Patricia Giudice e jefferson da fonseca Coutinho

O presidente da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP), Ailton Brasiliense, avalia que o preço é alto demais para a qualidade oferecida nas cidades. E critica, afirmando que o problema é histórico e esbarra na falta de prioridade dos governos à mobilidade coletiva. “As cidades não têm corredores de ônibus, não têm semáforos coordenados, Belo Horizonte mesmo foi planejada para o limite da Contorno e os prefeitos deixaram o crescimento solto. Hoje, a distância entre o emprego e a moradia é muito longa e isso encarece o custo do transporte”, afirmou. Mas ele ressalta que as prefeituras precisam fiscalizar os contratos com as empresas e cobrar melhorias para os usuários.
Entre a cobrança que não vem e os resultados que demoram, tem gente que passa quase cinco horas por dia, de segunda a sexta-feira, à espera ou dentro de um transporte público precário. É a vida que leva Izabelle Karine Martins Moreira, de 19, moradora do Bairro Santa Cruz, em Vespasiano, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. De casa até o trabalho, no Bairro de Lourdes, na Região Centro-Sul da capital, é longo o caminho, até mesmo para quatro lotações. E caro: são R$ 3,45 mais R$ 2,80, por trajeto. Ida e volta somam R$ 12,50 por dia. Com 1,77m, Izabelle reclama do espaço entre as cadeiras. Quando consegue assento, enfrenta dificuldade para se ajeitar. “As pernas precisam ficar apertadas, de lado”, diz.
Para a engenheira de transportes Sabina Augusta Kauark Leite, não falta só conforto: falta regularidade ao sistema. A reclamação, segundo ela, é a que ouve com mais frequência entre os usuários. “Às vezes a pessoa está no ponto há 20 minutos esperando, mas não é que a linha esteja deficiente, e sim porque o ônibus ficou parado no congestionamento. Pode até ser que algumas linhas estejam incompletas, mas o trânsito atrapalha a manutenção dessa ordem”, explicou. A gestão pública, segundo ela, precisa ter mecanismo para analisar a qualidade do serviço prestado e essa avaliação deve valer para manter ou não a concessão do serviço. “Pode haver locais em que a empresa não está operando bem, mas, se o poder público não acompanhar, nunca vai saber para cobrar do operador do sistema.”
Em pesquisa feita pela Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU), 65% dos entrevistados disseram considerar a passagem de ônibus/micro-ônibus muito cara, sendo que 64% da totalidade usa o serviço. O estudo foi feito em 255 municípios brasileiros, todos com mais de 100 mil habitantes, e os entrevistados têm 15 anos ou mais, entre eles muitos chefes de família. A maioria, 62%, aponta como principal problema das cidades a violência, seguida de saúde (41%), desemprego (38%) e, em quarto lugar, o transporte (20%). A educação aparece com 14%.
Em relação à gratuidade, a engenheira Sabina Augusta defende o benefício para quem tem renda mais baixa, ao contrário de alguns integrantes dos movimentos sociais, que falam em catraca livre para todos os usuários. A Pesquisa de Mobilidade da População Urbana, da NTU, mostra, por exemplo, que quem recebe mais de cinco salários mínimos compromete apenas 4,2% da renda com transporte coletivo, enquanto quem tem ganha até um salário tem impacto de 53% sobre a renda. “Na hipótese de o governo bancar o transporte para a população, lembrando que para isso deixará de investir com outros itens de igual importância, qual é a razão para que essas pessoas da faixa de renda maior tenham gratuidade?”, questiona a especialista.
Ela ainda analisa que aqueles que recebem de 3 a 5 salários mínimos comprometem menos de 8% de sua renda com transporte coletivo, como mostra a pesquisa, mas, para os trabalhadores com carteira assinada, o empregador banca 6% e o restante sai do rendimento. “Restam então aqueles que não recebem o benefício do vale-transporte. Para esses e também para quem ganha menos de 3 salários mínimos, deveria haver uma política pública para subsidiar o transporte”, defende.
