
Sete dias depois de o administrador Fábio Fraiha, de 20 anos, morrer em acidente na Nossa Senhora do Carmo – ao cruzar a pista, o carro dele foi atingido por um Land Rover que a polícia investiga se participava de pega –, a reportagem do Estado de Minas circulou de madrugada na avenida e em trecho da BR-356. Entre as 3h e 4h30 de sábado, pelo menos três duplas de carros desceram a pista no sentido Savassi emparelhadas e ganhando velocidade a pouca distância dos outros veículos na pista. Em todos os casos, os automóveis superaram 110 km/h apenas 600 metros depois de passarem pelo radar do Ponteio. Na madrugada, o EM flagrou ainda motoristas em alta velocidade mesmo sem disputar pegas e condutores que ignoram semáforos no Trevo do Belvedere ao cruzar a Nossa Senhora do Carmo, justamente onde ocorreu a batida que matou Fábio Fraiha (leia mais na página 18).
A primeira dupla de motoristas a entrar na BR-356 emparelhada desacelerou fazendo barulho perto da lombada eletrônica pouco depois das 3h. Os motores de um Honda vermelho e de um Volkswagen Jetta de cor clara estalaram ao reduzir a velocidade. Depois do radar, aceleraram juntos. O ruído era tão alto que do outro lado da curva do Ponteio era possível ouvi-lo. Na saída da curva, próximo ao retorno em obras que são executadas pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), o Honda despontou na frente, com pisca-alerta ligado e farol alto. Entrou na curva seguinte a 149 km/h, sem dar sinais de que diminuiria a velocidade. Ao contrário: o som do motor indicava que o motorista continuava acelerando Nossa Senhora do Carmo adentro. O Jetta ficou para trás, mas continuou o trajeto em ritmo rápido.
Rotina
“Isso (racha) é direto. Toda madrugada de sábado e de domingo é assim. Tem hora que acho que os carros vão capotar em cima da gente”, diz um segurança de boate no Shopping Ponteio, que prefere não ser identificado. Ele conta que todas as madrugadas em que trabalha fica apreensivo no ponto de ônibus instalado no meio da curva. “Durante a semana tem menos gente disputando racha, mas vemos muitos correndo”, emenda o atendente de uma lanchonete que fica aberta de madrugada na altura do Bairro Sion. “Aqui não é lugar para isso, mas não tem jeito. Tem sempre uma batida, quando não morre gente”, acrescenta. Segundo quem trabalha à noite na região, o fluxo principal é de motoristas que descem das boates da Raja Gabaglia para a Savassi.
Às 3h20, a reportagem flagrou outro momento de perigo na curva do Ponteio. A 113 km/h, um Fiat Marea e uma BMW desceram no sentido Savassi emparelhados, com as traseiras quase saindo de lado. Colados, os dois precisaram, numa fração de segundo, desviar de uma picape mais lenta que estava à frente. Por pouco não houve um acidente. Quarenta minutos depois, por volta das 4h, um Honda Civic preto desceu a pista acelerando ao lado de um Toyota Corolla prata e, mais uma vez, os motoristas puseram em risco quem estava na pista. Os dois carros chegaram a 127 km/h, quando encontraram tráfego à frente. O Toyota reduziu bruscamente, enquanto o Honda entrou de uma vez na pista da direita e, naquele espaço estrito, se espremeu entre outros veículos para fazer a curva, quase atingindo quem estava em volta.
Além de motoristas que aceleram juntos, disputando corrida em via urbana, há outros que aceleram sem “adversários”, o que não é menos perigoso. A reportagem flagrou mais de 20 motoristas passando pela Nossa Senhora do Carmo acima de 100 km/h.
