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Estado de Minas

Risco de estragos durante a chuva não tem endereço em Belo Horizonte

Ocorrências mais graves na capital com as últimas tempestades mostram que ameaças pesam também sobre imóveis bem estruturados, fora das áreas críticas. Chuva já supera o esperado para todo o mês


postado em 10/03/2018 06:00 / atualizado em 10/03/2018 07:20

A mansão cujo muro desabou, em imagens do Google (acima) e depois do incidente (no alto): apesar de bem construída, estrutura não resistiu ao acúmulo de água (foto: Paulo Filgueiras/EM/D.A Press)
A mansão cujo muro desabou, em imagens do Google (acima) e depois do incidente (no alto): apesar de bem construída, estrutura não resistiu ao acúmulo de água (foto: Paulo Filgueiras/EM/D.A Press)

Os temporais que castigam Belo Horizonte em um começo de março especialmente chuvoso mostram que o perigo na cidade não tem endereço. Em um cenário de precipitações sem trégua, o risco de deslizamentos de terra e desabamento de muros cresce na mesma proporção, extrapolando áreas de vilas e favelas mais propensas a esses tipos de risco e levando o problema também para a cidade formal. As últimas ocorrências de maior destaque na capital mostram que, com precipitação acumulada que chega a representar quase o dobro do esperado para o mês em apenas nove dias, as ameaças chegam até áreas de alto padrão construtivo. A principal demonstração ficou evidente quando um muro de seis metros de uma casa de luxo no Bairro São Bento, na Região Centro-Sul, desabou, espalhando toneladas de entulho e terra pela Rua Abel Araújo e bloqueando o trânsito de veículos na via.

Segundo o proprietário da casa, o muro foi construído há cerca de 40 anos e, como choveu bastante – foram 307 milímetros (mm) em nove dias na Região Centro-Sul, contra média histórica de 163,5mm nos 31 dias de março –, a infiltração da água no terreno foi muito significativa, o que contribuiu para o desabamento. Além do risco que se espalha pela capital sem distinção de área, o excesso de chuva provocou ocorrências diversas espalhadas também pela região metropolitana. Em Sabará, parte de uma encosta deslizou e acertou uma casa onde estavam cinco moradores, por pouco não causando uma tragédia. O tempo chuvoso também contribuiu para o tombamento de uma carreta carregada de etanol na BR-040, próximo à saída para Ouro Preto, em Nova Lima, na Grande BH. O resultado foi a rodovia totalmente fechada por quase nove horas.

Na ocorrência registrada no Bairro São Bento, em BH, o colapso do muro de arrimo da construção de luxo provocou surpresa, e chegou a levantar suspeita de que pudesse ter havido morte no episódio. “Estava chovendo muito forte. Eu estava na varanda e ouvi um barulho muito alto e, quando fui ver, o muro já tinha caído”, contou uma testemunha da queda da estrutura. A doméstica Carla Marisqueira, de 47 anos, trabalha em uma das casas em frente ao local onde parte de uma quadra do imóvel e a grade de proteção desabaram sobre a Rua Abel Araújo. “Geralmente, nesse horário tem muito carro na rua e funcionários chegando para trabalhar nas casas. Graças a Deus, a rua não estava cheia. Mas uma mulher chegou a se machucar e um homem quase foi pego pela terra,” completou Carla. O Corpo de Bombeiros foi até o local e, com a ajuda de cães farejadores, procurou por possíveis vítimas soterradas, mas constatou que não havia ninguém soterrado.

Os militares foram chamados no início da manhã. “Chegamos no local e fomos conversar com os vizinhos para, assim, avaliar a possibilidade de haver um veículo debaixo do material. Posteriormente, os cães chegaram para descartar a possibilidade de haver vítima sob a lama”, informou o tenente Sérgio Magalhães Júnior, do Corpo de Bombeiros. A corporação informou que o muro só poderá ser removido depois que a chuva diminuir e, por isso, a via ficará interditada por, pelo menos, uma semana. A Avenida Professor Sylvio Vasconcelos ficou parcialmente obstruída e a Rua Abel Araújo, totalmente fechada. Nesse período, os escombros permanecerão na rua, já que eles estão ajudando a conter o deslizamento. “A água infiltrou na terra e deve continuar a haver deslizamento. Acreditamos que ainda devem descer cerca de dois metros de lama”, completou o tenente. Na prática, será necessário demolir o muro para a reconstrução.

