Publicidade

Estado de Minas

Estudo revela prevalência de depressão entre atingidos pela tragédia de Mariana

Pesquisa feita em conjunto pela UFMG e a Cáritas Regional Minas Gerais ouviu pessoas entre 10 e 90 anos que foram vítimas do desastre. Crianças preencheram critérios para transtorno de estresse pós-traumático


postado em 13/04/2018 13:06 / atualizado em 14/04/2018 13:42

Tragédia de Mariana, que ocorreu em 5 de novembro de 2015, deixou 19 mortos. Sobreviventes relatam piora em problemas de saúde(foto: Sidney Lopes/EM/D.A PRESS - 11/011/2015)
Tragédia de Mariana, que ocorreu em 5 de novembro de 2015, deixou 19 mortos. Sobreviventes relatam piora em problemas de saúde (foto: Sidney Lopes/EM/D.A PRESS - 11/011/2015)

Homem saudável, lavrador com uma pequena associação para produção de leite. Cavalgava o dia todo pelo campo. À cidade grande, se ia quatro vezes ao ano era muito. “Agora, vou a Mariana de segunda a segunda correndo atrás dos meus direitos. Estou diabético, tenho problemas de pressão arterial e tomo dois antidepressivos por dia. Sem os remédios fico agressivo. Não consigo mais raciocinar bem nem exercer minha profissão da mesma forma”, diz o lavrador Marino D’Ângelo Júnior, de 49 anos. Ex-morador de Paracatu de Cima, distrito do município da Região Central de Minas também atingido pelo rompimento da Barragem do Fundão, da mineradora Samarco, ele é um retrato da pesquisa sobre a saúde mental das famílias vítimas da tragédia: dois anos e meio depois, a lama não levou apenas vidas e sonhos. Deixou doentes e sem horizontes centenas de crianças, jovens, adultos e idosos.


A Pesquisa sobre a Saúde Mental das Famílias Atingidas pelo Rompimento da Barragem do Fundão em Mariana (Prismma) foi feita com o objetivo de avaliar a saúde das vítimas, com ênfase na saúde mental – especialmente transtornos, desordens ou sintomas que podem piorar com o estresse, como depressão, transtorno de ansiedade generalizada, transtorno de estresse pós-traumático, transtorno por uso de substâncias e comportamento suicida. O diagnóstico faz parte de um estudo elaborado pelo Núcleo de Pesquisa e Vulnerabilidade em Saúde (Naves) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a pedido da Cáritas Regional Minas Gerais. O material foi divulgado nesta sexta-feira, em Belo Horizonte.


O levantamento mostra que, nesse grupo, a prevalência de depressão é cinco vezes maior do que a descrita pela Organização Mundial de Saúde (OMS) para a população brasileira em 2015, ano da tragédia. Ou seja, enquanto 28,9% dos atingidos pelo desastre sofrem da doença, na população em geral esse percentual é de 5,8%. Já o transtorno de ansiedade generalizada foi diagnosticado em 32% dos entrevistados, apontando para uma prevalência três vezes maior que a existente na população brasileira.

Para elaborar o estudo, em novembro do ano passado, a equipe convidou a responder questionários todas as pessoas com idades entre 10 e 90 anos que foram diretamente expostas à lama despejada pela barragem de rejeitos. Essas pessoas moravam ou tinham propriedades em Bento Rodrigues, Paracatu de Baixo, Paracatu de Cima, Borba, Campinas, Pedras e Ponte do Gama na época do desastre que matou 19 pessoas, entre moradores e funcionários da mineradora. Dos 479 indivíduos abordados, 225 adultos e 46 crianças e adolescentes até 17 anos aceitaram participar da pesquisa. O restante se recusou, alegou medo de assinar documentos ou tinha outra justificativa para não responder às perguntas.


Pouco mais da metade dos entrevistados (53,8%) relatou sentir dores de cabeça e destes, 52,9% descreveram piora nos últimos dois anos. Aproximadamente um terço da população (31,1%) mencionou sentir tonteiras, sendo que 62,9% relataram piora nos últimos dois anos e 37,1% disseram não ter tido alteração. A falta de ar esteve presente em 13,8% dos entrevistados, com piora ocorrendo em 61,3% nos últimos dois anos. Em 35,5% dos casos não houve alterações e 3,2% não responderam. Da amostra, 35,1% sentiram palpitações e 63,3% manifestaram piora nos últimos dois anos.


“Os números, em alguma medida, assustam pela gravidade, mas já eram totalmente esperados. Quem convive com os atingidos ouve queixas de fatiga, do estresse e da depressão”, afirma o coordenador operacional da assessoria técnica aos atingidos de Mariana da Cáritas, Gladston Figueiredo. O diagnóstico foi apresentado ontem aos moradores das comunidades tomadas pelos rejeitos e será usado para um diálogo com o serviço municipal de saúde. “Esperamos que esse estudo seja elemento fundamental na luta por políticas públicas acessíveis às pessoas, que essas questões sejam tratadas e discutidas no processo indenizatório na perspectiva do dano moral”, ressalta.

