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Estado de Minas

BH sem carros: congestionamentos despencam 97% durante a greve

Comparação das médias de congestionamento de segunda a quarta-feira normais com os mesmos dias desta semana de movimento dos caminhoneiros traduz em números o que se percebeu na prática: quem conseguiu rodar pela capital se sentiu dono das ruas


postado em 02/06/2018 06:00 / atualizado em 02/06/2018 08:10

(foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)
(foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)

Nos três primeiros dias úteis desta semana, enquanto o ambiente esquentava nas estradas, tomadas por bloqueios de caminhoneiros e manifestações, nas ruas de Belo Horizonte imperou o clima de deserto. Acessos ao Centro liberados, volta para casa sem engarrafamentos e filas de carros, mesmo, só no entorno dos postos que começavam a receber combustível.

A sensação de quem trafegou por alguns dos principais corredores da capital durante esses dias em que BH parou pode ser traduzida em números: os engarrafamentos em horários de pico despencaram 97,3% no período.

Escoltados por forças de segurança pública, os comboios de caminhões-tanque só voltaram a abastecer os postos na Grande BH entre os dias 28 (segunda-feira) e 30 (quarta-feira).

De acordo com dados registrados pelo site Maplink, provedor especializado em informações sobre o trânsito, nos horários de maior movimento nesses três dias o normal era que fosse registrado volume médio de 64,1 quilômetros de veículos travando o tráfego, mas o verificado no período em que os carros migraram das ruas para as filas das bombas de abastecimento foi de apenas 1,71 quilômetro.

Essa concentração de veículos parados perto de postos ou evitando rodar desnecessariamente reduziu virtualmente a zero os registros de engarrafamentos nos horários de pico da tarde, que são, normalmente, os de tráfego mais intenso, chegando a registrar mais de 100 quilômetros de lentidão em um dia comum.

O maior pico registrado no período de paralisação dos caminhoneiros foi de cinco quilômetros de engarrafamentos, algo só alcançado em BH aos domingos e feriados, em circunstâncias normais.

Para a composição dessas médias foram considerados como de horários de pico o tráfego registrado das 6h às 9h e das 17h às 19h. O período de seis dias entre 22 (terça-feira) e 27 de maio (domingo) foi quando a paralisação de fato imobilizou a entrega de combustíveis, enquanto postos de abastecimento esgotavam seus estoques e motoristas gastavam o que ainda tinham em seus tanques.

A pequena quantidade de veículos no trânsito durante os três primeiros dias desta semana acabou servindo de componente na estratégia de economia de quem não podia ficar simplesmente com o carro na garagem, por trabalhar no ramo dos transportes.

Foi o caso do taxista Almir dos Santos Oliveira, de 56 anos, que conseguiu circular em sete dos 10 dias de paralisação dos caminhoneiros adotando algumas formas de poupar combustível, mas também abrindo mão de parte de sua atividade e sacrificando clientes.

“Quando percebi os rumos que a manifestação estava tomando, já comecei a me organizar para não ficar sem combustível. Sempre que pegava um cliente, parava o táxi e esperava alguém me chamar, em vez de rodar até um ponto específico, como a gente costuma fazer. Como não tinha trânsito, o carro rendeu mais também”, conta.

“Depois de segunda, quando o combustível foi voltando, passei a enfrentar as filas sempre que o nível do tanque chegava ao meio. Foi isso que me salvou”, comemorou, agora que as atividades praticamente voltaram à normalidade, na sua avaliação.

Mobilidade reduzida

Contudo, o taxista lamenta ter tido de sacrificar clientes que precisavam muito de seus serviços, já que o dele é um dos 60 táxis da frota belo-horizontina que fazem atendimento de pessoas com mobilidade reduzida. “Infelizmente não podia atender quem morava muito longe.

Em Contagem ou outra cidade da Grande BH, por exemplo, não pude ir, senão ficaria sem combustível para transportar outros clientes. E o pior é que essas devem ter sido as pessoas que mais precisaram durante esse período. São cadeirantes, gente que faz hemodiálise, idosos, entre outros”, afirma.

Uma das soluções possíveis em casos desse tipo, para o taxista, seria dar prioridade na hora de abastecer para veículos que atendem a quem tem dificuldades. “Tive de entrar na fila como qualquer outro e esperar mais de três horas”, disse.

A advogada Cíntia Álvares, de 26, costuma fazer o percurso de sua casa, no Bairro Floresta, Região Leste de BH, até o trabalho, no Centro, a pé. Para ela, o clima de feriado que a falta de combustíveis propiciou em BH serviu para tornar as caminhadas ainda mais ágeis.

“Quando há poucos carros tentando passar rápido pelos sinais, fazendo fila sobre a faixa do pedestre e outras coisas mais, a gente circula mais à vontade. Houve mesmo um clima de feriado ou de sábado e domingo nesses dias”, disse.

Ainda que a paralisação dos caminhoneiros não tenha afetado diretamente seus trajetos, a greve do metrô acabou trazendo um pequeno desconforto. “Sempre aproveito o túnel da Estação Central para ganhar tempo na minha travessia do bairro para o Centro. Mas, com a greve, fecharam tudo. Foi uma volta a mais, mas compensou mesmo assim”, afirma.

Ontem, mais uma vez ela aproveitou o clima de tranquilidade para levar o irmão Bernardo Moreira, de 11, para um passeio pelo Centro.

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