
A Polícia Civil investiga a origem das labaredas, que começaram no último pavimento do imóvel, na Rua Conselheiro Rocha, no Bairro Floresta, na Região Leste. O fogo ainda danificou o segundo pavimento. Móveis foram destruídos e parte da estrutura física foi consumida pelas chamadas. Os dois andares estão interditados.
Excepcionalmente, na noite de ontem, 100 pessoas foram acomodadas no primeiro andar. Outros 100 foram encaminhados para o Albergue São Paulo, no Primeiro de Maio, na Região Norte – o transporte foi garantido pelo município. Portanto, o incêndio reduziu a quantidade de leitos disponíveis em 200 vagas.
Vale lembrar que o universo da população em situação de rua (cerca de 2 mil pessoas) é maior que o de leitos disponíveis em abrigos (aproximadamente 1 mil vagas). Segundo a Secretaria Municipal Adjunta de Assistência Social (SMAAS), outros 200 leitos do Tia Branca serão remanejados hoje para outros abrigos.
A prefeitura não informou quando o segundo e o terceiro pavimentos do Tia Branca devem ser reabertos. Ontem, no primeiro andar, o jantar foi servido a todos que bateram às portas do abrigo, como o capixaba Luiz Carlos Spíndola, de 54 anos. “Vi o fogo e saí correndo. Fiquei assustado”, recorda o homem.

Homens que retornaram ao abrigo no início da noite, atrás da refeição e da esperança de conseguir uma vaga em outro abrigo, relataram cenas de desespero. Ânderson Vieira, de 43, contou que o medo foi tanto que ele derrubou uma porta para conseguir chegar à Rua Conselheiro Rocha.
Horas depois, já calmo, cobrou dos governantes brasileiros melhorias nas políticas públicas: “Meti o pé na porta. Escreve aí que, enquanto a gente trabalha e paga impostos, eles estão na mordomia, gastando errado o nosso dinheiro”. Ânderson trocou a cidade histórica de Mariana por Belo Horizonte, há duas décadas, em busca de uma vida melhor.
Seu colega Cleverson Silva, de 54, deixou a cidade vizinha Contagem e encontrou abrigo no Tia Branca, como diz, “há uma boa temporada”. Ele também estava no abrigo durante o incêndio. “Você tinha que ver. Ainda bem que a gente não se feriu”.
Mais pessoas vivem na rua
A chamada população em situação de rua em BH cresceu 57% em 10 anos, atingindo 1.827 homens e mulheres em 2013, ano-base do terceiro e último censo exclusivamente sobre o assunto. Problemas familiares (52% das respostas) são o principal motivo que levaram essas pessoas a deixarem seus lares. Em seguida, o álcool ou drogas ilícitas (43,9%).
Mas a falta de moradia (36,5%) e o desemprego (36%) também foram relatados pelos entrevistados. A soma dos percentuais supera os 100% em razão de as pessoas responderem mais de uma opção.
Quase a metade (44,8%) passa o dia e a noite em bairros da Região Centro-Sul. Depois, aparecem as zonas Norte (15,6%), Nordeste (9,3%) e Pampulha (9,2%). As demais áreas da cidade apresentaram índice inferior a 6%.
O levantamento apurou que 43,4% dormem nos abrigos municipais. A maioria (94%) informou aos pesquisadores a vontade de encontrar um lar. Segundo o estudo, 64,2% vieram do interior de Minas Gerais. Uma estatística curiosa: 12% trabalham com carteira assinada.
Essa população é formada, predominantemente, por homens (86,8% dos entrevistados). A idade média é de 39,6 anos. Esse dado comprova o envelhecimento dos moradores em situação de rua na capital, segundo a prefeitura.
Apenas 5,9% dos entrevistados vivem na companhia de parentes. Em 1998, no primeiro censo, tal percentual era de 24,8%. Na segunda edição, 13,6%.