DROGAS Além da depressão e do transtorno de ansiedade generalizada, foram avaliados também o transtorno de estresse pós-traumático, o risco de suicídio e os transtornos relacionados ao uso de substâncias psicotrópicas, como álcool, tabaco, maconha, crack, cocaína. “Encontramos uma prevalência aumentada de transtornos psiquiátricos relacionados ao estresse na população atingida quando comparados aos dados descritos na literatura”, registra o estudo. A dependência de álcool foi diagnosticada em 5,8% da população e a de tabaco em 20%, enquanto 0,9% foi considerado dependente de maconha e 0,4% dependente de cocaína ou crack. Já o risco de suicídio foi identificado em 16,4% dos entrevistados. Entre eles, estão pessoas que declararam desejo de morte, relataram ideias suicidas, afirmaram que planejaram se suicidar no último mês ou reconhecerem já ter tentado alguma vez colocar fim à própria vida.

(foto: Arte EM)
(foto: Arte EM)

Crianças em estresse pós-traumático


 


Um grupo bem sensível também sofre as consequências da lama da Barragem do Fundão. Mais de 82% das crianças que fizeram parte do estudo preencheram critérios para transtorno de estresse pós-traumático. Nos adultos, esse diagnóstico envolveu 13,9% de mulheres e 8,6% de homens. Segundo o relatório da UFMG, o adoecimento da população não é um fato isolado e está conectado com estresses e processos de sofrimento social que as famílias têm vivenciado. “Estudos têm mostrado que as lembranças do ocorrido nas tragédias podem tornar-se profundamente vivas na memória, levando a respostas pós-traumáticas. As doenças físicas crônicas, as preocupações com os meios de subsistência, a perda de emprego, a ruptura de laços sociais e as preocupações com as indenizações foram associadas a respostas pós-traumáticas”, afirma.


Gladston Figueiredo cobra ações voltadas para quem está adoecendo. “É um crime que se perpetua e se renova desde o rompimento da barragem e uma violação constante de direitos humanos. Dinheiro para essas empresas não é problema, pois a vale e a BHP são as maiores mineradoras do mundo. Se a Renova gastasse metade do dinheiro que gasta com propaganda no atendimento a essas famílias a situação não estaria do jeito que está.”


Falta de respostas e de clareza de assentamentos. Aliás, dúvidas se, um dia, eles vão mesmo ocorrer. Incertezas quanto ao processo indenizatório, modos de vida que foram rompidos, pessoas que criavam galinhas e hoje estão num apartamento sem ao menos saber se um dia terão de volta algo para chamar de lar. Angústias que consomem, adoecem e tiram do rosto sorrisos de Marino e tantos outros. Para o lavrador, algo simples seria mais que suficiente: “Essa situação adoece qualquer pessoa. Não estamos querendo nada demais da Renova. Só o que a gente tinha antes. Só a nossa vida, que não vai ser como antes.”

Por meio de nota, a Fundação Renova informou que desenvolve, em parceria com o Instituto Saúde e Sustentabilidade, estudo que vai avaliar a tendência de aumento de transtornos mentais, de uso de álcool e outras drogas nos moradores das áreas atingidas pelo rompimento da Barragem do Fundão. O estudo será concluído em fevereiro do ano que vem, mas os resultados parciais serão usados para nortear novas ações da área de saúde. Acrescentou que faz parte da estratégia de apoio aos atingidos o fortalecimento das estruturas públicas existentes, tanto no atendimento clínico quanto na proteção social.


A fundação afirmou que reforça o Sistema Único de Saúde (SUS) e o Sistema Único de Assistência Social (Suas) de Mariana com 50 profissionais de saúde e de assistência social. Todos os estudos e pesquisas que permitam uma melhor compreensão dos efeitos do rompimento da Barragem do Fundão sobre a saúde dos atingidos, e que possam contribuir na definição de medidas de prevenção e assistência à saúde, são acolhidos com interesse”, concluiu o texto.

Desastre sem precedentes 

Em 5 de novembro de 2015, rompia a Barragem do Fundão, em Bento Rodrigues, subdistrito de Mariana. Um mar de lama matou 19 pessoas e arrasou distritos. Aproximadamente 39 milhões de metros cúbicos de rejeitos causaram devastação da vegetação nativa e poluição de afluentes e do Rio Doce, alcançando até sua foz, no Espírito Santo. O Estado de Minas foi o primeiro veículo de comunicação a entrar, três dias depois, no na chamada “zona quente”, nome dado pelos bombeiros ao perímetro onde se realizavam as buscas (foto) naquela que é considerada a maior tragédia ambiental do país, no mesmo dia do rompimento. Passados quase dois anos e meio da tragédia, ainda estão sendo calculadas as indenizações das vítimas, que perderam suas casas e continuam morando em imóveis alugados pela Samarco. Elas convivem ainda com atrasos na reconstrução dos distritos destruídos. Vinte e duas pessoas e as empresas Samarco Mineração S.A, BHP Billiton Brasil, Vale e VogBR Recursos Hídricos e Geotecnia são réus no processo, que se arrasta na Justiça.

Ver galeria . 22 Fotos Barragem de rejeitos se rompe em mineradora de Mariana e inunda distrito Corpo de Bombeiros/PMMG
Barragem de rejeitos se rompe em mineradora de Mariana e inunda distrito (foto: Corpo de Bombeiros/PMMG )

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade