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Estado de Minas

Jovem que vendeu doces para encontrar o papa Francisco viaja a Roma

O estudante Victor Emmanuel passou cinco meses produzindo e vendendo os doces para ir com companheiros da comunidade Shalom se encontrar com o papa Francisco. O embarque para Roma seria ontem à noite


postado em 29/08/2017 06:00 / atualizado em 29/08/2017 07:55

"Não pretendo levar um brownie para presenteá-lo, a fim de evitar problemas no aeroporto. Mas quem sabe consigo uma cozinha lá e faço um bem gostoso?" - Victor Emmanuel Araújo de Oliveira Cunha, de 23 anos, estudante e filosofia (foto: Túlio Santos/EM/DA Press)
Foram cinco meses de expectativa, horas de muito trabalho e noites de um sonho perto de se realizar. O estudante de filosofia Victor Emmanuel Araújo de Oliveira Cunha, de 23 anos, embarcou na noite de ontem para Roma, Itália, com objetivo muito especial: um encontro com o papa Francisco, no Vaticano. Integrante da comunidade católica Shalom, o jovem, morador do Bairro Coração Eucarístico (Região Noroeste de Belo Horizonte), está duplamente feliz, pois conseguiu pagar a passagem antes do prazo previsto, com o dinheiro obtido na produção caseira de brownies, o bolinho marrom, doce e recheado. “Fiz 2.080 unidades, 80 a mais do que o previsto. Mas vou continuar na atividade, para não impactar meu orçamento”, conta, com entusiasmo.

Na tarde de quinta-feira, Victor Emmanuel explicava que é apenas “parte de uma história maior”, já que, com ele, viajaram 22 integrantes da Shalom, que tem sede no Bairro de Lourdes, na Região Centro-Sul da capital. A audiência privada com o papa ocorrerá no dia 4, ao meio-dia, e será a primeira vez que o sumo pontífice receberá a comunidade. “Não pretendo levar um brownie para presenteá-lo, a fim de evitar problemas no aeroporto, logo na chegada à Itália. Mas quem sabe consigo uma cozinha lá e faço um bem gostoso? De todo jeito, vou comprar um solidéu (pequeno chapéu), em Roma, e tentar trocar com o papa.” Em maio, o aluno da PUC Minas falou ao Estado de Minas sobre seu projeto pessoal e do grande desejo de participar do encontro com o chefe da Igreja Católica: “Tive muita ajuda nesse período, formei uma freguesia boa. E ainda consegui um emprego numa hamburgueria, à noite, perto de casa. Para a viagem, com duração de duas semanas, contei com a colaboração do patrão e fui liberado.”

Com um sorriso, diante do retrato de Francisco, o jovem revelou estar ansioso. “É difícil disfarçar, mas acredito que a providência de Deus se manifesta.” Para adquirir a passagem, Victor contou ainda com a ajuda de um amigo, que comprou o bilhete aéreo, parcelado, no seu cartão de crédito. “Muitos colegas também tiveram ajuda, doações. Fico feliz que tenha pago antes do prazo.”

PRIMEIRA VIAGEM
Natural de Teresina (PI), filho único e residente em BH há três anos, Victor faz parte da comunidade nascida em 1980, durante a primeira viagem, ao Brasil, do papa São João Paulo II (1920-2005), que também esteve em Fortaleza (CE). Naquele ano, quando Victor nem era nascido, um rapaz chamado Moisés esteve na presença do sumo pontífice e, como presente, lhe ofereceu a própria vida, o que significava fazer um trabalho de evangelização, trabalhar pelos pobres e com os jovens, entre outras missões hoje espalhadas por mais de 30 países. “Nascia, assim, aos pés do papa, em Fortaleza, a comunidade Shalom, da qual frequento os grupos de oração em BH.”

Dois anos depois, Moisés, que fez voto de pobreza e é celibatário, conforme Victor, abriu uma lanchonete, fazendo ali um trabalho de propagação da fé. “Enfim, pegou as pessoas pelo paladar”, explicou com bom humor o rapaz, que chegou a BH aos 18 anos para morar num convento dos carmelitas descalços, no Bairro João Pinheiro (Região Noroeste). O ditado “quem tem boca vai a Roma” ficou sacramentado na última viagem de Victor a Teresina, em dezembro, quando viu um casal fazendo os brownies, gostou do sabor e da ideia e decidiu seguir o exemplo.

Em Roma, os jovens brasileiros irão se juntar a peregrinos dos países onde a Shalom está presente, e o encontro com Francisco comemorará os 35 anos de criação efetiva da comunidade. “Pretendo ir também a Assis, terra de São Francisco”, adiantou Victor, que fará sua primeira viagem internacional e traz na mochila a biografia do santo. “Tive que separar um dinheiro para pagar a hospedagem. Então, quando voltar, mãos à obra!”

Lembrando dos dias em que começou a preparar os brownies, em março, na cozinha da república de estudantes onde morava, Victor ressalta que aprendeu rápido ofício. No início, os bolinhos foram vendidos na faculdade e por uma amiga, na empresa que trabalha.

Ainda perto do retrato de Francisco, o estudante só tem palavras de admiração para o ocupante do trono de São Pedro. “Ele nos ensina que não é possível amar a Deus, que não vemos, se não amarmos o próximo, que vemos. A Igreja sempre se renova. No caso do papa, ele entende as pessoas, embora muita gente não consiga acompanhá-lo”. Como todos os caminhos levam a Roma, Victor Emmanuel conta se tem esse nome por causa do rei italiano (1820-1878), que hoje é nome da avenida, em Roma, que leva ao Vaticano, “e, por outro lado, aquele que diminuiu o tamanho do estado pontifício”.

Devoto de São José, o jovem revelou que vai todos os dias à missa, geralmente no câmpus da PUC no Coração Eucarístico, reza o terço e participa do grupo de orações na comunidade Shalom, que fica na Avenida Olegário Maciel, e oferece aconselhamento espiritual e orações.

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