o policial, indicando a forma que os falsários adotavam para despistar sua associação criminosa.

Materiais apreendidos em apartamento no Buritis, na Região Oeste (foto: Jair Amaral/EM/DA Press)
Materiais apreendidos em apartamento no Buritis, na Região Oeste (foto: Jair Amaral/EM/DA Press)


Uma vez com a empresa fantasma ativa, a quadrilha usava documentos fraudados e até certidões falsificadas para conseguir empréstimos milionários. Só com uma certidão do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) forjada, os criminosos conseguiram obter R$ 16 milhões. “Para conseguir essas somas, a quadrilha se aproveitava do grande lastro que os empresários vítimas tinham no mercado”, aponta o delegado.

A fase seguinte do golpe consistia em abrir empresas em outros estados, como São Paulo, Rio de Janeiro, Pará e Mato Grosso. Essas firmas de fachada recebiam os recursos captados ilegalmente. Oficialmente, registravam em cartório que essas somas eram usadas para ampliar o capital social das empresas. Porém, na verdade, esse era o momento em que os criminosos dividiam o dinheiro entre si.

As empresas fantasmas tinham vida curta, de seis meses a um ano. “Quando as vítimas percebiam o golpe, ao receber cobranças, ações de execução e bloqueio de suas contas-corrente, é que descobriam que haviam sido alvo dessa quadrilha”, afirma o delegado.

A Operação Apate, nome em alusão ao espírito grego do engano, do dolo e da fraude, ocorreu com o apoio da Polícia Militar. O núcleo operacional dos criminosos era uma cobertura de luxo do Bairro Buritis, na Região Oeste de Belo Horizonte, avaliada em R$ 2,5 milhões. A polícia chegou minutos antes de o proprietário ter saído. “A toalha ainda estava molhada e quente sobre o box do banheiro”, observou o delegado. O cão do suspeito foi deixado para trás. De acordo com a Polícia Civil, o homem entrou em contato posteriormente e negociava sua entrega para as autoridades. Dentro do apartamento foram encontradas provas do golpe, como contratos e documentos que vão passar por perícia, assim como dados de computadores apreendidos.

Polícia vasculha produtos em apartamento no Buritis. Perto do braço do policial, é possível ver o cachorro deixado para trás pelo suspeito(foto: Polícia Civil/Divulgação)
Polícia vasculha produtos em apartamento no Buritis. Perto do braço do policial, é possível ver o cachorro deixado para trás pelo suspeito (foto: Polícia Civil/Divulgação)

Carros de luxo eram incendiados


Os golpes da quadrilha financiavam uma vida de luxo. Dentro da cobertura no Buritis foram apreendidos três caixas e uma sacola cheia de relógios de luxo, três TVs, eletrodomésticos modernos, uma bicicleta, um saxofone, dois violões, dólares e outros pertences de luxo, de acordo com a polícia adquiridos com o dinheiro das fraudes. Uma caminhonete de luxo também foi apreendida.

Segundo a polícia, outros carros importados foram comprados, mas acabaram sendo incendiados, como parte de outro golpe, para receber o dinheiro do seguro. Em Pará de Minas, a busca ocorreu em uma propriedade de luxo, com 4 mil metros quadrados, que só em paisagismo recebeu mais de R$ 170 mil em investimentos. Terrenos e imóveis também foram adquiridos em Contagem e em outros municípios da Grande BH.

Os suspeitos responderão por formação de organização criminosa, lavagem de dinheiro, falsificação de documentos públicos e privados, uso de documentos falsos e falsa identidade. Em caso de condenação, os crimes podem resultar em penas de 25 a 65 anos.

(foto: Arte EM)
(foto: Arte EM)

 

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