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Estado de Minas

Conheça a história da Dama do Sertão, uma mulher à frente do seu tempo

Moradores de Pompéu, no Centro-Oeste de Minas, comemoram os 260 anos de nascimento de dona Joaquina, a Dama do Sertão. Além de manter um império em fazendas, estudos apontam que era boa matriarca


postado em 25/08/2012 06:00 / atualizado em 25/08/2012 07:00

Em pintura de Yara Tupynambá, Joaquina aparece com um pé calçado e outro descalço, indicando seu amor pelo sertão(foto: BETO NOVAES/reprodução/EM/D.A PRESS -18/8/11 )
Em pintura de Yara Tupynambá, Joaquina aparece com um pé calçado e outro descalço, indicando seu amor pelo sertão (foto: BETO NOVAES/reprodução/EM/D.A PRESS -18/8/11 )
A história do país é repleta de mulheres corajosas, empreendedoras e sempre dispostas a vislumbrar, de cabeça erguida, novos horizontes e oportunidades. Esta semana, por sinal, a revista norte-americana Forbes, especializada em finanças e economia, incluiu três brasileiras – a presidente Dilma Rousseff, a presidente da Petrobras, Graça Foster, e a modelo Gisele Bündchen – entre as 100 mais poderosas do mundo. No passado, muitas outras se destacaram. Uma delas foi dona Joaquina do Pompéu (1752–1824), a chamada Dama do Sertão, de reconhecida influência nas Gerais na segunda metade do século 18 e início do 19 e participação até nas lutas pela independência do Brasil. Este mês, os moradores de Pompéu, na Região Centro-Oeste, onde ela viveu e está sepultada, celebram os 260 anos de nascimento da personagem ilustre natural de Mariana e batizada Joaquina Bernarda da Silva de Abreu Castelo Branco. Encerrando a programação festiva, haverá hoje, às 21h, show na Praça Levi Campos, no Centro da cidade localizada a 170 quilômetros de Belo Horizonte.

Não se sabe como era a real fisionomia da fazendeira, mas um quadro existente no salão nobre da Câmara local, pintado em 1998 por Yara Tupynambá, dá o tom da figura valente, determinada e que parecia viver em dois mundos. “O pé calçado simbolizaria as suas ligações com a corte, enquanto o descalço indicaria o amor pelo sertão”, diz o diretor do centro cultural e presidente do Conselho Municipal do Patrimônio Cultural, Artístico e Histórico de Pompéu, Hugo de Castro. Segundo pesquisas, a mineira era grande criadora de gado, destacando-se pelo fornecimento de alimentos para a corte portuguesa, tão logo dom João VI (1767–1826) e seus súditos famintos desembarcaram no Rio de Janeiro em 8 de março de 1808.

Joaquina era filha do português Jorge de Abreu Castello Branco, que, depois de ficar viúvo, se ordenou padre, e de Jacinta Tereza da Silva, nascida na Ilha do Faial. Em 1760, a família se mudou para Pitangui, onde a menina, com apenas 12 anos se casou com o capitão Inácio de Oliveira Campos, neto do bandeirante Antônio Rodrigues Velho, conhecido como Velho da Taipa. O casal foi morar na Fazenda de Nossa Senhora da Conceição, que havia pertencido a Antônio Pompeu Taques, primeiro morador da região – o nome da cidade é uma homenagem a ele. Tiveram 10 filhos, 87 netos, 333 bisnetos e 1.108 trinetos. O número de descendentes chega a 80 mil, com pessoas espalhadas pelo Brasil e documentadas em livro, conta Hugo.

Rica e poderosa: assim era a Dama do Sertão. Tanto que teria um patrimônio estimado em 1 milhão de alqueires de terra, 2,4 mil juntas de bois carreiros e cerca de 10 mil cavalos, além de muitos escravos. O pequeno império se estendia de Pará de Minas a Pitangui e de Pompéu a Paracatu, na Região Noroeste. A sanha empreendedora teria aflorado com a doença do marido, que ficou paralítico, obrigando a mulher a ficar à frente dos negócios. Aproveitando as boas chances que a vida e o mercado lhe ofereciam, dona Joaquina teve o nome em alta nas esferas reais por doar mantimentos à corte. Dizem que foram 200 bois e essa ajuda, aceita de bom grado por dom João VI, teria fortalecido a imagem comercial da fazendeira e aberto as portas da praça do Rio de Janeiro para venda de gado e de outros mantimentos provenientes de Pompéu.

