Gustavo Werneck e Valquiria Lopes
Nas primeiras baladas depois da tragédia em Santa Maria (RS), frequentadores da noite, em Belo Horizonte, ficam atentos à segurança nas boates, pubs, casas de shows, inferninhos e outros lugares de diversão. Da noite de quarta-feira à madrugada de ontem, nas mesas ou na fila para entrar, a conversa quase sempre girava em torno da morte de mais de 200 pessoas na Boate Kiss, que pegou fogo na madrugada de domingo. Precavido e indo pela primeira vez à Cachaçaria Alambique, no Bairro Estoril, na Região Oeste da capital, o dentista Lucas Barros quis conhecer o local ao comprar ingressos para ver César Menotti & Fabiano com a namoradora, Luciana Armond. “Estive aqui às 13h30 de hoje (quarta-feira) e pedi para conhecer o interior da casa. Perguntei sobre as saídas de emergência, se havia extintores de incêndio e autorização para funcionar. Não dá para brincar com a vida, tem que checar tudo”, disse Lucas.
Por volta das 23h30, o movimento era grande na porta do Alambique. O comentário das amigas Paula Rodrigues, de 25 anos, estudante de logística, Ludmila Barros, de 24, de direito, e Laura Helena, de finanças, não ficou distante do Rio Grande do Sul. “Claro que ninguém vai deixar de sair, de se divertir, mas vou conferir sempre se há saída de emergência, sinalização e extintor”, comentou Paula, lembrando que as boates deverão treinar melhor as equipes de segurança para socorrer os clientes. “Sem dúvida, todo mundo vai ficar mais esperto. Infelizmente, a gente fica com o coração na mão”, acrescentou Ludmila. Laura acredita que os jovens ainda são inconsequentes e desconhecem os perigos. Antes de entrar, as três amigas combinaram que, em shows, vão ficar longe do palco e mais perto da porta. “Em caso de problema, é só correr”, brincou Laura.
Com capacidade para 200 pessoas, o pub CCCP, aberto há cinco meses na Savassi, tinha, na quarta-feira, metade da lotação para assistir a um show de jazz. O proprietário, Robson Brandão, admite que as pessoas terão um novo olhar sobre as casas noturnas e, de domingo para cá, algumas que vão comemorar o aniversário pediram para ver o local antes da festa. Cantora, atriz e formada em administração pública, Valéria Branco, moradora do Bairro Santa Efigênia, na Região Leste, disse que o fundamental é a fiscalização, aplicação das lei e poder dos bombeiros. “É preciso mudar a legislação e parar com esta história de cada estado ter as suas próprias normas. Sempre encontram brechas para burlar a lei. O governo federal deve ser a autoridade máxima nesses casos”, acredita Valéria. A amiga e cantora Carol Serdeira, vizinha de Valéria, chegou ao pub e foi logo olhando se tinha material inflamável no teto, extintores e saída de emergência. “Estou bem, mas até agora só vi uma porta de saída.” Ela lembrou que os produtores de eventos devem verificar bem os locais de espetáculos. Brandão tranquilizou dizendo que são duas as portas.
RELAXADO Recém-chegado de Manaus (AM), o estudante de engenharia de produção Fabrício Ramos, de 21 anos, contou que fica mais relaxado em casas noturnas: “Só vou a lugares nos quais me sinto seguro. Se sentir que é perigoso, não fico mesmo”. O amigo Javier Dias, de 22 anos, mestrando em ciência da computação, também se mostra mais atento. “O problema não é só incêndio. Pode ocorrer uma briga e a gente ficar sem saída. Chequei todos os detalhes para não passar aperto”, afirmou o jovem.
“Você não acredita, mas estávamos falando sobre esse assunto neste minuto!”, contou ao repórter a arquiteta Carolina Matos, de 30 anos, tomando choppe gelado no CCCP com os amigos André Mata Machado, de 33 anos, funcionário público, Rafael Varella, de 33 anos, cervejeiro, e Sérgio Amaral dos Santos, economiário, de 36 anos. “Um problema muito sério é que as pessoas se esquecem fácil da tragédia. Fala-se nisso durante um tempo, depois começa tudo de novo. A fiscalização deve ser constante”, disse Carolina. Os quatro voltaram de táxi para casa. “A Lei Seca está mais rigorosa. O mesmo deve acontecer com a vigilância das casas noturnas”, disse Sérgio, que, por via das dúvidas, tem pesquisado e repassado aos amigos técnicas simples de sobrevivência em caso de muita fumaça em ambientes fechados.
Retorno tímido às boates
A costumeira noite de ferveção na Boate Josefine, na Savassi, começou tímida na noite de quinta-feira, data que marcou a primeira balada na casa noturna depois da tragédia de Santa Maria. Os poucos frequentadores na porta comentavam sobre o assunto, mas sem saber se em Belo Horizonte podem sair para se divertir com segurança. As amigas e estudantes Mariana Mol, de 23 anos, Lorena Fernandes e Mariana Monteiro, ambas de 24 anos, preferem acreditar que os órgãos de fiscalização vão agir com mais rigor a partir de agora, cobrando o cumprimento das regras de segurança, como saídas de emergência adequadas, portas antipânico e presença de extintores de incêndio. As três lamentaram a dimensão do acidente.
