Publicidade

Estado de Minas

Córrego que mais carrega lixo e esgoto para a Pampulha é contaminado


postado em 27/11/2011 07:31 / atualizado em 27/11/2011 13:15

Um riacho de águas que correm mansas e recebem em seu curso pelo arvoredo o toque leve de folhas de galhos mais baixos. A cena própria de matas ciliares é o que os dicionários descrevem como sarandis. O cenário idílico, contudo, não poderia ser mais distante da realidade do Córrego Sarandi, apontado por especialistas como o principal poluidor da Lagoa da Pampulha. Suas nascentes, no Bairro Cinco, em Contagem, na Grande BH, já brotam sujas de dejetos domésticos e lixo de canalizações cinzentas que mais parecem esgotos do que minas.

As águas turvas e malcheirosas que mais poluem a Lagoa da Pampulha correm por 16,7 quilômetros recebendo jatos de esgoto clandestino, sacos de lixo doméstico, pilhas de entulho e até animais domésticos mortos. Em sua jornada diária até a lagoa, o Sarandi despeja diariamente centenas de quilos de poluentes. Em seu encontro com o Córrego da Ressaca, em frente ao Parque Ecológico da Pampulha, os dois levam 4,1 toneladas de poluição a cada mês, segundo medições deste ano.

A contribuição anual dos dois ribeirões para a degradação da lagoa chega a 50,52 toneladas de poluentes. São 92,05% de todos os dejetos que chegam à lagoa e que totalizam 54,88 toneladas. É como se todos os dias os dois córregos despejassem 138 quilos de poluentes concentrados na lagoa. As informações são do Atlas da Qualidade da Água do Reservatório da Pampulha, reunidas pelo Laboratório de Gestão Ambiental de Reservatórios (LGAR) da UFMG. “O esgoto e o lixo no Sarandi são um problema gravíssimo. Os detergentes e restos jogados têm fósforo. Esse elemento químico favorece o crescimento de algas e cianobactérias que cobrem a lagoa e reduzem sua oxigenação”, aponta o coordenador do LGAR, o biólogo Ricardo Motta Pinto Coelho.

O afloramento da primeira nascente ocorre no chamado “hortinho florestal” do Bairro Cinco. Das ruas movimentadas, onde carretas circulam carregadas entre indústrias e fábricas, a mata de eucaliptos parece ser um santuário verde cercado por asfalto e concreto. Mas a primeira sensação de quem entra no bosque é do cheiro forte de esgoto nas narinas. O local se tornou bota-fora clandestino, com lixo de todos os tipos: sacos com restos de alimentos, embalagens de laticínios, produtos de limpeza, cosméticos, calçados velhos, um vaso sanitário e até um sofá.

CHUVA É impressionante tudo isso ser atirado no mato, quando a apenas 50 metros dali funciona um posto de recolhimento de lixo da Prefeitura de Contagem. “Falta educação. Custa andar mais um pouco e jogar as coisas num lugar certo? Já vi gente jogar tudo fora. Aí, a chuva ainda traz o lixo que fica na rua”, conta Antônio Ribeiro Viana, de 49 anos, um dos funcionários do posto de coleta.

A 500 metros dali, sob a Avenida Sócrates Mariani Bittencourt, a mina d’água aterrada sai por tubulões de concreto já escura e malcheirosa pelo esgoto lançado no Bairro Monte Castelo. O curso contaminado com lixo encontra o degradado pelo esgoto quase sob o trevo entre a BR-040 e a Via Expressa de Contagem.

No meio do caminho, mais esgoto é lançado pelas casas de bairros do entorno do Córrego Sarandi e dos cursos d’água que o alimentam. “Não tenho rede de esgoto na rua. O jeito é jogar a água suja toda no córrego”, lamenta a aposentada Maria Maura de Jesus, de 53 anos. A família dela e de outras dezenas de casas do Bairro Morada Nova, em Contagem, despejam seu esgoto diretamente num riacho que deságua no Sarandi. Ela diz que, se tivesse rede de esgoto, faria o lançamento doméstico nela. “No fim dos tempos, vamos ficar sem água. Lembro-me de quando esse córrego era limpo. A gente vinha apanhar água, tomava banho nele. É uma pena ver o jeito em que ficou”, disse.

Mais à frente, já em Belo Horizonte, onde o ribeirão corre em canalização aberta na Avenida Clóvis Salgado, o EM contou 17 pontos de acúmulo de entulho nas margens do Sarandi. “É gente que passa aqui à noite e despeja os restos de construção e lixo de carroças, de carrinhos de mão e carros. Aí, vem a chuva e leva tudo para o córrego”, conta o telhadeiro Lucas Ferreira, de 21 anos.

Repórter registrou os problemas. Veja:



Publicidade