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Estado de Minas

Aumento de camelôs em bairros fora do Hipercentro dificulta fiscalização e irrita lojistas

Pressionados pela fiscalização da Prefeitura de BH no Hipercentro, clandestinos migram para o Barro Preto e para Venda Nova, onde concorrem com quem aderiu ao plano de formalização do município


postado em 02/08/2017 06:00 / atualizado em 02/08/2017 07:59

Na Avenida Augusto de Lima, no Barro Preto, bancas que antes eram isoladas se multiplicaram e agora informais disputam clientela com os que deixaram as vias da área mais movimentada da cidade(foto: Alexandre Guzanshe/EM/DA Press)
Na Avenida Augusto de Lima, no Barro Preto, bancas que antes eram isoladas se multiplicaram e agora informais disputam clientela com os que deixaram as vias da área mais movimentada da cidade (foto: Alexandre Guzanshe/EM/DA Press)

Basta uma caminhada por Belo Horizonte para perceber que o problema dos camelôs vai muito além do Hipercentro, onde a questão vem sendo enfrentada pela prefeitura da capital. Não muito longe, uma das principais avenidas do Barro Preto, também na Região Centro-Sul, está tomada por ambulantes e se tornou novo ponto de muitos dos clandestinos em fuga da fiscalização municipal na área mais movimentada da cidade. Outros migraram para Venda Nova, onde a Rua Padre Pedro Pinto também está lotada de comerciantes informais. Essa mudança criou uma situação inusitada, na qual camelôs que aderiram ao plano municipal de se mudar para o shopping popular instalado na região sofrem com a concorrência dos “colegas” que continuam nas calçadas. Entre um grupo e outro, há quem ainda desconfie da política traçada pela administração municipal para inserir os vendedores de rua em centros populares de comércio e quem espere a ampliação do programa para outras áreas da cidade. Entre opiniões diversas, um consenso reina: o receio da fiscalização e a incerteza dos próximos dias.

No Barro Preto, o local escolhido pela maioria dos ambulantes é o trecho da Avenida Augusto de Lima entre ruas Araguari e Paracatu. O camelô Neles Almeida Rezende, de 38 anos, que é pedreiro e artesão, conta que trabalha na rua todas as vezes que está sem emprego. Ele vê com desconfiança a política da prefeitura para o setor, que envolve dois shoppings populares – um no Centro e outro em Venda Nova. Eles estão acolhendo temporariamente os camelôs, que ficarão por quatro meses trabalhando em bancas, ao custo mensal de R$ 30, até a aprovação de projeto de lei enviado pelo Executivo à Câmara Municipal para ordenar a atuação dos ambulantes em caráter definitivo.

“O aluguel pode não ser caro, mas puseram várias pessoas em um lugar em que não entra gente para comprar. No Centro, o shopping é ao lado das lojas dos chineses, que são nossos fornecedores. Minha irmã vende bijuterias e foi sorteada. Ela está passando fome”, afirma. Vendedor de um artefato que promete “acabar com o estresse”, ele defende outro local para os ambulantes. “Um lugar adequado, onde pelo menos passe gente para ver nossa mercadoria”, diz.

(foto: Alexandre Guzanshe/EM/DA Press)
(foto: Alexandre Guzanshe/EM/DA Press)
Camelô há oito anos, três somente no Barro Preto, Vanessa Barbosa, de 24, vende bolsas e sonha com um lugar fixo, desde que visível. “O ideal são feiras livres, como existem em São Paulo e no Rio de Janeiro, que deixam a rua bonita, ajudam lojistas e a gente e geram emprego. Poderia ter em várias ruas que têm espaço para pedestres e as barracas. Se nessas cidades-polo têm, por que não aqui?”, questiona. A jovem se preocupa com a migração dos ambulantes do Centro. “Antes era só eu praticamente. Agora, com várias pessoas, o Barro Preto se tornou foco da fiscalização. Estou vivendo na incerteza. A qualquer momento eles podem vir e nos tirar daqui.”

Pedestre sem vez


(foto: Alexandre Guzanshe/EM/DA Press)
(foto: Alexandre Guzanshe/EM/DA Press)
Em Venda Nova, a concentração é na Rua Padre Pedro Pinto, com as bancas instaladas em um único lado da via. Lá, o desafio é andar pelo passeio. Frutas, eletrônicos, brinquedos, roupas e uma infinidade de itens estão disponíveis em bancas praticamente coladas umas nas outras. São tantas que provocaram uma situação inusitada: no shopping Uai, no número 1.500, os camelôs que atuavam no Centro e foram sorteados pela PBH para se instalar no centro de comércio popular hoje têm como concorrentes os próprios ambulantes, que marcam ponto bem em frente à galeria.