“É uma pena que tanta gente tenha precisado morrer para o Brasil inteiro se mobilizar. Espero que pelo menos esse caso sirva de lição para ninguém mais ser vítima”, disse Lorena. Mariana Monteiro, que é de Salvador (BA) e passa férias em BH, ressaltou que, na capital baiana, duas casas noturnas foram interditadas depois do acidente no Sul.
No Bairro de Lourdes, onde os embalos atravessam a madrugada, jovens também estavam receosos no retorno à balada. Frequentadores assíduos de boate, os estudantes de engenharia civil Gabriel Victoria Tassara e Matheus de Rezende Dutra, ambos de 22 anos, contaram que deixaram de ir a algumas casas noturnas na Savassi por se sentirem desprotegidos. O depoimento foi dado enquanto aguardavam na fila do Circus Night Club, boate da Rua Gonçalves Dias. “Parei de frequentar porque são casas que geram claustrofobia. São apertadas, escuras e até mesmo quem é leigo percebe que elas não apresentam segurança”, disse Gabriel. O colega Matheus criticou a sucessão de erros na Boate Kiss em Santa Maria e, a poucos metros da porta de entrada para o que seria uma noite de diversão, disse: “Espero que em Belo Horizonte não precisemos passar por isso”.
Fim de noite
A madrugada terminaria na Boate A Obra, na Rua Rio Grande do Norte, na Savassi, mas o local estava fechado, embora com anúncio de dois shows para a noite de quarta-feira. Segundo um dos proprietários, Cláudio Rocha, dois dos integrantes das bandas eram menores e os pais não poderiam acompanhá-los por estar viajando. “Dessa forma, resolvemos cancelar as apresentações. Estamos no olho do furacão, mas com a documentação dos bombeiros toda certinha. Mas, se houvesse uma fiscalização, poderíamos ter problemas e não queremos isso”, explicou Rocha. Na noite de quinta, o local funcionou normalmente.
Saída é preocupação
No roteiro da ronda noturna feita pela equipe do EM, da noite de quarta à madrugada de ontem, estava o pub e boate Major Lock, no Bairro São Pedro, na Região Centro-Sul. Muitos jovens, gente bonita e azaração. Alguns deles se queixaram de ver apenas uma porta de saída, mas o proprietário, Ramiro Maia, fez questão de mostrar duas, com sinalização e placas. “Tem lugares em BH em que não tenho coragem de entrar. A gente vê de cara que não têm a menor segurança”, disse a estudante de arquitetura Gabriela Della Sávia, de 20, ressaltando que estava tranquila, pois sempre confere todos os itens de segurança. “Venho aqui há muito tempo”, afirmou. Também estudante de arquitetura, Júlia Gusmão verificou as saídas e equipamentos. Como voz dissonante, um homem na faixa dos 25 anos, que não quis se identificar nem conversar muito com o repórter, se limitou a dizer que não está “nem um pouco preocupado com segurança”.
No mesmo espaço, o engenheiro de produção Mário Fábio Rosendo, bem humorado, disse que anda fazendo um “check-list” das boates: “Assim, não fico preocupado. Essa tragédia de Santa Maria mexeu com a gente”. Para o estudante de logística Guilherme Santos, é importante ficar sempre de olho e aumentar a atenção, “pois brasileiro tem memória curta”.
Já eram quase 2h e a fila era grande na porta do clube Velvet, na Savassi. Os estudantes de teatro Rafael Henrique de Souza, de 23 anos, e Camila Trindade, de 24 anos, revelaram que conversam muito sobre o assunto. “Sair à noite será diferente, haverá uma nova consciência, um olhar diferente sobre as boates”, disse Rafael. Também na fila, Lucas Matos, de 23 anos, ao lado da amiga Gabriele Luz dos Passos, de 20 anos, contou que não esquenta a cabeça, “pois a tragédia poderia ocorrer em qualquer lugar”.
Enquanto isso...
...Novas leis em BH
A tragédia em Santa Maria foi um dos principais temas discutidos pelos vereadores de Belo Horizonte na primeira reunião da Câmara. A necessidade de atualizar a legislação municipal sobre o combate a incêndio em casas noturnas e ampliar os meios de fiscalização foi considerada pela maioria dos parlamentares questão que deve ser prioridade para o poder municipal. Entre os projetos apresentados pelos novos vereadores, está o que prevê a proibição de fogos de artifício em boates da capital. O autor da proposta, vereador Professor Wendel (PSB), cobrou agilidade dos colegas e da prefeitura na tramitação do texto.
