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Estado de Minas

Ofício afasta capitão que confirmou risco em barragem da CSN em Congonhas

Um dia após ratificar revelação do EM sobre apreensão com estabilidade de represa da CSN em Congonhas, bombeiro que responde pela cidade tem remoção assinada pelo comando. Em bairros vizinhos ao empreendimento, sirenes ainda estão em instalação e moradores seguem apreensivos


postado em 11/11/2017 06:00 / atualizado em 11/11/2017 07:42

Em bairro vizinho à represa, sirene anunciada pela mineradora ainda está em processo de montagem(foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)
Em bairro vizinho à represa, sirene anunciada pela mineradora ainda está em processo de montagem (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)
Congonhas e Ouro Preto - De um lado, lentidão em providências que poderiam proteger a população de Congonhas em caso de um acidente com a Barragem Casa de Pedra, da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), localizada na cidade histórica mineira. De outro, agilidade na adoção de medidas administrativas envolvendo pessoas que se revelam apreensivas com a segurança das comunidades vizinhas ao barramento. Um dia depois de se pronunciar a respeito da represa de rejeitos – confirmando preocupação com a estabilidade da estrutura, revelada pelo Estado de Minas na edição de quinta-feira – , o capitão Ronaldo Rosa de Lima, que responde pela unidade à qual o município está subordinado, teve sua remoção assinada pelo comando do Corpo de Bombeiros. Enquanto isso, contato com moradores de bairros próximos ao megaempreendimento revela que a adoção de medidas que poderiam salvar vidas em casos de um desastre na estrutura ainda dá os primeiros passos.

A transferência do oficial que respondia por Congonhas consta de documento assinado ontem, ao qual o Estado de Minas teve acesso. O ofício anuncia a troca do comando do Batalhão de Conselheiro Lafaiete, unidade que responde pelo município vizinho. O ato ainda não foi publicado oficialmente, mas seu conteúdo revela o afastamento do capitão Ronaldo Rosa de Lima, designando-o para trocar de posto com o também capitão Rodrigo Paiva de Castro, que chefia a unidade dos Bombeiros em Barbacena, na mesma região (veja reprodução). Na véspera, o oficial havia relatado preocupação com a segurança de moradores que vivem abaixo da barragem de rejeitos da CSN, considerada “propensa a rompimento”. Como revelou o EM, a estrutura se ergue em um maciço de 80 metros de altura com 9,2 milhões de metros cúbicos de rejeito de minério, a apenas 250 metros das primeiras moradias vizinhas. Desde 2016, a mineradora luta para estabilizar, por meio de obras emergenciais, infiltrações na base do Dique de Sela.

Sobre a remoção do capitão, o comandante-geral do Corpo de Bombeiros em Minas, coronel Cláudio Roberto de Souza, que assina o documento, disse  por telefone  que a decisão é “assunto interno”. Segundo ele, as transferências na corporação são feitas semanalmente. “Esse rodízio é normal, natural e corriqueiro”, sustenta. O coronel completou: “No caso específico, não foi publicado nada ainda. O ato precisa de publicação”, afirmou. O oficial, porém, nega que a decisão tenha relação com comentários do capitão Ronaldo de Lima sobre a Barragem Casa de Pedra. “Não tem nenhuma relação. E, inclusive, quem fala sobre esse assunto é o grupo especial formado dentro do governo para isso”, afirmou.

Desde a quinta-feira, reportagens do EM mostram que a estabilidade da Barragem de Casa de Pedra preocupa tanto que o governo de Minas chegou a formar reservadamente um grupo de ação emergencial para elaborar saídas para o socorro das pessoas ameaçadas, independentemente de ações da empresa. Já a CSN afirma sempre ter seguido a legislação e admite que passou a tomar atitudes mais efetivas de garantia da segurança das populações suscetíveis após o endurecimento da legislação federal de segurança de barragens, em maio deste ano.
Ofício do comando dos Bombeiros informa sobre troca de militar que responde por Congonhas
Ofício do comando dos Bombeiros informa sobre troca de militar que responde por Congonhas

Comunidade está despreparada


Em meio à polêmica sobre o comando dos Bombeiros na região, nas comunidades que vivem abaixo da barragem de rejeitos de minério da CSN em Congonhas o clima segue sendo de desinformação e apreensão. Os dois sistemas de alerta por sinalização sonora que a mineradora informou ter instalado em bairros que estão logo abaixo das zonas de devastação em caso de rompimento da Barragem Casa de Pedra, na realidade estão sendo montados e ainda não estão operantes. A constatação foi feita pela reportagem Estado de Minas, que esteve ontem nos locais onde os equipamentos são preparados por operários. Parte das 4.688 pessoas que de acordo com o cadastramento da Prefeitura de Congonhas podem ser afetadas, direta ou indiretamente, nos bairros Cristo Rei, Eldorado, Gran Park e Residencial, nem sequer sabia que a aparelhagem estava sendo implantada. Rotas de fuga em caso de emergência, pontos de encontro ainda não foram divulgadas, segundo integrantes da comunidade.

As duas sirenes que a empresa informou ter instalado – parte de cinco equipamentos do tipo que integram acordo feito com o Ministério Público – estão separadas por uma distância de 850 metros. A primeira fica no final da linha de eucaliptos que desponta do alto da barragem, e servirá para alertar funcionários da companhia sobre a necessidade de evacuação de seus postos de trabalho em caso de emergência. A segunda foi colocada no alto de um morro íngreme no Bairro Lucas Monteiro. Porém, diferentemente do que a companhia informa, os próprios operários que trabalham na instalação confirmam que os aparatos não estão prontos para funcionar.

A dona de casa Márcia Regina Silva dos Santos, de 30 anos, mora em frente ao aparelho e, ao olhar uma enormidade de cabos desconectados, peças ainda soltas e ferros de solda, afirma ter um misto de alívio e preocupação. “Bom, se a sirene está aqui, é porque a minha casa não tem risco. Mas, ainda assim, fico muito preocupada com as pessoas que moram na parte baixa do bairro, perto do rio (Maranhão). Porque o morro que teriam de subir para se salvar é alto demais. Acho que poucos conseguiriam”, afirma.

A mineradora também afirma que tem feito recadastramento nas comunidades, processo durante o qual seriam transmitidas noções básicas de abandono da área aos moradores. Mas a cozinheira Maria Auxiliadora Marciano de Oliveira, de 50 anos, nem  sabia da existência das sirenes. Menos ainda de pontos de encontro em caso de emergência. “Só sei que refizeram o nosso cadastro. Acho que fizeram pouco e levaram muito tempo. A vida das pessoas deve ser as prioridade, não pode esperar tanto assim”, reclama. Segundo ela, hoje, a comunidade está totalmente vulnerável. “Se o pior ocorrer, não tem nem para onde correr. Levo a eucaristia para muitas pessoas que são acamadas. Como é que elas seriam removidas? E as crianças? Na escola, toda chuva é um pânico. Eles ficam com medo de a barragem ‘entupir’ a gente aqui em baixo”, desabafa.

SIRENES
Consultada sobre a situação das sirenes, a CSN reiterou que dois equipamentos estão instalados e três em fase de instalação, assim como 400 placas de orientação e sinalização. As sirenes, segundo a mineradora, serão ligadas e os testes serão feitos assim que a população for devidamente informada sobre a ação, processo que está em andamento. “A empresa preza pelo cuidado no procedimento, para evitar alarmar os moradores, causando pânico desnecessário”, informa nota da mineradora. A instalação dos equipamentos, de acordo com a CSN, está prevista para ser concluída até 15 de dezembro e os testes serão iniciados no dia 26, como parte da série de treinamentos que ocorrerão com a população.

Para Defesa Civil, há estabilidade


Coordenador-adjunto da Defesa Civil estadual, o major Rodrigo de Faria sustenta que o grupo que atualmente trata de ações emergenciais para se antecipar a situações de risco na Barragem Casa de Pedra foi criado em dezembro de 2016, para dar resposta a qualquer tipo de ocorrência relacionada a consequências das chuvas. A Defesa Civil, afirma, é porta-voz da força-tarefa que integra outros órgãos, como Bombeiros, Polícia Militar e diversas secretarias e órgãos estaduais, entre outros. Segundo o major, os membros se reúnem semanalmente e, diante das notícias veiculadas sobre situação de risco no empreendimento, colocou o assunto em pauta para avaliar quais poderiam ser os efeitos da temporada chuvosa na barragem.

O oficial comentou a atual situação do barramento que, segundo ele, é estável. Ele disse que relatório apresentado em setembro, pela CSN, ao Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) atesta por meio de auditoria externa a estabilidade. E que, em vistoria feita na barragem pelo órgão federal e pelo Ministério Público Federal (MPF) na última quarta-feira, 8, a mesma situação foi encontrada. “Não foram constatadas anomalias, o que permite atestar que a declaração da empresa estava condizente”, afirmou. Segundo ele, as providências junto à comunidade começaram a ser adotadas por caráter preventivo. A reportagem do EM tentou contato com o DNPM, mas nenhum representante do departamento foi encontrado.



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