Publicidade

Estado de Minas

Rodovia Rio-Bahia tem 166 pontos de assédio contra crianças e adolescentes


postado em 19/05/2012 06:00 / atualizado em 19/05/2012 07:18

Jovens abordam caminhoneiro no entroncamento da BRs 116 e 381, no vale do rio doce. Em dois anos, 3.251 crianças e adolescentes foram retiradas das rodovias por patrulheiros federais(foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)
Jovens abordam caminhoneiro no entroncamento da BRs 116 e 381, no vale do rio doce. Em dois anos, 3.251 crianças e adolescentes foram retiradas das rodovias por patrulheiros federais (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)
 

A BR-116 (Rodovia Rio-Bahia), uma das principais estradas brasileiras, é a que tem mais locais de exploração sexual infantil na Região Sudeste, segundo o Mapeamento dos Pontos Vulneráveis à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes nas estradas federais. Dos 166 pontos, 86 estão no trecho que corta São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Em Governador Valadares, no Vale do Rio Doce, o entroncamento das BRs 116 e 381 é um desses pontos vulneráveis. É caminho de cargas pesadas e diversas, ponto de parada conhecido por caminhoneiros solitários que não se inibem com a presença das polícias Militar e Rodoviária Federal. Continuam a parar nesses locais, na calada da noite ou em plena luz do dia, e a embarcar adolescentes que desde cedo aprenderam a ganhar a vida com o próprio corpo e se degradam perdendo a infância e a juventude.

O Estado de Minas passou a madrugada dessa sexta no local onde duas menores faziam programas em uma área que mais parece um ninho de trapos e pertences sujos que elas carregam num dos canteiros centrais do entroncamento movimentado. No chão, dividem os cigarros de várias marcas que coletam dos caminhoneiros, garrafinhas de refrigerante com cachaça e cartelas de comprimidos de remédios com anfetaminas, os chamados "rebites", usados pelos viajantes para dirigir mais horas seguidas. De acordo com o estudo da Polícia Rodoviária Federal, a exploração ocorre em locais onde há presença de caminhoneiros em 91,9% dos pontos críticos de todo o país.

"A gente vai (faz programa) com quem passa, se prometer cuidar da gente. Deixam a gente por perto e nos encontramos aqui (no entroncamento) de novo. Uma (prostituta) protege a outra", diz uma jovem de 16 anos, com olhos entorpecidos e a fala desconexa, reflexos da mistura, elas tomam para suportar programas com dezenas de caminhoneiros.

A pele das meninas exibe marcas da vida difícil na boleia de caminhões e dentro de carros. Pernas e braços têm erupções, cicatrizes fundas de cortes, hematomas e feridas mal curadas. “Tem muito homem ruim que maltrata a gente, faz programa e não quer pagar, rouba nosso dinheiro, bate, machuca a gente e ainda nos larga no meio do mato”, conta a adolescente mais nova.

Segundo o professor da Faculdade de Educação da UFMG e integrante do Programa de Atenção Integral e de Referência ao Enfrentamento da Exploração Sexual contra Crianças e Adolescentes, muitos caminhoneiros escolhem meninas mais novas com medo da proliferação da aids. “Eles pensam que, por serem menores, as meninas oferecem menos risco para transmitir doenças”.

A conversa das menores com a reportagem, contudo, não se alonga muito e prostitutas adultas, assustadas, com medo da chegada da polícia, fazem ameaças. A garota de 16 anos, então, tira da parte de trás do short da colega de 14 anos um estilete e tenta intimidar a equipe de reportagem, para que as deixem “trabalhar” em paz. A atitude faz sentido: nos últimos dois dias a reportagem percorreu pontos conhecidos de prostituição e exploração infantil na região e testemunhou a migração das meninas, justamente por conta da repressão policial e conscientização da sociedade.

Dados do relatório da PRF afirmam que nestes dois anos de pesquisa 3.251 crianças e adolescentes em situação de risco foram retirados das estradas pelos agentes durante patrulhamento em 65 mil quilômetros de rodovias do país.

Nos postos de abastecimento, frentistas e gerentes contam que impedem a concentração das menores que costumam abordar caminhoneiros. Na entrada de Periquito, próximo dali, a legião de meninas foi afugentada pelas garotas de programa adultas, que tiveram prejuízo por causa das ações policiais e esvaziamento da clientela. “Aqui a gente põe para correr qualquer menor. Só faz ponto com a gente se for maior. Senão, a polícia fica em cima e dá até cadeia. Ficam dizendo que a gente é que as trouxe”, disse Julieta, de 24 anos, que afirma ser a mulher que organiza a atividade naquele local.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade