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Estado de Minas

Furto de fios põe sistema de semáforos de Belo Horizonte em pane

Ação de ladrões que arrancam fiação de sinais dispara em BH, que perde 2,8 quilômetros de cabos por semana. BHTrans só consegue repor mil metros de cabeamento a cada mês


postado em 19/06/2018 06:00 / atualizado em 19/06/2018 11:07

Ver galeria . 6 Fotos Técnicos fazem reparo em semáforo que teve cabos furtados na Avenida Cristiano Machado, em frente ao número 2.273Paulo Filgueiras/EM/DA Press
Técnicos fazem reparo em semáforo que teve cabos furtados na Avenida Cristiano Machado, em frente ao número 2.273 (foto: Paulo Filgueiras/EM/DA Press )

Todos os dias, cerca de 400 metros de cabos que alimentam semáforos de Belo Horizonte são arrancados de ruas e avenidas da capital mineira. A cada semana, a média de furtos no sistema chega a 2,8 quilômetros de fios, enquanto a capacidade de reposição da BHTrans, conforme contrato de prestação de serviço, é de 1 mil metros por mês, o que cria, na prática, um abismo entre a atuação dos criminosos e o trabalho diário de substituição para manter os sinais funcionando e evitar acidentes. O resultado é prejuízo em grande escala para a população, não apenas financeiro, mas também no cotidiano, já que não é possível repor o cabeamento na mesma velocidade em que ele é retirado, o que tem deixado por longos períodos cruzamentos sinalizados apenas com as velhas placas de “Pare”.

A BHTrans sustenta que esse é um problema de segurança pública. Segundo a empresa, apenas trocar o cabeamento não resolve e se transforma em uma ação de enxugar gelo, já que o aumento do volume de furtos nos primeiros cinco meses desse ano chega a 1.566% em comparação com o mesmo período do ano passado. De janeiro a maio de 2017, foram 3,6 mil metros furtados, contra 60 mil metros neste ano, com prejuízo de R$ 245 mil aos cofres públicos. A quantidade furtada também representa mais que o dobro daquela registrada em todo o ano passado (veja quadro). Os transtornos são diários e, ontem, atingiram quem trafegava pela Avenida Cristiano Machado, dificultando a vida de motoristas e pedestres no horário de pico da manhã.

(foto: Arte EM)
(foto: Arte EM)


Está longe de ser um caso isolado, como pode comprovar quem passa por outros pontos cujos semáforos foram alvo de ladrões, como o cruzamento das avenidas Bernardo Vasconcelos, Clara Nunes e Cachoeirinha, entre os bairros Renascença e Cachoeirinha, na Região Nordeste de BH. A reincidência de criminosos, que já agiram cinco vezes no local retirando cabos somente neste mês, fez com que a BHTrans substituísse os fios pela última vez na quarta-feira da semana passada. A solução encontrada diante do novo furto foi colocar uma placa de “Pare” nas avenidas Clara Nunes e Cachoeirinha, deixando a preferência para os condutores da Bernardo Vasconcelos. Segundo moradores da região, essa situação já é suficiente para criar transtornos nos horários de pico, mas a existência de uma pista de corrida na Bernardo Vasconcelos é mais um complicador na área sem sinais luminosos.

“Motoristas até dão a preferência para os pedestres, mas quando chega um horário de maior movimento, não têm o que fazer. Se não forçarem a passagem, não conseguem seguir, e por isso a confusão é muito grande”, afirma a professora Daniele Scaldini, de 48 anos. Segundo a BHTrans, naquele mesmo local houve substituição de cabos em quatro ocasiões diferentes apenas em junho. A empresa informou que faria nova reposição ontem. O cabeleireiro Esterlei Vieira, de 60, que trabalha em um salão quase em frente ao cruzamento, diz que houve uma batida com danos em quatro veículos depois da retirada do semáforo, e que as pessoas têm tido muita dificuldade para atravessar. “Acho que nesse caso a fiação tinha que ser subterrânea. Imagino que dificultaria a vida dos ladrões”, afirma.

Mesmo problema é verificado no cruzamento da Bernardo Vasconcelos com a Rua Cônego Santana, no Renascença. Como o local é ponto de transposição da avenida, a falta de um semáforo complica bastante a situação. O transtorno se repete também na Região Centro-Sul, já que há uma semana o semáforo no cruzamento das ruas Mato Grosso e Goitacazes, no Barro Preto, está desativado, tendo também sido substituído por uma placa de “Pare”. Segundo a vendedora Flávia de Jesus, de 36, na sexta-feira houve uma batida no cruzamento. “A dificuldade de atravessar é muito grande. Toda hora tem freada brusca e pedestre xingando motorista”, conta. De acordo com a BHTrans, o semáforo está desativado desde a sexta-feira, por furto de cabos.

Reflexos do crime que expõe motoristas e pedestres a riscos diários: equipes dão prioridade a locais de maior movimentação, enquanto muitos outros ficam sinalizados apenas com as velhas placas de 'Pare' (foto: Paulo Filgueiras/EM/DA Press)
Reflexos do crime que expõe motoristas e pedestres a riscos diários: equipes dão prioridade a locais de maior movimentação, enquanto muitos outros ficam sinalizados apenas com as velhas placas de 'Pare' (foto: Paulo Filgueiras/EM/DA Press)


Funcionários a serviço do Consórcio BH Tráfego, que faz a substituição dos cabos além de vários outros serviços relacionados aos sinais da cidade, dizem que no dia a dia é necessário dar prioridade aos lugares mais importantes, diante da quantidade de serviço gerada pelos ladrões. Ontem, uma equipe substituía cabos na Avenida Cristiano Machado, no sentido Centro, em frente à Feira dos Produtores, no Bairro Cidade Nova, Nordeste de BH. Mas, enquanto resolviam um problema, os trabalhadores enumeravam outros pendentes.

O gerente de Semáforos e Programação da BHTrans, Antônio Celso Silva Medeiros, diz que a empresa municipal está enxugando gelo ao substituir os cabos, pois há casos em que os furtos ocorrem imediatamente após a reposição. No caso do cruzamento da Avenida Bernardo Vasconcelos com as avenidas Clara Nunes e Cachoeirinha, o temor do gerente era de que hoje os cabos já fossem novamente furtados, pois a região é considerada das mais vulneráveis da cidade para esse tipo de ocorrência. “Temos a limitação em contrato de 1 mil metros de cabos por mês para substituição, e ainda assim tentamos fazer o máximo. Isso é uma questão de segurança pública, então acho que a inteligência das polícias poderia se concentrar nos receptadores, que alimentam esse mercado”, afirma.

A explosão de casos na cidade faz a BHTrans discutir a possibilidade de ampliar a capacidade de reposição de cabos, mas essa não é a melhor solução, na avaliação de Antônio Celso. “Cada metro de cabo custa R$ 4,39 e esse é um dinheiro que poderia ser investido em outras áreas. Não temos outra opção de material no mercado para atender a essa demanda, então a solução do problema passa pelo combate aos furtos. Já tentamos várias formas de dificultar, mas os criminosos encontram formas de chegar aos cabos”, acrescenta o gerente da BHTrans, afirmando que a questão é repassada às polícias Militar e Civil no âmbito do Centro de Operações da Prefeitura de BH (COP/BH).

(foto: Paulo Filgueiras/EM/DA Press)
(foto: Paulo Filgueiras/EM/DA Press)


Procurada pelo Estado de Minas, a Polícia Civil de Minas Gerais informou que as ocorrências de furtos de cabos são investigadas pelas delegacias de cada área, buscando a identificação do ladrão, a destinação dos materiais e eventuais receptadores. Já a Polícia Militar informa que a situação é tratada em reuniões com os participantes das redes de proteção, incentivando denúncias de forma anônima pelo telefone 181. A PM assegura que o patrulhamento foi aumentado nos locais mais vulneráveis

Segundo a corporação, seu setor de inteligência faz levantamento do perfil dos autores desse tipo de furto. “De modo geral, são usuários de drogas, em situação de rua, que já cometeram outros crimes, em especial furtos e roubos”, informou a PM, em nota, acrescentando que em muitos casos os ladrões não são mantidos presos, voltando a praticar delitos. “Os cabos furtados normalmente são vendidos a ferros-velhos clandestinos, que os recebem por valor abaixo do mercado, resultando em lucro para receptadores e incentivo à prática do delito”, conclui o texto.

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