Barões

No seu solar em Pompéu, demolido em 1954 , dona Joaquina recebeu e hospedou, em 1811, expedições chefiadas pelos barões Wilhelm Ludwig von Eschwege (1777–1855), diretor do Real Gabinete de Mineralogia do Rio de Janeiro, e, dois anos depois, Georg Wilhelm Freyreiss (1789–1825). Ao retornar à corte, Eschwege dedicou seu livro Pluto brasiliensis à matriarca de Pompéu e sua família. Eis um trecho da obra: “...de Pitangui em diante viajamos por améns campos, banhados por numerosas lagoinhas, onde ao lado de uma jiboia, milhares de aves palustres aquáticas, grandes e pequenas ostentam a sua deslumbrante plumagem... Chegamos assim à fazenda do Pompéu que possui uma superfície de 150 léguas quadradas pelo menos. Ela é habitada unicamente pela proprietária deste principado, dona Joaquina Bernarda, cujos súditos são as 40.000 cabeças de gado...”

Entusiasmado com o legado da fazendeira e acostumado a fazer palestras sobre a vida dela, Hugo conta que dona Joaquina fez também grandes doações de gado para abastecimento das tropas, no período que antecedeu a independência, em 1822. Segundo o escritor Agripa Vasconcellos, o patriotismo de dona Joaquina era tão grande que, nessa época, ela “usava em sua roupa fitas na cor verde-e-amarelo”. E mais: ela esteve com dom Pedro I (1798–1834) quando o príncipe visitou Vila Rica, atual Ouro Preto e, segundo relatos da época, “uma grande comitiva com mais de 10 mulas chegou a Vila Rica, parecia até o cortejo de um bispo”.

“Foi uma grande senhora, e das lendas que existem, pouco se pode aproveitar. Se analisarmos a lógica da época e documentos, percebemos que era uma boa mãe, uma boa sinhá, enfim, uma grande matriarca à frente de seu tempo. Podemos concluir tudo isso com um exemplo simples e de conhecimento geral, mas que as pessoas nunca param para pensar. Ela mandou construir um cemitério cristão para sepultar seus escravos, fato inédito, pois os cativos, na maioria das vezes, eram tratados como animais. Na fazenda dela, quando os negros morriam tinham direito a missas e a uma sepultura digna”, diz Hugo.

Centro cultural abriga tesouros

Quem for a Pompéu deve visitar o Centro Cultural Dona Joaquina do Pompéu, no Bairro São José, a um quilômetro do Centro. Inaugurado há um ano, o casarão colonial com dois pavimentos abriga o Museu da Cidade, anfiteatro e área administrativa, guardando objetos que pertenceram à Dama do Sertão, como oratórios, bengala com cabo de bronze, espadas do filho e do neto da matriarca e outros pequenos tesouros. Pintado de azul e datado de 1871, o prédio foi erguido pelo bisneto da personagem ilustre, Antônio Cândido de Campos Cordeiro, nas terras da sua antepassada – a Fazenda do Laranjo, perto do Rio Paraopeba.

Surpreende que o belo sobrado, com 18 janelas e varandas, quase tenha desaparecido do mapa devido às obras de uma represa para a Usina Hidrelétrica de Retiro Baixo. A salvação foi possível graças ao acordo judicial firmado, em 2008, dentro de ação civil pública proposta pelo Ministério Público (MP) do estado, com um consórcio formado por duas empresas – elas se comprometeram a desmontar toda a fazenda, então a 60 quilômetros do Centro de Pompéu, e reconstruí-la, tal como era, externa e internamente, na cidade. A operação foi toda bancada pelo consórcio e custou, na época, R$ 2,3 milhões, ficando o complexo cultural sob responsabilidade da prefeitura local. O Conselho Municipal do Patrimônio Cultural, Artístico e Histórico de Pompéu já deliberou sobre o tombamento do prédio.


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