Vendedor de roupas no Uai, Erick Maia, de 24, conta que vendeu a moto para investir no negócio. “A segurança é a melhor coisa do mundo. Ninguém vem aqui nem para roubar nem para comprar”, diz, em tom de bom humor. Segundo ele, a mínima visibilidade só ocorre por causa da feira de roupas que também ocupa o piso inferior. “Vende roupa, porque o resto tem na rua. Ninguém está vendendo nada. A concorrência lá fora é desleal. Tirando os camelôs da rua, acredito que esse problema será resolvido”, diz, mostrando o livro-caixa com ganho de R$ 0 em vários dias. Mas ele não desanima. “Os camelôs que estão aqui querem uma oportunidade. Acredito que vai dar certo, mas acredito também que a prefeitura vai tirar os ambulantes. Muitos estavam aqui dentro e já foram para a rua”, denuncia.
Em Venda Nova, ambulantes que aderiram ao plano da administração municipal e se mudaram para shopping popular agora se queixam da concorrência com os que continuam lotando a Rua Padre Pedro Pinto(foto: Alexandre Guzanshe/EM/DA Press)
Em Venda Nova, ambulantes que aderiram ao plano da administração municipal e se mudaram para shopping popular agora se queixam da concorrência com os que continuam lotando a Rua Padre Pedro Pinto (foto: Alexandre Guzanshe/EM/DA Press)
(foto: Alexandre Guzanshe/EM/DA Press)
(foto: Alexandre Guzanshe/EM/DA Press)

Jobson dos Santos, de 39, também torce pela ordenação do espaço em Venda Nova. “Se não houver providência, não teremos o dinheiro nem do almoço. Muita gente está fazendo o shopping de depósito de mercadoria e trabalhando na rua, e ninguém está fazendo nada”, relata. Camelô há 12 anos em Venda Nova, Poliana Santos, de 29, que tem banca em frente ao Uai, está ansiosa pelo início do cadastramento da prefeitura. “Falaram que seria feito no dia 27, mas de qual mês?”, questiona. Ela é a favor de se instalar num shopping, desde que todos saiam da rua, pois, caso contrário, “o cliente não compra”. “É complicado ficar na rua. Embora a gente venda bem, atrapalhamos a via pública. Se tirar todos, acredito que os clientes irão até onde estivermos.”

(foto: Alexandre Guzanshe/EM/DA Press)
(foto: Alexandre Guzanshe/EM/DA Press)


CONVOCAÇÃO Em entrevista coletiva anteontem, a secretária municipal de Serviços Urbanos, Maria Caldas, confirmou que uma operação será feita em Venda Nova, a exemplo do que ocorreu no Centro, mas não informou data ou prazos. Sobre o Barro Preto, a assessoria de imprensa afirmou que nada está previsto para a região. No caso do Hipercentro, a prefeitura deu um ultimato aos 576 dos 1.134 camelôs cadastrados que ainda não se manifestaram sobre o interesse em ocupar vagas nos shoppings populares. Eles têm até o dia 21 para fazê-lo ou perderão o direito aos postos de trabalho.

Ontem, foi publicada no Diário Oficial do Município (DOM) portaria convocando as pessoas que se disseram camelôs do Centro, mas que não foram identificadas inicialmente pelas equipes de cadastramento, para comprovar atuação como ambulantes na área. De acordo com a Secretaria de Serviços Urbanos, durante atendimento individual feito no fim de junho no Parque Municipal para esclarecimento das novas oportunidades, cerca de 900 pessoas estiveram no local alegando ser ambulantes, que, por algum motivo, não participaram do cadastro.

Os interessados que se encaixam nessa condição devem comparecer entre os dias 7 e 11 ao Shopping Uai (Rua Saturnino de Brito, 17, Centro), das 9h às 17h, com documentos de identidade e CPF, comprovante de residência e declaração de atuação como camelô no Hipercentro de BH, conforme modelo fornecido pelo município, acompanhado de material que prove a condição.

Entenda o caso


» A Prefeitura de BH está fazendo valer o Código de Posturas e iniciou fiscalização coibindo a presença de camelôs nas ruas e avenidas da área central da cidade. Anunciado em março e instituído por meio de decreto no fim de junho, o Plano de Ação do Hipercentro traz propostas para acabar com a proliferação e atuação dos camelôs nessa região da cidade.

» Em troca, a administração municipal promete subsidiar, durante cinco anos, os custos de vendedores ambulantes em shoppings populares privados, por meio de um projeto de lei enviado à Câmara Municipal. O modelo começa com os ambulantes pagando apenas R$ 30 mensalmente e ocupando espaços com a configuração de feiras livres dentro dos centros de comércio popular.

» Se aprovado o projeto de lei, o Legislativo vai autorizar a prefeitura a subsidiar o aluguel dos ambulantes em shoppings populares durante cinco anos. Eles começarão pagando R$ 30 e, ao fim do quinto ano, estarão pagando 100% do valor de R$ 600 relativo ao aluguel. Hoje, o preço médio de um box gira em torno de R$ 1,2 mil.
» A diferença, segundo a PBH, é que eles já terão passado por cursos profissionalizantes que permitirão a eles uma organização melhor para dar conta de tocar seus negócios. As primeiras vagas em cursos dessa natureza estarão disponíveis para início das capacitações em setembro.

» Enquanto o projeto de lei não é aprovado, a PBH propõe que os ambulantes trabalhem em bancas de shoppings populares parceiros ao custo de R$ 1 por dia, pelo período de quatro meses. Estavam disponíveis 1.547 vagas para os 1.134 comerciantes informais cadastrados pela prefeitura. Em meio a protestos e confrontos com a polícia que fecharam a Praça Sete, foram sorteadas, no início de julho, 871 para o shopping Uai, na Avenida Padre Pedro Pinto, em Venda Nova, e 676 para o Uai, no Centro, ao lado da rodoviária.

» Outros postos de trabalho serão abertos em feiras livres e feiras regionais, principalmente para a venda de comida e artesanato.

» A operação que mirou o Hipercentro se repetirá em Venda Nova, anunciou a prefeitura.

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