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Estado de Minas

Execução de travesti na Afonso Pena escancara problemas da Zona Sul de BH


postado em 03/03/2011 07:10 / atualizado em 03/03/2011 09:12

Polícia associa pontos de prostituição na mais famosa via da capital a crimes(foto: Marcos Vieira/Estdo de Minas - 13/08/2007)
Polícia associa pontos de prostituição na mais famosa via da capital a crimes (foto: Marcos Vieira/Estdo de Minas - 13/08/2007)
A Avenida Afonso Pena se transformou num corredor aberto para o crime. O assassinato com nove tiros de um travesti na madrugada de ontem – o terceiro caso envolvendo profissionais do sexo em menos de seis meses – é outra marca da violência e da falta de limites que muitas vezes dão a Belo Horizonte ares de terra sem lei. A execução reforça a série de episódios que atentam contra a segurança e o sossego do cidadão, que, da janela de casa, é intimidado por cenas de sexo explícito, consumo de entorpecentes e prostituição de menores. O cenário é de assustar quem cruza o mais famosos eixo viário de BH, partindo da Praça Sete, em direção ao Bairro Mangabeiras, na Região Centro-Sul. Além do mercado do sexo mantido por garotas e homossexuais, o chamado alto da Afonso Pena abriga, alguns quarteirões acima do local onde ontem houve a execução, verdadeiros bailes funk a céu aberto, onde imperam o abuso de entorpecentes e álcool e a afronta às leis de trânsito, como denunciou o Estado de Minas em sua edição de domingo.

Flagrada pelas câmeras de segurança de um prédio na Rua Piauí, a execução do travesti identificado como Gustavo Brandão de Aguilar, de 22 anos, na madrugada de ontem, reacendeu a revolta entre moradores do entorno da avenida. Em carta aberta à comunidade, eles clamam por policiamento e organizam comissão para pedir providências ao Comando Geral da Polícia Militar (PM), levando em mãos dossiê com todos os crimes ocorridos na região. Uma das providências sugeridas na carta é a instalação de câmeras do Programa Olho Vivo nas esquinas em que o tráfico de drogas é mais intenso. O travesti foi assassinado por volta das 4h de ontem, por três homens com idade entre 17 e 30 anos, com nove tiros. A PM aponta que o crime tem relação com o tráfico de drogas, pois a vítima já havia sido presa anteriormente com cocaína.

De acordo com investigações da Polícia Civil, um dos suspeitos de matar Gustavo é acusado de outros sete homicídios desde 2005. Fernando Túlio Miranda Lages, de 24 anos, conhecido como Pimpolho, é foragido da Justiça há um ano. A suspeita é de que um adolescente de 17 anos tenha dado os últimos três tiros. “Já temos o retrato do Pimpolho. Estamos fazendo um rastreamento para tentar localizá-lo. É um homem muito perigoso”, afirma o delegado da Homicídios Centro, Fausto Eustáquio Ferraz.

Apesar de estarem amendrontados com o crime e com receio de ser identificados, por temer represálias, moradores revelam conhecer bem a situação que culminou com o assassinato de ontem. Para além da prostituição, eles afirmam que a Afonso Pena se transformou em território livre para o consumo de drogas, inclusive o crack. Comprovando a denúncia, vários cachimbos artesanais, feitos de materiais diversos, foram encontrados na manhã de ontem pela equipe do Estado de Minas escondidos em canteiros ao longo da avenida.

Ilhados

Na madrugada de ontem, os irmãos A. e L., de 19 e 20 anos, estavam acordados, por volta das 4h, quando escutaram os tiros. “Tinha um travesti na esquina e, logo depois, um carro acelerou”, conta L., há seis meses morador de prédio próximo ao local do crime. Da janela do apartamento, a família testemunha madrugada adentro a algazarra comandada pelos travestis. “Eles ficam vendendo drogas, principalmente cocaína, jogam pedras nos carros e falam muito palavrão. Fim de semana é um pouco mais sossegado”, relata M., irmã dos rapazes, na expectativa de que a área receba um posto policial.

Um engenheiro de 38 anos que mora em um prédio de luxo da Piauí com Afonso Pena diz não ter nenhuma segurança. “Eu me sinto ilhado à noite, sem ter como sair de casa nem para ir à pizzaria do outro lado da Afonso Pena. Assim que anoitece, chega o traficante de moto e entrega vários pacotinhos aos travestis. Os clientes param o carro na Afonso Pena, descem o vidro, pegam o papelote, pagam e vão embora. É assim, a noite toda”, denuncia o engenheiro, denunciando que policiais militares são coniventes com a situação. “Os travestis ficam encostadas no carro dos PMs batendo papo com eles. Há uma intimidade que eu não consigo entender.”

Ao saber do assassinato de mais um travesti, as lágrimas correram pelo rosto da dona de casa Ana Izabel Diniz, de 80. O choro tem doses de compaixão pela vítima, mas também de temor. “Tenho medo, isso nos traz muita insegurança. Já acordei várias vezes com palavrão, gritaria e muita buzina. Acho uma grande falta de respeito com os moradores”, afirma Ana Izabel, moradora há 10 anos de um prédio próximo ao local do crime. Há reclamações também sobre sexo explícito e consumo de drogas. “Elas espalham cocaína na escadaria de uma casa e ficam cheirando”, conta outro morador, que testemunhou o crime e viu um grupo de travestis espancarem um homem, há dois dias. Já a queixa da comunicadora visual Andréa Leste, de 46 anos, é quanto ao lixo deixado na porta dos prédios. “A gente acha muita camisinha jogada na rua. Acho que a vida deles é a pior que se pode ter.”

A execução da madrugada de ontem não foi fato isolado. Em setembro do ano passado, outro travesti foi assassinado na Afonso Pena com Rua Maranhão. Em janeiro, um cafetão que obrigava travestis e prostitutas a vender drogas também foi morto com vários tiros, em frente ao número 2.898 da avenida.

Vejas as cenas da morte do travesti na Afonso Pena:


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