O desmoronamento pode ter sido provocado por problemas de drenagem. Segundo a Defesa Civil, o morador foi notificado e deve apresentar um plano de ação para enfrentar os riscos e um laudo de estabilidade do restante do muro. “Esse muro foi projetado há 40 anos, quando comecei a fazer casa e, desta vez, parece que houve uma infiltração. Mas é uma obra muito estruturada, com vigas, então realmente é uma fatalidade, acho que é o excesso de água descendo com a chuva dos últimos dias”, contou o proprietário, Salvatore Luce, de 69. Ainda segundo ele, o arrimo foi nivelado justamente por ser uma região montanhosa. Naquela ocasião, há 23 anos, a quadra de tênis e o quiosque foram construídos. “Foi a primeira casa do Bairro São Bento”, completou o morador.

No mesmo bairro, uma árvore de grande porte também caiu, danificando parte da calçada e atingindo o muro de uma casa e cabos de rede elétrica na Avenida Bento Simão. Tronco e galhos ocuparam a pista durante o fim da manhã de ontem. No vizinho Santa Lúcia, o temporal fez descer uma enxurrada de lama que invadiu a Praça Arcângelo Maleta. Um trator tentou minimizar os danos, mas a passagem ficou praticamente interditada para carros e pedestres.

INTERDIÇÕES


Na quinta-feira, o acúmulo de chuvas já havia provocado outros deslizamentos e desabamentos de muros em áreas da chamada cidade formal, perfil que normalmente é mais comum em áreas consideradas de risco, em vilas e favelas. Na quinta-feira, o escorregamento de uma encosta da Avenida Antônio Carlos, levando junto o muro que protegia uma casa da alça de acesso ao Viaduto República do Congo, obrigou a Defesa Civil a interditar a moradia. Também foram bloqueados os acessos a outros dois imóveis do mesmo endereço. Na quarta-feira, parte de uma rua no Bairro Gutierrez, na Região Oeste de Belo Horizonte, também foi interditada devido ao risco de queda de um muro de aproximadamente seis metros de altura. A barreira pertence a um condomínio localizado ao lado do Colégio Santo Agostinho, na Rua Daniel de Carvalho.

A falta de manutenção em sistemas de drenagem e chuvas mais fortes provocam esse tipo de ocorrência. “Muita chuva em pouco tempo encharca a terra e sobrecarrega o sistema de drenagem. Todas as edificações precisam de manutenção. Logicamente, a cidade informal não tem acompanhamento técnico necessário, ou seja, a chance de haver problema é muito maior. Já na cidade formal, a maioria das casas e apartamentos é feita com projetos aprovados. Mas, ainda assim, acontece”, disse o engenheiro e presidente do Instituto Brasileiro de Avaliações e Perícias de Engenharia (Ibape-MG), Clémenceau Chiabi.

BAIRROS CRÍTICOS


De acordo com o engenheiro, bairros no entorno da Serra do Cultural contêm um solo composto por filito, que é propenso a escorregamento na presença de água. “A região já é ingrime e, com a água da chuva, aumenta significativamente o risco de deslizamentos de terra na faixa que começa lá pelo Barreiro, indo em direção aos bairros Olhos D’água, Buritis, Belvedere, Vila da Serra (Nova Lima), Mangabeiras, Serra, Cafezal e São Lucas, chegando até Sabará”, disse Clemenceau.

Ainda segundo ele, existe uma cultura de investir as economias dos condomínios de prédios em outros tipos de reforma, como as de fins estéticos, deixando as vistorias de lado. “É preciso cuidar da drenagem. Direcionar a água para que ela não fique acumulada”, alertou o especialista. É melhor investir na prevenção: Clémenceau alerta que a reconstrução de um muro de aproximadamente cinco metros pode chegar a custar R$ 120 mil. Normalmente, após os cinco primeiros anos é importante fazer vistorias periódicas. “Trincas, estufamentos e água de drenagem com acúmulo de sujeira podem indicar problemas. É preciso ficar atento para que, caso os sinais apareçam, se chame um especialista para analisar”, completou.

De olho no céu

Volumes de chuva (em mm) por regional de BH, da 0h às 11h30 de ontem (valores entre parênteses indicam percentual em relação à média de chuva esperada para todo o mês)

Barreiro         66,6     (41%)
Centro-Sul    107,4     (66%)
Leste              72,2     (44%)
Nordeste        81,4     (50%)
Noroeste        80,4     (49%)
Norte                7,4     (5%)
Oeste              82,2     (50%)
Pampulha        76,0     (46%)
Venda Nova     54,6     (33%)

Volumes de chuva (em mm) no mês de março por regional de BH até as 11h30 de ontem (valores entre parênteses indicam percentual em relação à média de chuva esperada para todo o mês)

Barreiro        246,6     (151%)
Centro-Sul    307,4     (188%)
Leste               274     (168%)
Nordeste       287,6     (176%)
Noroeste        280,4    (171%)
Norte              142,0     (87%)
Oeste              342,2     (209%)
Pampulha        194,8     (119%)
Venda Nova    171,4     (105%)

Média histórica:     163,5mm

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