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Estado de Minas

Liberação das pistas para ônibus em BH virou armadilha para condutores

Pensada para aliviar motoristas, liberação de tráfego comum em pistas de ônibus de BH nos fins de semana resulta em transtorno e multas, devido a critérios e sinalização pouco claros


postado em 08/08/2017 06:00 / atualizado em 08/08/2017 07:33

Agnaldo Esteves, que não era autuado havia quatro anos, levou seis punições em dois sábados e agora deve R$ 1,7 mil. Como ele, outros se confundem e invadem faixas na Vilarinho (abaixo) (foto: Paulo Filgueiras/EM/DA Press)
Agnaldo Esteves, que não era autuado havia quatro anos, levou seis punições em dois sábados e agora deve R$ 1,7 mil. Como ele, outros se confundem e invadem faixas na Vilarinho (abaixo) (foto: Paulo Filgueiras/EM/DA Press)

A confusão sobre a liberação de tráfego de carros e motos em faixas exclusivas do transporte coletivo em Belo Horizonte – que ocorre apenas em parte das vias, em dias específicos e em horários restritos – vem pesando no bolso de motoristas que trafegam pela capital. Um dos que foram surpreendidos por esses critérios foi Agnaldo Reis Esteves, de 36 anos, trabalhador autônomo que mora em Justinópolis, distrito de Ribeirão das Neves, na Grande BH. Ele alega que não tomava multas havia quatro anos, mas bastaram dois sábados na Avenida Vilarinho, após as 14h, para receber seis autuações, quando ia trabalhar no Bairro Cidade Jardim, na Região Centro-Sul de BH. “A BHTrans anunciou que podia andar na pista de ônibus, mas não sinalizou direito. Em alguns lugares colocou faixas, como na região central, e em outros, não. Na Vilarinho fui pego de surpresa. Caí na bobagem de entrar na pista. Tomei quatro multas no dia 1º de julho e duas no dia 8. Se eu não conseguir recorrer das infrações, vou perder a carteira”, lamentou.


A sinalização com faixas de pano foi colocada na Vilarinho depois dos primeiros fins de semana de testes, segundo a BHTrans, mas para muita gente foi tarde demais. Cada multa custa R$ 293,47 e significa a perda de sete pontos na Carteira Nacional de Habilitação (CNH) pela infração, considerada gravíssima. Como o limite para manter a CNH em um ano é de 20 pontos, as seis multas levadas pelo motorista Agnaldo podem significar a abertura de processo administrativo contra ele, que pode perder 42 pontos de uma vez e ter de passar um período sem o documento, caso as infrações, que somam R$ 1,7 mil, sejam mantidas.

Não se trata de um caso isolado. José Miguel da Silva, de 51, colega de Agnaldo, teve o mesmo problema. Ele trabalha com o amigo em um salão na Cidade Jardim e também mora em Justinópolis. Foram quatro autuações por transitar na faixa de ônibus da Vilarinho em 15 de julho. “Eu sempre trabalho de ônibus, mas aos sábados costumo ir de carro, porque o trânsito é mais tranquilo. E mesmo assim costumo passar pela Padre Pedro Pinto, quase nunca uso a Vilarinho. Nesse dia passei e tomei todas essas multas achando que estava liberado. Espero que a BHTrans reveja essas infrações”, afirma.

A equipe do Estado de Minas constatou a colocação de cinco faixas de pano na Vilarinho, duas delas no sentido Ribeirão das Neves e três no sentido Centro de BH. No local, a pista destinada aos coletivos fica do lado esquerdo, tem o mesmo pavimento das demais e é dividida apenas com as chamadas “tartarugas”, o que facilita a confusão. Também há várias placas ao longo do trecho onde estão as estações de transferência de passageiros do Move  que indicam que o trecho é exclusivo para ônibus. Mas ela tem exatamente a mesma configuração da faixa exclusiva da Cristiano Machado no trecho que está liberado ao trânsito misto na área de ônibus entre o Anel Rodoviário e a entrada de Venda Nova. A única diferença das duas é que uma está à esquerda e a outra, à direita.

Mesmo com as novas faixas explicativas colocadas na semana passada na Vilarinho, a reportagem flagrou invasão de pistas em um domingo, em frente ao Shopping Norte. O motorista passou em pelo menos um dos 14 radares de invasão de faixa da avenida. No local, a desinformação é geral. “Acho que isso deveria ser mais bem divulgado. Confesso que não sei onde pode e onde não pode”, diz o militar Clóvis Venerando de Oliveira, de 58. “Eu prefiro não passar em faixa de ônibus para não correr risco”, afirma a disciplinária Valéria Sousa.

(foto: Paulo Filgueiras/EM/DA Press)
(foto: Paulo Filgueiras/EM/DA Press)
A reportagem do EM também percorreu pontos da cidade em que a BHTrans liberou o trânsito de carros de passeio, motos e caminhões na área de ônibus nos fins de semana, como a Avenida Pedro II, desde o Anel Rodoviário até o Complexo da Lagoinha. No local, quase nenhum carro foi observado trafegando pela faixa de ônibus, exceto naqueles casos em que os motoristas precisavam fazer alguma conversão à direita. Foram vistos até casos em que as conversões à direita na via foram feitas diretamente da faixa do meio, sem passar pela área de ônibus. “Essa medida não está clara. Passo pela Pedro II há muitos anos e nunca soube. Não há uma placa com essa informação”, diz o engenheiro Guilherme de Oliveira Sá, de 28 anos.

BHTrans analisa multas emitidas


Em nota, a BHTrans informa que sinalizou os trechos exclusivos de ônibus liberados ao trânsito de veículos comuns com faixas de pano, além de informar a população pela imprensa e redes sociais. Porém, a empresa também admite que, atualmente, nenhuma das pistas liberadas para o tráfego de carros e motos nos fins de semana está sinalizada com as faixas explicativas.

Segundo a empresa, as multas emitidas na Vilarinho estão sendo analisadas e podem ser revistas. Nessa avenida, segundo a empresa, a liberação não ocorreu porque o Move faz paradas de embarque e desembarque na via, da mesma forma que ocorre nos corredores da Antônio Carlos, Pedro I e Cristiano Machado. Já o Viaduto Leste continua proibido porque é a ligação entre o túnel da Cristiano Machado e a Avenida do Contorno, no Centro. Por fim, a BHTrans informou que o objetivo da medida é melhorar a mobilidade e que os testes em curso vão durar 90 dias, antes de a empresa tomar uma decisão definitiva sobre o caso.

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